PORCA MISÉRIA!
Glauco Mattoso inicia, a partir de julho de 2003, a coluna intitulada "Porca Miséria!" na revista CAROS AMIGOS, da qual podem ser conferidos, como amostra, os seguintes casos: PORCA MISÉRIA! [#1]
SONETO 679 TRAMITADO [a José Sarney] Esforço concentrado. Destravada, na pauta do Congresso há pão que sobre. Vontades são políticas, e o pobre consolo tem, sentado na privada. Cagar agora pode! A deputada promete aumento ao mínimo, que o dobre! Não há força-tarefa que mais obre! Na mesa do povão não falta nada! Discursos e projetos e propostas! Assim o congressista as mãos esfrega, lavadas e enxugadas pelas costas! Se a lei não funcionar, culpa o colega, que por seu turno tem prontas respostas: "Existe lei que pega e que não pega!" Dediquei este soneto ao Sarney, que, além de poeta e acadêmico, preside o Congresso e sabe (feito o povão ali representado) como é duro administrar panelas e panelinhas, cheias ou vazias. Falando em panelinha esvaziada, que houve com as caçarolas literárias? Noutra época elas queriam ser participantes: a panela de pedra fumegava "forma revolucionária" e a de pirex via na práxis uma paronomásia marxista. Antes, Oswald combatera a forma de pizza parnasiana com seu caldeirão antropofágico, mas de lá pra cá veio diminuindo a mobilização dos utensílios poéticos, cada vez mais pós-modernos ou globalizados e menos politizados. Eu, como PORNOSIANO que sou, sei que em terra de Cego Aderaldo quem tem um olho é Camões. Perdi os dois olhos, mas se não sou rei da cocada cega, cuido que não falte carne na minha frigideira, ainda que a vaca seja de terceira. Se as questões ventiladas são de merda, pelo menos meu ventilador não desacelera como o engajamento dos poetas do fim-de-feira, digo, do fim-de-século, que deviam ser de começo-de-milênio, isso sim!PORCA MISÉRIA! [#2]
SONETO 676 VALORIZADO [a Serginho Chulapa] O esquema de lavagem de dinheiro funciona assim: você dirige um clube atlético, contrata gato e sub de vinte ou dezessete, e o faz boleiro. Até vendê-lo, caro, ao estrangeiro, você pede ao garoto que o entube. Sem chapa opositora que o derrube, seu cargo é como o lucro dum doleiro. O cu, bem fomentado, mais se alarga que as costas sob o peso e o saldo em conta, mas queixe-se: "A tarefa é grossa e amarga!" Se o pau dos centro-avantes ou do ponta sangrar-lhe o cu, você compensa a carga fiscal subindo o passe a quem lhe monta. Lula já falou que boa parte do Congresso era composta de picaretas. Ora, Lula já fez parte da casa, donde se deduz que ele sabia do que falava e não se incluía entre os suspeitos. Isso me lembra a anedota daquele vereador rebelde que declarou: "Metade da câmara é composta de ladrões!" Obrigado a retratar-se, deu uma de Galileu na autocrítica: "Retiro o que disse! Metade da câmara não é composta de ladrões!" Lula nem precisou se retratar, e agora que está no poder talvez tenha ganas de reiterar. Cabe perguntar: e a outra metade? Se a banda que se salva fosse a base aliada, a banda podre incluiria, provavelmente, alguns daqueles políticos que, segundo se apura e se dedura, estariam envolvidos no bilionário esquema de evasão de divisas via BANESTADO. E se Lula não reforma a velha frase, são outras reformas que, alega a turma do deixa-disso, estariam meladas caso os bois fossem denunciados. Aqui me pergunto: será que tais reformas (amargas, adocicadas ou salgadas) compensariam um dedinho daquela azeda franqueza do Lula?PORCA MISÉRIA! [#3]
SONETO 760 DA BOLSA ESCROTAL Estranho monstro informe, esse Mercado! A mídia já cunhou-lhe cada termo que indica quando é são e quando enfermo, se vai ter um chilique ou sente enfado. "Eufórico" se diz se está agitado. "Nervoso" se acha a Bolsa um local ermo. Jamais tal exagero há de fazer-mo simpático ou, no mínimo, chegado. Estou cagando e andando se ele oscila no "humor", se anda "otimista" ou se "reage" ao peido dum magnata ou se outro estrila! Que foda-se o monstrengo e alguém se engaje a sério contra o bicho e que repila seu jogo, mais sacana que um Bocage! Pra mim essa história de "cadeia produtiva" soa como trabalhos forçados numa colônia penal. Que, aliás, é aquilo em que se transformou nosso produto interno bruto no sacolão global. Produto que, por sua vez, me lembra a prisão de ventre que os seqüestrados suportam no cativeiro. Refém terceiro-mundista, quando não caga de medo, segura a vontade. Poesia de país colonizado funciona, portanto, como um purgante, e o poema como um papel higiênico. Com isso não digo que sejamos todos enfezados e que só pensemos em descarregar algo indigesto: não nos esqueçamos de que sentar na privada pode ser um prazer (mesmo pra quem não lê) e que, em alguns casos, além do riso libera o tesão. Cagar é, conclusivamente, o mínimo que se pode fazer no caso brasileiro. O máximo seria gozar enquanto fazemos força, como quem canta enquanto trabalha. Nem todo seqüestrado é masoquista o bastante pra chupar enquanto apanha, mas pelo menos os poetas dão voz a quem engole calado, resgatando, no direito de espernear, a ilusão de dançar ou trepar.PORCA MISÉRIA! [#4]
SONETO 680 MENSURADO Pesquisa científica revela: chulé de adolescente grandalhão mais fétido é que o cheiro do colhão dum jovem desnutrido de favela. Segundo uma estatística, a panela vazia está cheiíssima, e um milhão, se for bem calculado, o espertalhão embolsa e faz de conta que parcela. "Por cento" é abre-te-sésamo da peta. Qualquer besteira é um índice na folha. Cocô na praia é cifra na prancheta. Miséria ou mesa farta, tudo é "bolha". Se crê no que um político prometa ou checa nos jornais, você que escolha! Ainda dou risada lembrando das cenas que, quando enxergava, acompanhei freqüentemente no noticiário da televisão: aquele arranca-rabo entre parlamentares de países asiáticos, incluindo mulheres e com direito a puxão de cabelo, tapa na cara, chute na canela e tesoura voadora. Sempre calculei que, mais dia, menos dia, a baixaria chegaria até os plenários brasileiros. Meu sonho era ver deputados se engalfinhando, perdendo orelhas e falanges a dentadas, vazando olhos e desdentando implantes a pontapés. Como não posso fazer justiça com os próprios pés, eles se justiçariam uns aos outros por mim. Afinal, estão lá pra isso, já que me representam. Infelizmente a moda não pegou por aqui. Mesmo que pegasse, eu já não poderia assistir ao espetáculo. Resta torcer para que todos os membros do Legislativo usufruam do privilégio de portar arma e resolvam, no calor da emoção, fazer uso de suas pistolas. Com bala de borracha, naturalmente, já que ninguém quer ver político morrendo, não é mesmo?PORCA MISÉRIA! [#5]
SONETO 705 PECHINCHADO [a Luís Fernando Novoa Garzon] Comércio entre nações não tem acordo que seja de interesse a cada parte. Quem pode mais garante o que lhe farte e para o menos forte exibe o lordo. O lado americano quer que o gordo bocado lhe pertença, e só reparte com outros seu refugo e seu descarte, mas isca desse tipo eu cá não mordo. Agora nos impingem a tal ALCA, balela disfarçada de franquia que menos favorece que desfalca. Não basta o que depena e o que tosquia da gente quem nos pisa a cara e calca a sola, e inda esse gringo quer que eu ria? Se o "toma lá, dá cá" funciona ao pé da letra na política brasileira, no comércio internacional o sentido é ligeiramente invertido, na acepção gay da palavra: toma lá (no seu rabo), dá cá (o dito cujo). Como diz o ditado, quem parte e reparte fica com a melhor parte, e mais oportuna parece a frase quanto mais iminente se torna a questão da implementação das tais zonas de "livre comércio", isto é, manipulado pelo mais poderoso. Engraçado: lembro que, nos 60, em plena guerra fria, quando ainda havia dois blocos disputando o loteamento global, a frase mais espirituosa dos pichadores era: O Brasil é de quem USA, e quem USA sou EEUU! Se aqueles contestadores pudessem antever a que ponto chegaria o grau de "capitalismo selvagem" dali a meio século, talvez achassem o primitivo colonialismo de então um quase paraíso e até grafitariam, parodiando o Bob Fields, que "O que é BOM para os Estados Unidos é BOOM para o Brasil!"... Naquela época, o que era Mao pra eles era bom pra nós, mas agora LADEN os cães e a caravana passa, e passa como um trator, ou um tanque, por cima dos vira-latas que ficam no caminho da globalização. Daqui a pouco, além de bloquear o acesso dos vira-latas à xepa, eles vão querer cortar-lhes as cordas vocais pra que não latam. A menos que alguém chame a Sociedade Protetora dos Animais. Ou que a molecada cerque a carrocinha e solte os cachorros...PORCA MISÉRIA! [#6]
SONETO 835 DA AVAREZA Pão-duro mesmo é o dono do segredo do cofre virtual, que só especula jogando com papéis, e cuja gula não cede nem do Inferno sente medo. Perverso, esse agiota escolhe a dedo a quem desfalca o lastro e o câmbio anula: se o quintal tropical que elege o Lula ou terras onde o sol se põe mais cedo. É tão cara-de-pau, que em casa cria a "agência" e impinge o "risco" dum país conforme dá na telha, a cada dia! Bem feito pra quem crédito lhe quis pagar! Bastava dar-lhe a nota fria, mandá-lo se foder com seus ceitis! Este soneto faz parte dum ciclo intitulado "Os Sete Pecados Capitais", tema que pede uma genuflexão, digo, reflexão. Na verdade, o único dos sete que mereceria o conceito de pecado capital é o pecado do capital propriamente dito, ou seja, da usura, da agiotagem ou da avareza. Os demais são veniais. Senão, vejamos: a gula não pode ser pecado num país de famintos; a luxúria é o único luxo permissível num país de miseráveis; a inveja é compreensível num país de carentes e excluídos; a preguiça é uma reação natural num país de salário arrochado e subemprego; a soberba, ainda que odiável, também é reação natural em quem é zarolho num país de cegos; a ira, por sua vez, é a mais natural das reações num país de fodidos e mal pagos. Fiz um soneto pra cada caso, mas este encerra o assunto com chave de ouro, já que falamos em cofres e ganâncias. Dizem que o próximo papa será menos conservador que o moribundo. Caso a especulação se confirme, o G7 talvez seja reduzido a G1. Caso contrário, o grupo capitalista pode se ampliar, incluindo, por exemplo, a mentira liberal ou a fraude global. Tudo, naturalmente, perdoável a quem paga em dia suas indulgências...PORCA MISÉRIA! [#7]
SONETO 815 DA TERCEIRA IDADE TERCEIRIZADA Velhinhos encontrados num asilo em triste condição, num promotor despertam choque e raiva. Em seu favor, a mídia mostra aonde chega aquilo. Doente, um chora e geme. Em vez de ouvi-lo, os outros, sem colchão nem cobertor, se espalham pelo chão. Paira o fedor de merda e mijo. O rato anda tranqüilo. A casa de repouso era, por fora, mansão toda cercada de arvoredo e tinha um ar do lar de quem lá mora. Depois de aberta ao público, dá medo e deixa uma impressão de que vigora em toda parte o quadro amargo... e azedo. Já passei dos cinqüenta, mas ainda não me sinto tão desrespeitado como "idoso" quanto fui como homossexual ou, muito pior, como cego. Breve somarei aos estigmas da sexualidade e da deficiência física aquilo que neste país vem sendo cada vez mais motivo de descaso: a velhice. Já brinquei que o cúmulo da discriminação seria uma cafuza lésbica e favelada, mas um velho cego gay pode ser castigo proporcional. Ultimamente o ônus dos idosos tem sido sobrecarregado pela atitude acintosa de certos ministros. Um acha natural que velhos morram por falta de vaga em UTI, e ainda aprova que planos de saúde fiquem mais caros para os sexagenários. Outro obriga nonagenários a entrar na fila para provarem que estão vivos e ainda queria encerrar mais cedo o prazo para que os aposentados peçam revisão do benefício. Enquanto isso, aquelas velhinhas americanas, cujos fundos de pensão investem no nosso mercadinho... ah, essas merecem a maior consideração do governo, que não falha no pagamento dos jurinhos da dividinha externa. Velho gringo é que é feliz, respeitado lá como aqui. Os nossos, se morressem logo, fariam favor aos governos daqui e de lá.PORCA MISÉRIA! [#8]
SONETO 747 DA MONSTRUOSIDADE Remédio adulterado ou falso é o caso mais típico da humana hediondez, pois, quando é contra o câncer, se não fez efeito, não se tira mais o atraso. São tantas as notícias, que me arraso e irmano ao desespero do freguês descrente dum colírio que talvez lhe cause uma cegueira a curto prazo. Opera a catarata e a gota instila o otário no seu olho, mal sabendo que aquilo é merda pura na pupila. Mengélico, o falsário ri do horrendo destino da cobaia, e outras na fila aguardam pelas trevas que estou vendo. Pílulas anticoncepcionais, medicamentos para câncer de próstata ou para contraste intestinal, colírios pós-operatórios... tudo falsificado, envenenado, contaminado. Lógico: num país onde até a pamonha e a cocadinha (para não dizer a maconha e a cocaína) são fajutadas, por que escapariam as drogas lícitas? E por que não escapariam de punição os responsáveis pelos laboratórios? Se é chato constatar que a malandragem se generaliza, é também forçoso perceber que o exemplo vem de cima. E quando digo "de cima" não falo só do governo, mas de quem está acima dele: os FMI da vida. Não foram eles que receitaram à Argentina o remédio anticrítico que quase mata a paciente, caso não esgotasse a paciência do povo? Pelo jeito, a nossa dose tem sido administrada com mais inteligência, o que não significa mais consciência. Cabe ao paciente perder a paciência. Já ouviram falar de "pacientes rebeldes"? Eu sou um deles. O médico me diz para evitar torresmos e gorgonzolas. Eu digo: "Sim, senhor!" E continuo comendo. Quando retorno, ele pergunta: "Fez o que mandei?" Eu minto: "Fiz, claro!" Se ele notar que meu diagnóstico não melhora, que receite outra coisa que não a dieta estraga-prazeres. Assim é que se faz: como digo noutro soneto, a desobediência é uma ciência. Se ser anarquista já é uma difícil conscientização individual, a desobediência civil é uma lenta e gradual aprendizagem coletiva...PORCA MISÉRIA! [#9]
SONETO 993 TRABALHADO Passou a vida inteira no batente o velho senador, coitado, e agora tem gente que defende, sem demora, um corte no que ganha de excedente! O "auxílio-paletó", o "abono-ausente", "salário-amante" e "créditos-por-fora", a verba para o grupo que assessora, é tudo ético, justo e condizente! Correio, gasolina, almoço e chá são poucas regalias a quem presta serviço tal à pátria e o sangue dá! Chamar de "mordomia" é só indigesta, ingrata, má vontade, e "marajá" é a mãe de quem dedura e quem protesta! Imagine você, que está desempregado, se da noite para o dia é admitido numa empresa onde só vai trabalhar três dias por semana e, antes de completar um ano de casa, ganha três meses de férias! Imagine mais: que, se a firma não tiver produtividade, em vez de "enxugar" os quadros, ela convoca você para trabalhar nas férias pagando o triplo em abonos! Imagine ainda mais: que tudo isso é calculado com base no valor que você mesmo decidiu, reunido com seus colegas da comissão de fábrica! Muito bem: se os acionistas, clientes e fornecedores da empresa viessem a público pedir que você trabalhasse quarenta horas semanais e abrisse mão de metade das férias para que não fosse preciso convocar ninguém extraordinariamente, economizando-se a verba de gratificação... o que você diria? Bem, se você fosse um deputado, provavelmente usaria a formal linguagem parlamentar para mandar a opinião pública à excelentíssima senhora sua mãe, não é mesmo? Com uma diferença: numa empresa privada, você pode ser demitido e ela pode reduzir a folha sem colocar ninguém no seu lugar a cada mandato. Ah, sim, tem outra diferença: a empresa pode falir, caso não conserte o rombo e não se livre dos parasitas. Pensando bem, a casa pública também pode... Basta que alguém decrete a falência.PORCA MISÉRIA! [#10]
SONETO 735 REFORMADO #2 Reformas, reforminhas, reformonas: as instituições estão capengas e sobram picuinhas e pendengas por causas bizantinas e cafonas. Reformas, reforminhas, reformonas: estão as cafetinas contra as quengas, as bichas contra os bispos, e as arengas não deixam crescer paus nem abrir conas. Em mil revisionismos se divide a classe pensadora, e a proletária apenas de papai-mamãe decide. Correntes desentendem-se. A contrária concorda com a pró só se o cabide de emprego inclui jetom, féria e diária. Qualquer país pode ter sua máquina governamental funcionando normalmente com uns dez ministérios. Pastas tipo economia, defesa, relações exteriores, trabalho/previdência, educação/cultura, justiça, saúde, transportes, comunicações e, talvez, recursos energéticos. Coisas como turismo, esporte, caça ou pesca Não são tão estratégicas a ponto de merecer mais que uma secretaria ou departamento no organograma deste ou daquele ministério. O resto é cabide de emprego, trem da alegria, nepotismo, loteamento, qualquer coisa, menos austeridade administrativa. Um governo que pulverize atribuições por dezenas de pastas só pode dar idéia de bandalheira. Basta imaginar a diferença entre um Ministério da Ação Social e um do Desenvolvimento Social. Ora, dirão os tecnocratas, a diferença é "operacional": um age, outro desenvolve. Já os cientistas políticos acham brecha para "polemizar as prioridades": "Afinal, que país é este? Um país em ação ou um país em desenvolvimento?" Tudo bizantinismo. Governo que queira ser levado a sério tem que ser como os dez mandamentos ou as regras do futebol. Não existe o "ônzimo" mandamento ou a regra dezoito. Senão, daqui a pouco o Ministro do Abacaxi vai querer disputar verba com o Ministro do Pepino, e o Ministro da Agricultura vai ser mantido no cargo só para não desprestigiar algum partido na hora da reforma ministerial... Ora, dirá um eleitor, "Vão plantar batatas!"

