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PÉ NA BOCA: SONETOS FETICHISTAS



Glauco Mattoso publica, a partir de 2004, diversas seleções temáticas
cuja fonte é a safra de mil sonetos produzidos entre 1999 e 2003. Após
deixar preparadas as coletâneas SONETOS MUSICAIS, ANIMALESCA ESCOLHA,
INCAUTA PAUTA: SONETOS MIDIÁTICOS e POÉTICA NA POLÍTICA, o autor
organiza a mais provocadora de todas: o volume intitulado PÉ NA BOCA,
reunindo cem sonetos desbocadamente fetichistas que celebram o pé humano
(particularmente o masculino) em todas as conotações imagináveis. Parte
desses sonetos pode ser lida virtualmente nos tópicos "Podolatria entre
sexos" e "Podolatria entre homens" do TEMÁRIO.

Eis como o professor Pedro Ulysses Campos prefacia a obra:

[Habitualmente rotulado de "poeta escatológico", "poeta fescenino" e
"poeta da crueldade", Glauco Mattoso não se livra, contudo, da pecha que
mais lhe pega no pé: "poeta fetichista". No caso, o fetiche leva de
lambuja as específicas nomenclaturas do "retifismo" e da "podolatria",
mas seu objeto descamba —  em se tratando de alguém tão singular quanto
este cego literato —  para uma antiestética particularidade: o pé
masculino, com toda a carga negativa de seus atributos olfativos e
gustativos.

Ironicamente, o autor não tem composto poemas podólatras numa quantidade
tão volumosa como se imagina: de sua vasta safra (superior a mil
sonetos), apenas a décima parte seria centrada no fetiche. Eis por que o
repertório aqui selecionado não ultrapassa um cento.

Obviamente a parcela mais substancial foi tirada do livro CENTOPÉIA:
SONETOS NOJENTOS & QUEJANDOS (1999), com o qual Mattoso reestreava na
cena literária após longo silêncio decorrente da perda da visão —  livro
esse que explicitava a intenção de enfeixar cem sonetos podotemáticos.
Mas o conjunto da obra mattosiana é farta fonte de amostras antológicas,
abrangendo os títulos PAULISSÉIA ILHADA: SONETOS TÓPICOS (1999), GELÉIA
DE ROCOCÓ: SONETOS BARROCOS (1999), PANACÉIA: SONETOS COLATERAIS (2000),
CONTOS FAMILIARES: SONETOS REQUENTADOS (2003), CARA E COROA, CARINHO E
CARÃO (2004), CAVALO DADO: SONETOS CARIADOS (2004), além dos inéditos
SONETÁRIO SANITÁRIO e AS MIL E UMA LÍNGUAS.

Em cada uma daquelas coletâneas aparecem casos típicos de fetichismo
poético que, agora reunidos sob a mesma capa, propiciam ao leitor uma
econômica excursão pelo parque temático da podomania. Não só ao leitor
maníaco, é lógico, já que Mattoso usa o pé no sentido próprio e no
figurado, ou seja, sempre encontra um pezinho para pisar em diversos
outros calos da humanidade, que nos afetam a todos, cegos ou não,
sadomasoquistas ou não, desumanos ou não.]


Para uma visão mais abrangente da obra poética de GM, entre em:
TEMÁRIO MATTOSIANO