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Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida por Glauco Mattoso a
Álvaro de Faria para o jornal RASCUNHO (Curitiba), matéria que saiu no
número 38 (2003) sob o título "A poesia do escárnio".


"A POESIA DO ESCÁRNIO", por Álvaro Alves de Faria

[Enquanto os grupinhos se formam no mingau de todas as tardes, Glauco
Mattoso se recolhe mais em seu mundo]

À pergunta quem é você, Glauco Mattoso responde: "Acho que é um
desgarrado, que tem, sim, seus referenciais, de Sade a Bocage, de
Gregório a Oswald, mas que valoriza menos as escolas que os casos
particulares da história literária, como a esquelética morbidez do
paraibano Augusto dos Anjos ou a balofa mordacidade do paranaense Emílio
de Menezes. Sou camoniano, mas não canônico. Não sou criticamente
etiquetável, assim como Villon não pode ser enquadrado como 'último dos
goliardos' nem como 'primeiro dos malditos'. O que importa é a verdade
de Villon, que foi bandido de fato, assassino inclusive. Não sou
assassino, mas sou bruxo, e, poeticamente falando, eu me definiria como
PORNOSIANO, isto é, perfeccionista da porcaria. Não atiro pérolas aos
porcos, mas lapido a sujeira e dilapido a higiene estética. Já que não
posso mais sabotar visualmente, soneto cegamente. Desenfreadamente.
Desesperadamente".

Nenhuma concessão a qualquer tipo de facilidade. Nada. Uma poesia
veemente, um beco sem saída. Enquanto os grupinhos se formam no mingau
de todas as tardes, Glauco Mattoso se recolhe mais no seu mundo. Uma
poesia que vai da loucura ao momento mais sublime. Do grito ao silêncio.
Como Augusto dos Anjos — não se trata de comparação — Glauco é um caso
à parte da literatura poética deste país sem poesia. Glauco quer
distância. Um monge num convento pegando fogo, colhendo a poesia
possível. Se é que a poesia é ainda possível. A bem da verdade, disso
não se sabe. As palavras sempre serão poucas para situar Glauco Mattoso.


[1] Afinal, para que serve a poesia?

GM: Para mim serve para desabafar a revolta. Quando ainda enxergava e
estava começando a versejar, fiz apologia da merda e houve quem pensasse
que a escatologia era minha tara, mas eu usava a merda para traduzir meu
desabafo contra os "merdalhões" que monopolizavam (ou polarizavam) nossa
literatura e contra a "cricri-titica" que os paparicava. Depois de cego,
uso a própria cegueira e outras "morbidezas" pessoais para desabafar
contra poderes maiores, sejam terrenos ou imateriais. O protesto é o
combustível da poesia, mas não basta ter motivo e coragem para
desabafar. Carece ter conhecimento de causa, domínio da ferramenta
verbal, e a raiva tem que ser temperada com algum senso de humor, do
contrário o resultado, ao invés de sal e pimenta, só passa impressão
amarga ou azeda.


[2] Você é um poeta marginal?

GM: Não diria marginal, mas sim um poeta de rodapé que vira o livro de
cabeça para baixo e se torna poeta de cabeçalho, isto é, um poeta
"glande". Sou da geração dos chamados "marginais", mas hoje tem gente
(como o Ferrez) chamando de marginal, ao invés dos comercialmente
marginalizados (como nos 70), os socialmente marginalizados (como os
favelados). Fui criado na periferia paulistana, mas não cheguei a ser
favelado. Porém, sendo deficiente visual, fui abusado pelos moleques
malacos, o que me tornou singularmente imaginativo e me distingue de
outros poetas contemporâneos, com seus rótulos generacionais. Não, não
sou marginal, sou mais é inconformado, ou informatável.


[3] Qual é seu nome verdadeiro e por que você adotou o nome de Glauco
Mattoso?

GM: O nome de batismo é Pedro José, mas, como tenho glaucoma congênito,
sou glaucomatoso desde antes do batismo. Logo, meu pseudônimo é mais
verdadeiro que meu nome real.


[4] Você pertence a algum grupo?

GM: Sou independente (os filósofos diriam "solipsista") demais para me
enturmar ou me empanelar. Mesmo entre os gays, quando ajudei a fundar o
primeiro grupo organizado (chamado SOMOS), não me entrosei totalmente,
fosse pelo lado hetero que ainda me dividia, fosse pela preferência
sadomasoquista e fetichista, minoritária dentro da própria minoria. Na
literatura nunca tive carteirinha de epígono (como diz o Willer) nem
quis liderar meus próprios filiados. Acho que sou um daqueles casos
isolados, esquisitos demais para serem rotulados ou para deixar
descendência.


[5] Como você analisa as panelinhas na literatura brasileira?

GM: Como diz o ditado, "panela que muitos mexem ou sai crua ou sai
queimada". Temos dois tipos de panelinha: as cruas e as queimadas. As
cruas são aquelas tão fechadas que não foram mexidas o bastante para que
a sopa (de letrinhas) levante fervura, caso do concretismo, cujos
cozinheiros pouco se revezavam na colher de pau. As queimadas são
aquelas em que a sopa (macarrônica ou arroz-feijão) já ferveu e evaporou
faz tempo, virou raspa, e não parava de chegar cozinheiro novo, caso do
modernismo ou do quarentecinquismo. Nenhum problema com as panelas se o
freguês gosta de sopa. O problema é que quem gosta de salada não quer
saber de panela, mas os cozinheiros se julgam indispensáveis e
insubstituíveis.


[6] Quem você mandaria para o inferno?

GM: Quando criança quis ver a caveira dos moleques que curravam minha
boca. Quando adulto praguejei contra chefes e colegas de trabalho.
Quando saí da casa dos pais passei a amaldiçoar políticos impostores
(isto é, que só criam impostos) e banqueiros salafrários. Agora que sou
poeta consumado sem ser consumido, posso mandar todos eles juntos para o
mesmo lugar, graças ao Dante e a outros comparsas de pena. De quebra, eu
despacharia imediatamente uns dois Fernandos, mais um Fernandinho.


[7] Quem você salvaria de um naufrágio?

GM: Eu salvaria a vida do Lennon, mas não me jogando na frente (como o
guarda-costas do Reagan) e sim alvejando a cabeça do Chapman antes que
ele puxasse o gatilho. Também faria alguma bruxaria para poupar o Renato
Russo ou o Cazuza, se eles tivessem me procurado.


[8] Como e por que você se transformou no maior sonetista da poesia
brasileira?

GM: Se falamos em quantidade, posso ser recordista entre os vivos, com
meus atuais setecentos, mas o recordista absoluto foi o catarinense Luís
Delfino, com seus mil e trezentos. A questão é que Delfino levou uma
vida sonetando e atravessou o romantismo, o parnasianismo e o
simbolismo. Eu comecei a sonetar neste ritmo em 1999, movido pela
cegueira, pelos pesadelos e pela insônia, misticamente assistido por
Borges, a quem traduzira pouco antes. A compulsão de sonetar diuturna e
mnemonicamente só me lembra um paralelo nos transes esotéricos de
Fernando Pessoa. Talvez eles todos (Camões, Bocage, Gregório, Pessoa e
Borges) tenham formado uma junta espiritual para me dar uma forcinha,
mas isso não quer dizer que faço mera psicografia como fez Chico Xavier
com Augusto dos Anjos ou Cruz e Souza no PARNASO DE ALÉM-TÚMULO.
Trata-se apenas de energia antenada.


[9] Ainda faz sentido escrever poemas com métrica?

GM: Não só faz sentido como faz forma. E tanto faz, que os cantadores
nordestinos nem cogitam de introduzir verso livre ou branco no
cordelismo, nem de abolir a redondilha duma glosa para deixá-la mais
verbivocovisual. Acontece que o ritmo é inerente à poesia, seja ela
cantada, falada ou escrita, e métrica e rima nada mais são que
artifícios para acentuar o ritmo. Assim como a música não dispensa a
melodia (por mais que os dodecafônicos achem-na cafona), também a poesia
não prescinde da métrica e da rima. Na minha opinião, mesmo os versos
livres, quando competentes, acabam involuntariamente seguindo um
compasso intuitivo, e é por isso que Bandeira e Drummond têm seu valor
até quando não rimam.


[10] O que você acha da poesia concreta?

GM: Um brazilianista americano (Steven Butterman) que se doutorou com
uma tese sobre minha poesia, observou com muita propriedade que meu
concretismo da fase setentista (que batizei de "datilograffiti" devido
ao uso artesanal da máquina de escrever no JORNAL DOBRABIL) é subversivo
em relação ao rigorismo dos Campos, já que me posiciono na primeira
pessoa e o concretismo ortodoxo é impessoal. Além disso, misturei
contracultura com concretismo e deu merda, ou seja, "graffiti" de
banheiro, sendo que a espacialidade concretista nunca dera espaço ao
concreto duma parede de mictório. Por essas e outras é que, se pago
algum tributo à vanguarda concreta (pelo que me incutiu em termos de
"ostinato rigore" e de "paideuma"), também cobro comissão por ter
"contraculturado" o concretismo e "undergroundizado" seu background.


[11] Existe crítica literária no Brasil?

GM: Historicamente existe, graças a alguns papas sem papas, mas
atualmente o que falta não é crítica literária, é literatura crítica.
Explico: para analisar em profundidade um livro inteiro, só outro livro
inteiro, coisa que já não se faz por causa da exigüidade do espaço
resenhístico na imprensa. Quanto à crítica universitária, é demasiado
atrelada a metodologias e ideologias, mais parecendo teoremas
cientificistas que teoria literária. Nada contra estudar um Drummond
pelo crivo pitagórico, marxista, darwiniano ou freudiano, mas falta quem
se dedique, por exemplo, à poesia delfiniana pelo crivo podólatra, ou
seja, investigando a obra de Delfino através da vida de Delfino, pura e
simplesmente. E falta justamente porque falta pluralismo cultural neste
fim-de-feira globalizado. Menos mal que, como costumo dizer, em terra de
Cego Aderaldo quem tem um olho é Camões. E em terra analfabeta, quem
soneta é poeta. Ainda que cego e descriticado.


[12] E o que dizer dos suplementos culturais especialmente do Rio de
Janeiro e de São Paulo?

GM: Pois é, cheguei a colaborar no CADERNO DE SÁBADO do JORNAL DA TARDE
numa época em que também a FOLHA teve seus cadernos FOLHETIM e LETRAS,
mas agora nenhum grande jornal carioca ou paulista tem qualquer coisa
parecida com o suplemento literário do JB ou do ESTADÃO nos áureos
tempos. Não que fossem o melhor dos foros, mas pelo menos era um espaço
decente. Fora disso, só órgãos alternativos, tipo zines e revistas pouco
comerciais. O Paraná tem sido um caso à parte, desde quando colaborei no
NICOLAU, mas mesmo assim falta maior longevidade aos periódicos
culturais, como de resto a qualquer coisa promissora no Brasil. Tudo
muito efêmero. Até o PASQUIM (onde também colaborei), quem diria, acabou
brizolando e se isolando...


[13] E a turminha da badalação e louvores mútuos?

GM: Essa é a faceta mais fuleira do nosso ambiente literário. Sempre
gostei mais de Bandeira que de Drummond, mas não desdenho tanto de
Drummond quanto desdenho dos drummondianos mundanos. Não é o poeta que
era chato, era a tietagem da claque que enchia o saco. Da mesma forma
que a caetanagem é muito mais antipática que o Caetano, e Machado nunca
foi insuportável como aparentava ser na sala de aula. Daí chego à
seguinte conclusão: os mestres nunca merecem os discípulos e fãs que
têm, razão pela qual prefiro o anonimato à tietagem. Dalton Trevisan fez
muito bem em fugir da badalação.


[14] Quem é Glauco Mattoso?

GM: Acho que é um desgarrado, que tem, sim, seus referenciais, de Sade a
Bocage, de Gregório a Oswald, mas que valoriza menos as escolas que os
casos particulares da história literária, como a esquelética morbidez do
paraibano Augusto dos Anjos ou a balofa mordacidade do paranaense Emílio
de Menezes. Sou camoniano, mas não canônico. Não sou criticamente
etiquetável, assim como Villon não pode ser enquadrado como "último dos
goliardos" nem como "primeiro dos malditos". O que importa é a verdade
de Villon, que foi bandido de fato, assassino inclusive. Não sou
assassino, mas sou bruxo, e, poeticamente falando, eu me definiria como
PORNOSIANO, isto é, perfeccionista da porcaria. Não atiro pérolas aos
porcos, mas lapido a sujeira e dilapido a higiene estética. Já que não
posso mais sabotar visualmente, soneto cegamente. Desenfreadamente.
Desesperadamente.




[sonetos incluídos]


SONETO ENSIMESMADO [506]

Quando Alexei Bueno se insurgiu
contra os pós-pós que a pó reduzem tudo,
poetas outros creram-no posudo
e tomam-no por curto de pavio.

Sustenta ele, contudo, em pleno Rio,
o centro dos modismos, seu escudo
heróico e solitário, que um estudo
isento e sério espera e inda não viu.

Que seja extemporâneo simbolista
e que em soneto o meta-tema meta
reputo como histórica conquista.

Ser único (eu que o diga) no planeta,
filósofo ou pornógrafo, é o que dista
uma sublimação duma punheta.


SONETO ASSUMIDO [509]

Mattoso, que nasceu deficiente,
ainda foi currado em plena infância:
lambeu com nojo o pé; chupou com ânsia
o pau; mijo engoliu, salgado e quente.

Escravo dos moleques, se ressente
do trauma e se tornou da intolerância
um nu e cru cantor, mesmo à distância,
enquanto a luz se apaga em sua lente.

Tortura, humilhação e o que se excreta
são temas que abordou, na mais castiça
e chula das linguagens, o antiesteta.

Merece o que o vaidoso não cobiça:
um título que, além de ser "poeta",
será "da crueldade" por justiça.