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RACISMO E ANTI-RACISMO

A QUESTÃO RACIAL NA POESIA DE GLAUCO MATTOSO


Seja pela excêntrica sexualidade, seja pela cegueira, GM sente na pele o
peso do preconceito e da discriminação, razão pela qual teria que ser
sensível à condição de outras vítimas da intolerância, como as mulheres,
os velhos e as raças ou culturas perseguidas ou segregadas. Nos sonetos
abaixo selecionados o poeta trata, mais especificamente, das questões
pertinentes à etnia, porém mantendo seu linguajar politicamente
incorreto e explicitamente sadomasoquista. [Pedro Ulysses Campos]



SONETO 11 POETICAMENTE CORRETO

O branco diz que o Negro é sub-raça,
mas sabe que a verdade está no oposto;
já viu, por bem ou mesmo a contragosto,
que o Negro é superior em massa e massa.

No músculo é o mais másculo da taça;
no cérebro é o mais músico seu posto.
A cor da rola é a mesma cor do rosto,
e o branco engole, chupa e inda arregaça.

Porém a maior prova está na sola,
e só lá embaixo o branco se compara
no tom da pele e no lugar da bola.

Chutado por quem tanto escravizara,
o branco só merece alguma esmola
se o Negro limpa o pé na sua cara.


SONETO 51 AFRO-DIONISÍACO

Os negros me fascinam, num tal plano
que minha adoração por sua cultura
só não tem mais medida do que a altura
e o pé dum basqueteiro americano.

Venero desde o banto até o baiano,
e a trinca de rockeiros que inaugura
o gênero de som da cor mais pura:
Bo, Berry e o Ricardinho do piano.

Ray Charles já é nome especial,
por ter ficado cego de glaucoma
bem antes que eu tivesse sorte igual.

Quem tem boca (e saliva) vai a Roma,
e eu meto meu nariz no principal:
o pé do negro, em seu sabor e aroma.


SONETO 70 TEUTÔNICO

Até Goethe revela-se esquisito,
pedindo à sua amada Christiana
sapatos que ela usara uma semana:
Dormir a sós com eles é seu fito.

No "Jovem Törless" Musil mostra o rito
no qual fazem Basini de banana:
O aluno imita porco e deve grana,
aos pés dum veterano mais bonito.

Literatura é pouco a um alemão
que gosta de exibir o seu sadismo.
Os concentracionários di-lo-ão...

O pé germânico é, como o racismo,
sinônimo de força e de opressão.
Meu fraco é imaginá-lo com lirismo...


SONETO 118 SIONISTA

Por meio de Isaías, Deus garante
(está em quarenta e nove, vinte e três)
triunfo do Judeu sobre outros reis,
que escravos lhe serão dali por diante.

Submissos a Sião, terão semblante
prostrado em terra, aos pés de quem lhes fez
passar maior vergonha e sordidez:
lamber o pó que suja o hebreu pisante.

Assim será o futuro de Sião,
segundo o testemunho de Isaías:
gentios e nações render-se-ão.

E a mais particular das profecias
é minha, do profeta sem visão:
"Teus pés lamberei já, Judeu." Sabias?


SONETO 204 AO RAPPER

De cor, mulato, pardo, negro, preto.
O branco é simplesmente branco, e só.
Você quer mais respeito, não quer dó.
Quer ser um cidadão, não quer o gueto.

No Sul, no Pelourinho, no Soweto,
lutando contra o falso status quo
da máscara, a gravata e o paletó:
A letra é mais comprida que um soneto.

Seu canto já foi blues, quase balada;
Foi soul, foi funk e reggae; agora é bala
perdida em tiroteio de emboscada.

Xerife do xadrez, você não cala:
leva a periferia pra parada,
de sola entra no som da minha sala.


SONETO 205 AO SKINHEAD

Você diz ter orgulho em ser odiado.
Na ultraviolência faz enfoque.
A bota e o suspensório dão o toque
de classe ao visual abrutalhado.

Alguns não sabem bem qual é seu lado:
Se o estilo está no ska, se toca o rock;
Racista ou não, seu caso é causar choque
e nunca parecer bem-comportado.

Careca no Brasil chamado foi,
por causa da fatal máquina zero
e pelo mesmo grito e som: Oi! Oi!

Cerveja, futebol, fervor severo
ao culto do operário pé-de-boi:
Você calça o coturno que mais quero!


SONETO 209 FARAÔNICO

Vencidos por egípcios, os mais fracos
são feitos prisioneiros e zoados.
Em grupos, uns aos outros amarrados,
levados vão em fila, qual macacos.

Hirsutos, que parecem ter casacos,
inspiram brincadeiras aos soldados.
Nas barbas pentelhudas são currados
e as bocas ficam sendo outros buracos.

São estes os hititas. Norman Mailer
descreve a cena em seu "Noites antigas",
que o Glauco vê num sonho, como um trailer:

Estava em meio às hostes inimigas.
Mas sou domado e viro um... Rottweiler,
que chupa os pés egípcios, e suas vigas.


SONETO 213 JOYCEANO

É de Jacinto Pinto Aquino Rego
a mais famosa frase do idioma:
"Nem sempre quem tem boca vai a Roma,
mas quem tem cabo nunca pede arrego."

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
mas eis que te recordas do axioma:
"Glauco Mattoso é alguém que tem glaucoma.",
vocábulo vernáculo, mas grego.

Diálogo entre a branca e o escravocrata:
— Eu sou da lira, não posso negar!
— O teu cabelo não nega, mulata!

Diálogo entre o cego e o militar:
— O teu regime escuro me maltrata!
— Teu caso até nem é pra lamentar!


SONETO 217 AO RUDE BOY

Seu berço é na Jamaica, no verão,
mas seu inverno típico é londrino.
Ao gueto aculturado, de menino,
mesclou a moda mod e o mundo cão.

Seu reggae, mais veloz na marcação.
Gravata e paletó, seu figurino.
No pé, sapato baixo, bico fino,
e os óculos escuros, noite ou não.

Você foi invejado por galeras
que menos tradição na cena tinham.
Fez fama acima deles, meras feras.

Os críticos, porém, nem adivinham
você na minha lista de paqueras,
por conta dos pezões, que me espezinham...


SONETO 280 A RAMOS DE AZEVEDO

Não é do Martinelli seu desenho,
mas fez duma cidade a felizarda:
São Paulo deve a ele ter mansarda.
Por isso aqui render tributo venho.

Palácios e mansões do seu engenho
saíram. No seu tempo foi vanguarda,
embora alguns sustentem que retarda
da vaga modernista o desempenho.

Faz da Casa das Rosas a revista,
a síntese daquela arquitetura,
francesa, neoclássica, paulista.

Talvez alguma dose de mistura,
mas não há forma pura que resista
à miscigenação, nossa feitura.


SONETO 295 A ERNESTO NAZARÉ, ou
SONETO DE UMA NOTA SÓ

Paulinho da Viola, Pixinguinha:
Por mais que os exaltemos, como eu vinha
(são símbolos supremos do sambinha),
forçoso é recuar até Chiquinha.

No tempo em que a mulher, do lar rainha,
transita entre a paróquia e a cozinha,
Gonzaga quis compor samba e marchinha
e deu ao povo aquilo que não tinha.

Porém é Nazaré quem se avizinha
do gênio pioneiro dessa linha
e faz de seus maxixes campainha.

O rico tinha a polca e a valsinha.
O pobre batucava, não convinha.
Mas Nazaré refina a má farinha!


SONETO 338 BAIANO

Caymmi já cantou. Não quero tanto.
Gregório poetou. Apenas sigo.
Amado descreveu, e estou contigo:
é tua terra altar de todo santo.

Me toca o berimbau. Me encanta o banto.
Retoca o pelourinho meu castigo.
Atrás do trio elétrico me instigo:
sou pós-tropicalista, e aqui te canto.

Baiano, tens meu sonho e meu tesão:
bananas, cocos, caras, cores... yes!
Pirocas, carurus, cuscuz, pirão...

Moquecas, vatapás, acarajés...
Delícias que, de longe, abaixo estão
do gosto salgadinho dos teus pés!


SONETO 371 HEDIONDO

Estupros, latrocínios e seqüestros,
o horror do genocídio racial
merecem punição especial:
castigos, não sinistros, porém destros.

O riso é o mais sarcástico dos sestros
que crispam o desenho facial.
Dos crimes ri o Mentor, Senhor de Tal,
o Réu, maior de todos os maestros.

Na certa o Onipotente é quem responde
por tudo que acontece pra quem erra,
e atrás da impunidade Ele se esconde.

Levá-lo a Nuremberg, após a guerra!
Puni-lo com prisão perpétua! E onde?
No inferno que pra nós criou: a Terra!


SONETO 376 SONORO

As vozes das vizinhas são distintas,
algumas estridentes, outra mansa.
Adultas ou com timbre de criança,
ninfetas, quarentonas, velhas, trintas.

Talvez não imagines nem consintas,
mas meu ouvido cego não descansa:
rastreia, pelo prédio, a vizinhança;
permeia portas, tetos, luzes, tintas.

És tu, balzaquiana, que me passas
total tranqüilidade no teu tom,
poupando-me de dores e desgraças!

Não sei se és linda, pálida, marrom.
Não penso em estaturas, pesos, raças.
Só penso em tua voz, calor tão bom!


SONETO 392 INTEGRALISTA

Encara a liberdade pelo avesso.
Saúda os camaradas no "Anauê!".
O líder cujo livro a turma lê
é o Plínio, e foi salgado no seu preço.

Seu lastro cultural não desmereço,
mas tira do nazismo aquele quê
que, embora no Brasil em nada dê,
repúdio tem que ter desde o começo.

Se resta algo de bom que se aproveite,
talvez seja a lição do acontecido:
Suásticas não servem nem de enfeite!

Integralismo agora faz sentido
somente de manhã, no pão, no leite,
regimes mais saudáveis que o partido.


SONETO 434 A NÉSTOR PERLONGHER

Na frente esteve e está, depois ou antes.
Poeta já portento de portenho,
em Néstor o barroco ganha engenho
e os verbos reverberam mais brilhantes.

Da Frente mítico entre os militantes,
aqui tem maior campo seu empenho.
Da causa negra um dado a depor tenho:
tratou mais que os tratados dos tratantes.

Aos putos imputou novo valor.
Da língua tinha humor sempre na ponta.
Das classes, luta e amor, é professor.

Mediu o que a estatística não conta.
Territorializou do corpo a cor.
Deu tom de santa a tanta tinta tonta!


SONETO 447 (CONTO ANTROPOLÓGICO)

Um náufrago, na costa brasileira,
não fala a língua culta do lugar.
Tentando, em terra estranha, se expressar,
por louco é tido, já que a bicho cheira.

Em jaula, é o gringo exposto nu na feira.
Comprado como escravo, vai arar
a terra do patrão. No novo lar
encontra numa escrava a companheira.

Unidos, vem o filho, que é mestiço,
devido a ser o pai de pele clara.
Crescido, o jovem acha seu serviço:

Será tese do sábio que compara
as miscigenações. Por falar nisso,
na praça a sua porra é da mais cara.


SONETO 464 (CONTO PARTILHADO) [relendo Mário de Andrade]

Criada mora em casa da patroa
com quem desde pequena se criara.
Herdeira solitária, a mulher clara
solteira permanece, e o tempo voa.

Não é seu patrimônio coisa à toa,
porém não desencalha, e se compara
à sorte da empregada, cuja cara
tem cor da do café que às duas coa.

Tiveram ambas sonho e desengano
por conta de namoros abortados.
Agora bebem juntas, ano a ano.

Na noite de Natal, trincham assados
e secam alguns litros de cinzano.
Dois corpos nus acordam abraçados.


SONETO 470 (CONTO HEREDITÁRIO) [relendo Jack London]

Nas ilhas os leprosos são caçados
por terem recusado o leprosário.
Lidera os revoltosos um agrário
ex-membro do "Partido dos Coitados".

Polícia, mercenários e soldados
disputam recompensa de um salário
por cada um que o carro funerário
recolhe e põe no rol dos "vitimados".

Em selvas e montanhas, a guerrilha
dos monstros mutilados vai lutando,
embora caia o dedo que engatilha.

Até que o líder morre e deixa o bando
na mão fria e fanática da filha,
que o próximo rebelde está esperando.


SONETO 490 (CONTO PODADO) [relendo Monteiro Lobato]

O velho jardineiro fora escravo.
É livre, todavia, enquanto lida
com rosa, girassol ou margarida,
hortênsia, lírio, dália, trevo ou cravo.

Entrou de seus decênios já no oitavo.
Não tem nenhum desejo mais na vida
exceto uma área verde ver florida.
Mas donos só cochicham seu conchavo.

Um dia a transação se concretiza
e chega o novo dono, examinando.
Percorre tudo, e até no jardim pisa.

O negro, desgostoso, fala: "Vando!"
Não sabe dizer "vândalo", e agoniza
ao ver que ali virou clube ou quejando.


SONETO 493 (CONTO REPUTADO)

Dizendo que leproso e sifilítico
devia ser tratado como gado
doente e meramente exterminado,
espírito exercia o jovem crítico.

Conquanto visse a si mesmo raquítico,
se fez das eugenias advogado.
Não tarda, pois, que passe ao lado errado
e nazi lhe será o matiz político.

Em termos literários, defendia
um rígido "Paideuma Pindorama":
só "forma e cor local" na poesia.

"A Raça é o Intelecto!", ele proclama.
O Reich é, com certeza, a Academia.
Em suma, boa ou má, que venha a fama!


SONETO 494 (CONTO REMEDIADO) [relendo Machado de Assis]

Um desqualificado ganha o pão
caçando recompensas por fugidos:
casado, a mulher grávida, nos idos
do Império, inda na lei da escravidão.

O filho nasce e, mal corta o cordão,
o pai não quer ter choro nos ouvidos:
em vez de ver a fome em seus gemidos
prefere expô-lo à roda de adoção.

Enquanto o leva, avista a "procurada"!
Empresta ao farmacêutico a criança
e arrasta a fugitiva até a morada.

A paga aporta ao pai nova poupança:
atrás volta e ao bebê não falta nada.
A negra, que era prenha, aborto lança.


SONETO 529 EXTRA-EXPRESSO

Mandou aquele abraço para o Rio.
De Sampa enalteceu a Freguesia.
Levou compasso e régua da Bahia.
Em Londres troca o Trópico por frio.

Com Jorge, Rita e Marley antevi-o.
Com Berry, Cliff ou Wonder bem veria.
Com ele fez escola a ecologia
e a escola fez o samba em que folio.

Veado ou pica-pau, ele os compacta;
metáfora, se abstrata, ele a concreta;
com síntese a internet ele retrata.

É ágil, presto, esperto, pois poeta;
agílimo, da raça expressa a nata;
agudo, mas dulcíssimo: ultra-esteta!


SONETO 586 RETOCADO

Se pinta, se bronzeia, passa creme.
Põe talco, pó-de-arroz, esmalte e gel.
Põe ruge, põe batom e põe chanel.
Apara, apaga, espalha, esfrega, espreme.

Depois de morta, o corpo se lhe creme,
congele, mumifique, empane em mel!
Maquia-se a mulher do Maquiavel,
indiferente ao tempo, ao qual nem teme.

Depila, lipoaspira, malha, opera.
Um dia, é menos plástica que elástica,
por mais que sonhe estar na primavera.

Estetas, geriatras nem ginástica
resolvem nada! Só se regenera
um código em seu sangue: o da suástica.


SONETO 698 SABATINADO [a João Pedro Stedile]

Espelha-se o oprimido no opressor
e vítimas aprendem com carrascos.
Que o digam terroristas, como os bascos,
ou servos de Nabucodonosor.

Amor sempre se paga com amor,
mas outro é quem sucumbe sob os cascos,
em vez do cavaleiro. Menos ascos
desperta quem desforra, mas mais dor.

O caso dos judeus na Palestina
é típico: descontam na Intifada
o gás com que o nazista os extermina.

O algoz francês, na Argélia rebelada,
aplica o que a Gestapo inventa e ensina,
até que a Resistência a dissuada.


SONETO 718 ITAMARAVILHADO [a Ademir Assunção]

Um negro. Voz de príncipe africano.
Nem Ébano, nem Mi-Nas, nem Gilberto.
Às vezes mais errado do que certo,
mas certo no seu erro, heróico, humano.

Teimoso, foi guerreiro de tutano.
No samba pôs guitarra e esteve aberto
a todas as tendências, muito perto
da obra universal, do pleno plano.

Maldito, o Nego Dito era capaz
de ver num Ataulfo uma vanguarda,
desordem progressiva: Pretobrás.

Agora o paraíso um eco guarda
do canto encantador, da cor que faz
ser rei no azul quem nunca vestiu farda.


SONETO 730 ESCULACHADO [a Ferrez]

Não "seje" "inguinorante"! Nunca foi
"ansim" que algum plural se "prenunceia"!
"Nós vai" não é sintaxe que se leia!
Talvez "a gente vamos" melhor soe...

Você só faz poema que destoe!
Seu tênis pega mal calçar sem meia!
Falar de boca cheia é coisa feia!
Não coma em casa alheia feito um boi!

Silêncio! Tenha modos! Mais respeito!
Se enxergue! Dobre a língua! "Teje" preso!
"Percure" seus "dereitos"! Dói? Bem feito!

E o "mano" escuta, atônito e indefeso,
razões para, se autor, não ser aceito,
e, como cidadão, sofrer desprezo.


SONETO 758 DO TEX-MEX

Palavras são palavras, words are words.
Vogais e consoantes servem para,
se bem pronunciadas na taquara
rachada dum inglês, dar som de birds.

Com óculos retratam-se alguns nerds,
talvez por Buddy Holly ter na cara
uns grandes. Quem com ele se depara,
porém, logo o distingue desses turds.

A música o destaca, e sua fala
é clara e cristalina, bem distinta
do negro dialeto da senzala.

O rock americano, desde os trinta
(e não desde os cinqüenta) nos embala
com voz de branco... e negro, quando pinta.


SONETO 817 DO (CON)DOMÍNIO (I)

Meu prédio já viu coisa que parece
por mim mesmo inventada, mas é sério:
enquanto inda enxergava, vi o império
do sarro e do sadismo entre quem cresce.

Meninos inda são. Antes que ingresse
em plena adolescência, a um deles fere-o
um outro, que o domina. Sem critério,
na mão de toda a turma ele padece.

Assim aconteceu: o recém-vindo,
por ser único filho, e sem ter pai,
também hostilizado é por ser lindo.

De início, um dos vizinhos logo o atrai
a qualquer canto oculto e o vai despindo
na marra. Reagiu, ferido sai.


SONETO 818 DO (CON)DOMÍNIO (II)

Após sodomizado, chupa e aprende
que gosto tem um sujo pau. Não tarda,
está chupando os outros. Se acovarda
e nunca os denuncia: já depende.

Aos poucos, quando apanha nem se ofende,
achando-se inferior como a cor parda
do belo rosto usado: a retaguarda
já não é guloseima que mais vende.

Lhe cospem, gozam, mijam boca abaixo...
Fiquei sabendo disso por boato:
talvez quem conta saiba onde me encaixo.

Senti-me como a vítima: o sapato
lambido é só o que falta. O resto enfaixo
no rótulo dos traumas que relato.


SONETO 837 DAS CRENDICES

Lobato nos falava duma mula
que não tinha cabeça, mas soltava
foguinho pelas ventas. Também grava
na mente um ente, o qual recapitula:

Chamado Pererê, o pretinho pula
só numa perna, fuma, manda à fava
humanos e animais que lhe dão brava
caçada, e ao branco o orgulho faz que engula!

São ídolos da raça e da cultura,
assim como o caipora e o curupira,
que sempre dão trabalho a quem procura.

Na sede do governo, há quem transfira
dinheiro que saci nenhum dedura
e escape como a mula: alguém a vira?


SONETO 854 SEMITA

"Shalom!" traduz "Salam!": todo oprimido
é primo do opressor, com quem aprende
a língua de quem compra e de quem vende
petróleo ou arma, a seita ou o partido.

Mais tempo a guerra aos bancos tem servido,
mais rende, enquanto a morte não se rende
à vida. Quando, enfim, alguém desvende
o enigma, já estará tudo perdido.

Salim e Salomão, Torá e Corão.
Caim caiu, e Abel é belicista.
Javé propôs, xiitas disporão.

Na areia, cada gota é uma conquista.
Dilúvios racionaram cada grão.
Divisa é linha. A paz, ponto de vista.


SONETO 933 DITATORIAL

Mal sobe o Tio Adolfo, um coro inteiro
protesta contra o "Império do Milênio".
Imagem logo faz: do Mal um Gênio,
que o Mundo Livre torna prisioneiro.

O povo da Alemanha alvissareiro
enxerga-lhe o futuro. Quem condene-o
idéia não fará que um oxigênio
utópico respira cada obreiro.

A guerra interrompeu todo o progresso
tão rápido alcançado, e em breve o horror
revela o genocídio, em filme expresso.

Isola-se, por fim, o ditador,
e cai, com seu regime, o mais confesso
racismo contra a tribo e contra a cor.