ROCKABILLYRICS
Glauco Mattoso publica em 1988, pela editora alternativa Olavobrás (criada por Marcelo Tápia), o álbum de poemas musicáveis ROCKABILLYRICS. Em formato de revista e impressa em cuchê, a plaquete reunia letras "rockáveis" que GM costumava divulgar em fanzines e gibis, particularmente CHICLETE COM BANANA, editado por Angeli. Segundo resenhou José Paulo Paes no JORNAL DA TARDE, "com suas ROCKABILLYRICS (S. Paulo, Olavobrás, 1988), a versatilidade do poeta deu outro sinal de si ao se valer dos estilemas das letras de rock para criar uma dicção 'rocabileira' cujo coloquialismo de saborosa fluência se autodefine nesta estrofe de 'Spik (sic) tupinik':" Tem híbridos morfemas a língua que falo meio nega-bacana, chiquita-maluca; no rolo embananado me embolo, me embalo soluço hic e desligo click a cuca. Na FOLHA DE S. PAULO o livro foi comentado por Régis Bonvicino, para quem "'Rockabillyrics' reúne uma dúzia de letras de rock. É uma simulação. Um 'fake' com tendências à paródia e ao humor. São 'letras' que, na verdade, são poemas. Um deles, em especial, merece destaque. É o 'Spik (sic) tupinik', que promove em seus jogos de linguagem uma admirável fusão de palavras de várias espécies, num tom francamente conversacional-irônico." Além de "Spik (sic) Tupinik", anteriormente publicado no JORNAL DOBRABIL e em MEMÓRIAS DE UM PUETEIRO, o livro traz poemas como os que vão exemplificados a seguir. Mais abaixo, confira as notas que historiam cada poema. BICA NA BOCA Aí, meu, e você que já nasceu pra ser pisado, abandonado, carente, infrator, calcula só se o cara que te deixa nesse estado, aquele mesmo chamado de doutor, tropeça e vem pro chão com todo o peso, estatelado, que nem a bola no pé do jogador... já pensou? ou ou ou ou ou ou Sabor de gol! Um chute só e você barbariza a dentadura! Que dá vontade dá, nem cana dura te segura... Tá lá! Aí, meu, e você que trampa duro e tá mal pago, contribuinte, freguês e eleitor, calcula só se o cara que te deixa nesse estrago, o tal de chefe, cacique, diretor, cai do cavalo, escancara a perna e mostra o bago na posição de quem já tá sentindo dor... já pensou? ou ou ou ou ou ou Sabor de gol! Só um pisão e você estrela o ovo na fritura! Que dá vontade dá, nem desemprego te segura... Tá lá! Aí, meu, e você que se diz bom rocabileiro, que é bom de "Tutti Frutti", "Peggy Sue", "High School", calcula só se um progressivo, um funky, um metaleiro, ou desses monstros do brega, reggae ou soul, der zebra e pendurar na beira do despenhadeiro em frente ao teu pisante de camurça azul... já pensou? ou ou ou ou ou ou Sabor de gol! É só um pontapezinho e o cara desce das altura! Que dá vontade dá, nem a galera te segura... Tá lá! BORZEGUINS AO LEITO Na boca da avenida, bem no centro da cidade, lá vem ela com pinta de estudante calourinha. Não sei de que colégio, que cursinho ou faculdade, só sei que o que eu queria é que ela fosse aluna minha. O cabelinho dela é uma tentação pro trote: levinho, liso e loiro, escorrendo no decote. E o que me põe mais bobo, mais doido, mais tonto nela é aquele tênis preto amarrado na canela. Franjinha sobre o óculos, boquinha de chiclete, nariz arrebitado, saia acima do joelho. Deve ter mais de vinte e aparenta dezessete. Se ela é coelhinha, eu queria ser coelho. A cinturinha dela parece de tanajura, de olhar já dá formigamento na musculatura. Mas o que deixa ouriçadíssimo este magricela é aquele tênis preto amarrado na canela. Eu fico só pensando nela sem aquela blusa: mamãe me amamentando e eu encolhido no colo. Sem saia deve ser alguma coisa tão confusa que nem Serra Pelada com metrô no subsolo. Nua de corpo inteiro é uma fotografia aérea da Via Anchieta atravessando a Sibéria... Só tem mesmo uma coisa que eu não tirava dela: é aquele tênis preto amarrado na canela. A seguir confira um histórico dos poemas acima colados: "Bica na Boca" saiu em 1989 no gibi CHICLETE COM BANANA. A letra não foi musicada por um "rocabileiro", mas por um verdadeiro "fusionista": Edvaldo Santana, que deu a "Bica na Boca" arranjo swingado e a incluiu em seu repertório a partir do show "O Tonto e o Zorro" em agosto de 1988, até que, em 1993, saiu gravada no LP/CD LOBO SOLITÁRIO, que Edvaldo lançou pelo selo Camerati. Mais recentemente, a faixa foi remasterizada para inclusão no CD antológico LIBERDADE DE EXPRESSÃO. "Bica na Boca" foi também musicada pelo poeta e guitarrista João Bandeira, que a interpretou no show "Impressões digitais" em dezembro de 1990. Confira ambas as gravações acessando O LETRISTA. "Borzeguins ao Leito" saiu em 1988 no gibi CHICLETE COM BANANA e foi incluído por Augusto Massi na antologia ARTES E OFÍCIOS DA POESIA (1991), e por Wilberth Salgueiro no livro FORÇAS & FORMAS: ASPECTOS DA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA, DOS ANOS 70 AOS 90 (2002), tendo repercutido internacionalmente a ponto de aparecer na REVISTA DAS LETRAS (suplemento do jornal O CORREO GALEGO), de Santiago de Compostela (2000). Foi a primeira letra do livro que teve arranjo genuinamente rockabilly e gravação por uma banda do gênero: incluída no repertório do trio mineiro Os Baratas Tontas, está gravada no CD NERVOS À FLOR DA PELE!, que lançaram em 1996 pelo selo Cogumelo. A faixa foi também incluída na coletânea URBANOISE, produzida pelo próprio GM para o selo Rotten Records, por ele criado em sociedade com o baterista Português, da banda punk Garotos Podres. Veja também o link O LETRISTA. Para amostras mais antigas da poesia de GM, entre em: MEMÓRIAS DE UM PUETEIRO LÍNGUAS NA PAPA Para poemas selecionados por assunto, entre em: TEMÁRIO MATTOSIANO ![]()
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