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O PROSADOR


ALGUMAS OPINIÕES SOBRE A PROSA DE GLAUCO MATTOSO

[Da seção "Resenhas" da revista "Entre Livros": Um pé no presente e outro no século XIX. O poeta Glauco Mattoso revisita "A pata da gazela", de José de Alencar, em seu primeiro romance. Centrado no fetiche por pés femininos, "A planta da donzela" é um pastiche transgressor que escancara a obscenidade de seu modelo e revela, como o autor parece sugerir, o falso moralismo do movimento romântico brasileiro. Sem lição de moral.] [Da seção "Vitrine Brasileira" da "Folha de S. Paulo": Tema: Releitura do clássico "A Pata da Gazela", de José de Alencar, no qual o autor compõe uma fantasia sadomasoquista que serve de tributo ao pé. Por que ler: A união de um provocativo literato contemporâneo, que constrói um trabalho em tom de paródia e pastiche, mas que utiliza com habilidade vários elementos literários da escrita do século 19, acaba revelando-se surpreendente. Mattoso, assim, supera o rótulo de autor maldito, mas sem perder sua identidade.] [De André de Leones, no "Jornal do Brasil": Em parte do meio literário brasileiro, composto por ex-monges, freiras e futuros(as) virgens, um livro como "Contos hediondos", de Glauco Mattoso, será visto como injurioso, apelativo, nojento, "geração 90" e infame. Mas a verdade é outra: levando-se em conta que existem basicamente dois tipos de literatura, a boa e a ruim, que importa não apenas o que é narrado, mas sobretudo como é narrado, e que a cretinice e o patrulhamento contra eventuais "desvios" são moedas correntes, o fato de que um livro como "Contos hediondos" venha à luz é digno de ser celebrado. Veja bem: não se está aqui defendendo uma literatura lanhada por escatologias e brutalidades mil; o que se está dizendo é que o fato de um texto (conto, poema, romance) descrever e/ou tratar de certas violências não o torna, por si só, bom ou ruim. Conforme diriam alguns, o buraco é (quase) sempre mais embaixo. Assim, na medida em que os contos do livro saltam diretamente na jugular do leitor, seria muito fácil enquadrá-lo em um certo tipo de literatura "marginal". Os tolos que fazem um julgamento desses não se lembram de que Rabelais esteve entre nós já há uns bons cinco séculos. Logo, em se tratando desse tipo de abordagem literária, não há nada de exatamente novo, nem mesmo a caretice dos que viram o rosto, incomodados. Interessa, portanto, o modo como Mattoso se movimenta no jogo, e ele se movimenta maravilhosamente bem, com graça e leveza insuspeitas, não obstante o peso dos temas abordados. (...) Do início ao fim de "Contos hediondos", nota-se uma espécie de redimensionamento das coisas, como se, por obra e graça de um artista, o horror recuperasse o seu lugar de direito em nossos imaginários alquebrados. Não se trata de algo meramente "construtivo" ou "destrutivo", mas antes de um entendimento do poder que a literatura ainda possui - ou deveria possuir - de devolver o terror ao que é aterrorizante, de chamar as coisas pelos devidos nomes, de enxergar o mundo sem o filtro do lugar-comum, da irreflexão e da banalidade. Mattoso, portanto, devolve-nos a possibilidade do choque. Nesse sentido, mesmo a subversão (e não "releitura", por favor) do machadiano "A cartomante" perpetrada em "O podomante" é condizente com o teor do livro, na medida em que Mattoso troca, literalmente, as mãos pelos pés e presenteia o leitor com a ideia belissimamente incômoda de que, afinal, somos todos voluntariamente cegos.] [De Cristina Zarur, no jornal "O Globo": Pés, perversões e prazer atiçam a imaginação de Glauco Mattoso. Foi sob esta perspectiva que o autor paulista escreveu "A planta da donzela" (editora Lamparina), baseando-se numa releitura de José de Alencar. Ao acrescentar condimentos picantes ao seu romance ele parodia "A pata da gazela", do autor cearense, devassa personagens e escancara alcovas. Mattoso subverte o moralismo romântico e desconstrói a narrativa alencariana. No livro não faltam taras e ferramentas pós-modernas: sátira, pastiche, paráfrases. Plágio? Não, uma antropofagia literária bem brasileira. Aos 54 anos, Mattoso está no rol dos escritores malditos. Feliz com tal honraria, ele brinca e diz ser pós-maldito diante de tantos "pós" contemporâneos. É herdeiro da linhagem de Gregório de Mattos, Sade, Masoch, Bocage e também da ala francesa que inclui Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. A maldição literária não vem apenas do fato de ele abordar tabus, habilidade cultivada desde o início da carreira, mas também porque seu nome não circula entre o chamado grande público. Portador de glaucoma congênito, o autor, batizado ao nascer como Pedro José Ferreira da Silva, perdeu a visão há cerca de dez anos. Muito antes, porém, já adotara o pseudônimo auto-irônico. Por sua história, ele gosta de traçar paralelos com o escritor argentino Jorge Luís Borges. Ambos foram bibliotecários, tiveram formação erudita, nutriam a paixão livresca e o gosto pela tradição. Outra coincidência? A cegueira progressiva e por fim definitiva. Além disso, Mattoso crê que Borges era um "verdadeiro bruxo", tal como ele. Mattoso se intitula politicamente incorreto, contraditório, uma mistura de Apolo e Dionísio. Nem sempre concilia os paradoxos de maneira pacífica, convive com as contradições como, por exemplo, a do sadomasoquismo. Põe o dedo na ferida, conta como foi molestado sexualmente na infância e desde então adquiriu a obsessão por pés. A molecada da periferia onde ele morava esfregava os pés sujos em sua cara. Seu repertório inclui poesia, ensaios, ficção. Após a cegueira, a melodia das palavras redimensionou sua obra, que ficou menos visual e "concretista". Seus sonetos valorizam cada vez mais os sons e a métrica. E seu temperamento bruxo não inclui apenas a tradição, há várias alquimias ligando-o à contracultura. Rebeldia lida em "Jornal Dobrabil" e "Manual do podólatra amador", exemplos que põem o autor no pedestal de libertino e libertário. Nestas duas obras, Mattoso trabalhou com colagem e enxerto de textos, tal como no novo livro. "A planta da donzela" é um intertexto dialogando com vários autores de época. Numa minuciosa pesquisa Mattoso caracteriza a topografia carioca e recapitula modos e costumes do século XIX. Alencar não foi a única fonte, há outras não explícitas, o escritor deixa a autoria oculta nas entrelinhas. Nessa reciclagem de textos transitam Aluísio de Azevedo, Rocha Pombo e Gilberto Freyre, entre outros. Mattoso diverte-se ao revirar de cabeça para baixo a história de Alencar. Tripudia ao colocar os pés e a irreverência em cima do conservadorismo. Embora o livro não seja mero entretenimento, é hábil no humor. Os pezinhos de Amélia, protagonista de ambos os romances, continuam bibelôs, mas haja diferença nos modos da donzela. A mocinha pudica que saltitava na obra de Alencar se entrega à libertinagem nas páginas de Mattoso. Como sua ficção, Glauco Mattoso é plural, agrega muitas interpretações.] [De David William Foster: A obra mais ambiciosa de Glauco Mattoso analisa o submundo territorial do chamado "sexo sujo" utilizando criteriosamente as mais ecléticas fontes bibliográficas. "Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés" é uma descontraída autobiografia na qual o narrador recapitula seu fetichismo podólatra, cujos desdobramentos — tanto hetero quanto homossexuais — apontam para um metonímico deslocamento das possibilidades eróticas (inclusive as variantes mais "nojentas") em direção ao pé — limpo ou sujo, calçado ou descalço — enquanto o protagonista propõe uma especialidade "profissional" capaz de "curar" pacientes por meio da manipulação podiátrica e das possibilidades sexuais decorrentes dessa terapêutica. Num estilo paródico dos tratados sexológicos ocidentais e das narrativas literárias de "educação sentimental", Mattoso performa, na primeira pessoa, a estratégia que pode ser entendida como o projeto duma obra bem mais ampla, visando desconstruir e desmistificar os parâmetros ideológicos do heterossexismo — inclusive o conceito de "sexo seguro", ao colocar retoricamente em questão a improbabilidade do contágio venéreo através da manipulação pedal. As memórias de Mattoso estão comprometidas com algo próximo da pansexualidade, na qual as identidades não se fundamentam em gêneros ou papéis sexuais, mas sim em limites que podem ser transgredidos ao sabor da experiência erótica e da experimentação estética. Creio que a melhor maneira de encarar o texto mattosiano — como uma contribuição latino-americana ao discurso da sexualidade — seria em termos de questionamento da compulsoriedade hetero ou homossexual. Ou seja, a contestação da heterossexualidade não estaria na afirmação da homossexualidade, masculina ou feminina, e sim numa sensibilidade "queer", socialmente desconstrutiva e politicamente incorreta. Eis a razão pela qual o "Manual" de Mattoso, embora enfatize explicitamente as modalidades alternativas ao homoerotismo, extrapola as fronteiras da especificidade gay, no sentido de que o fetichismo aqui exaltado sinaliza alegoricamente para a neutralidade dos gêneros. Enquanto os manuais de erotismo gay ou lésbico privilegiam zonas erógenas tipicamente masculinas ou femininas, a podolatria do tratado mattosiano descaracteriza os papéis e os roteiros do ato sexual. Não se trata, portanto, de considerar o "Manual" apenas como um notável exemplo de ficção marginal ou de romance pós-moderno: a palavra "manual" deixa de ser mero jogo verbal para subverter a própria ideologia que respalda o cientificismo convencional dos textos didáticos. Nesse sentido, pode-se dizer que o discurso de Mattoso é agressivamente transgressivo a ponto de merecer o rótulo de "ultrajante", impondo-se, de forma oximorônica, como autoridade intelectual da transgressão. A narrativa do "Manual" é ultrajante sob vários aspectos: pela desbragada franqueza com que o autor confessa seus traumas e alardeia suas "taras" sem qualquer sentimento de culpa; pela crueza do contato físico com a sujeira (representada pelo pó dos sapatos lambidos ou pelo chulé dos pés chupados), anulando qualquer abstração metafórica no conceito de fetichismo e rompendo padrões "civilizados" de higiene; enfim, pela conexão entre podolatria e homossexualidade, que desfoca todas as abordagens em torno da analidade ou do falocentrismo que "territorializam" a ideologia sexual. Ao desnudar, em voz direta e linguagem coloquial, sua vida erótica, alternando a primeira pessoa com citações literárias e paraliterárias, com correspondência íntima ou com transcrições de diálogos, Mattoso cria um contexto próprio e diverso — equidistante da fabulação literária e do (pseudo)cientificismo — cujo processo envolve a carnavalização das noções teóricas no terreno da libido. Recontextualizando a experiência sexual em torno duma zona erógena que foge aos culturemas ocidentais "higiênicos", o "Manual" intriga e instiga o leitor. Expondo limites e sugerindo excessos, a estratégia mattosiana torna flutuantes os significados que se enunciam nos manuais técnicos, sejam homo ou heterossexuais. A teatralização — que inclui cenas de tortura real entre os ingredientes sadomasoquistas de seu psicodrama erótico — funciona não só como negação do politicamente correto, mas também como releitura das práticas sexuais "saudáveis" sob a ótica "queer" da diversidade conceitual, onde sujeira e cegueira se misturam promiscuamente, selando o timbre ultrajante do "desvio" com a tinta indelével da deficiência física.] [De Gustavo Bernardo, no "Jornal do Brasil": Alimentando a fama de autor maldito, assumindo o fetiche pessoal por pés (e por pés masculinos), GM publica em 1986 uma "pseudoautobiografia lítero-erótica", como a chamou um crítico, intitulada "Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés". Esse trabalho se desdobra agora no romance "A planta da donzela", quando se soma ao fetiche por pés o fetiche da própria ficção. O autor se dedica a reescrever um livro marginal (talvez por isso, um dos mais interessantes) de José de Alencar, "A pata da gazela". Outros — como o resenhista que vos fala — já se dedicaram a reescrever Alencar trazendo-o para o século seguinte, mas Mattoso ousa mais: ele reescreve o romance mantendo a sintaxe oitocentista e as mesmas circunstâncias de tempo e espaço. Volta e meia o narrador faz rápidas referências ao cinema e a uma banda de rock, Kinks, famosa por suas letras sobre o ciúme mas também pelas brigas entre os dois irmãos que dela faziam parte. As referências trazem o leitor ao presente para o devolverem logo ao Rio de Janeiro imperial. O narrador recorre "ao historiador" para mostrar o contexto e detalhar a história dos pés no Brasil, como o costume do lava-pés e a diferença entre o pé largo do negro e o pé miúdo do mulato, o famoso "pé-de-cabra" que ajudou a desenvolver a luta de capoeira. Usando Alencar contra Alencar e o moralismo burguês contra o próprio moralismo burguês, Mattoso é minucioso: retoma páginas inteiras de "A pata da gazela", conforme conta "o romancista de época", mas conduz o enredo a seu avesso, expondo o inconsciente obsceno dos românticos. O quadrado amoroso se mantém: Horácio e Leopoldo, Amélia e Laura. No romance de Alencar, Amélia tem os pés mínimos e mimosos, provocando o interesse dos dois rapazes, um conquistador e o outro tímido, enquanto Laura tem pés "ingleses", isto é, razoavelmente grandes. No romance de Mattoso, Amélia continua com os seus pés mimosos, mas é Leopoldo quem os tem enormes e deformados como um aleijão, padecendo por conta deles enorme vergonha. Só esta alteração provoca mudanças substanciais no enredo: os mesmos acontecimentos geram peripécias diversas. Tais peripécias acompanham diálogos tipicamente românticos, mas que se vão subvertendo aos poucos. O leitor habitual de Glauco Mattoso estranha, porque a subversão narrativa é lenta e cuidadosa. O erotismo, presente desde Alencar, se acirra. Laura, como mestra, conduz a falsa ingênua, Amélia, ao mundo dos mais perversos. Horácio, no afã de tocar e ser tocado pelos pezinhos de Amélia, deixa-se conduzir a uma sessão explícita de sadomasoquismo. Os pés enormes de Leopoldo lhe servem, enfim, para humilhar o rival com todo o requinte. O final é tão excitante quanto profundamente perturbador. Não cabe contar o final. Mas cabe especular que o podolatrismo permite uma reviravolta dos que se encontram "por baixo": deficientes físicos em particular, excluídos sociais em geral. Dobrando a espinha antes que outros a dobrem, o adorador dos pés alheios representa a submissão e assim, na sagaz observação de Ítalo Moriconi nas orelhas, inverte a seu favor a relação de poder para transformar sua perda em lucro. O fetiche dos pés desta maneira se justifica plenamente (como se precisasse) mas deixa envolto no mistério o fetiche maior. O fetiche maior é o da própria ficção. O que faz um escritor se dedicar por anos a fio a reescrever um autor do século retrasado? Não se trata de paixão pelo fantasma do Alencar porque Mattoso, ao contrário, quer combater o seu moralismo. Mas se trata de paixão pela literatura mesma, com tudo o que essa paixão possa ter de pathos, de doença e de vício. Foi o vício da ficção que levou o escritor a construir um livro de leitura difícil, um livro para ser lido forçosamente devagar. O livro lido ainda exige do leitor que o releia, ou melhor, que os releia juntos, "A pata da gazela" e "A planta da donzela", para descobrir então como se reescreve a história e como as semelhanças se transformam em diferenças capitais. Não é pouco trabalho. Mas a perda (de tempo ou da ingenuidade) logo se transforma novamente em lucro. Se a alma não for pequena, o livro de Glauco Mattoso vale a pena.] [De Italo Moriconi: Que Glauco Mattoso é um mestre na prática do pastiche literário, disso sabem muito bem seus leitores e admiradores. Como exemplo recente, mencione-se a série de sonetos em que nosso autor reescreve contos de Machado de Assis. Agora é a vez de José de Alencar e do clássico "A pata da gazela", aquela deliciosa fantasia romântica sobre a idolatria fetichista do pé. O pezinho da donzela, objeto de desejo lascivo. Pelas águas turvas da podolatria, Glauco sempre navegou desenvolto, narinas e língua em riste, espinha dobrada na paixão de servir, invertendo a seu favor os termos das relações de poder, transformando perda em lucro. A fisiologia dessa dinâmica, como se sabe, é exposta à luz no "Manual do podólatra amador", um clássico contemporâneo. Clássico maldito? Que seja. Alguém já disse que com boas intenções não se faz boa literatura. Pois agora nos reaparece o Glauco com este "A planta da donzela". Nele, o pastiche se combina com a paródia. Como já mostrou a critica universitária mais antenada, o pastiche contemporâneo, ou pós-moderno, pode ter um quê de transgressivo em relação a seus modelos. Não é pura repetição. Utiliza-se do espírito sardônico da paródia para colocar a nu temas e percepções que os textos românticos e os clássicos modernistas deixavam na sombra. E nessa área da paródia literária, Glauco também é mestre, como se pode observar em sua outra obra, que muitos consideram prima — o "Jornal Dobrabil". Em relação ao decoro de Alencar, este novo livro de Glauco Mattoso é uma abertura desenfreada dos sentidos. É a liberação em ato. É a revelação do inconsciente obsceno dos românticos e até mesmo de historiadores de alta estirpe, como Gilberto Freyre.] [De Joca Reiners Terron, na "Folha de S. Paulo": Ao contrário de seu profuso esporro na forma de 3.000 sonetos ocorrido nos últimos anos, Glauco Mattoso é um prosador contido — refiro-me à quantidade — e quase secreto. Mas desde o "Jornal Dobrabil" (ou talvez antes), o poeta tem pingado sua prosa curta e sua aguardente feito lava, agora, reunidas de uma só vez em "Contos Hediondos". E, com tal título, nem ao menos é possível se alegar distração — como de costume, Glauco não economiza escuridão em seu humor negro: ele perde o leitor, mas não perde a piada. Sorte de quem agüenta rir de si mesmo. Sorte de quem pode enxergar. Com o dedo médio pressionando a ferida da classe média, o poeta cego amplifica suas tradicionais obsessões sadomasoquistas e fetichistas ao espaço público do condomínio, até que se tornem taras. E com que ritmo Glauco pontua essas falas urbanas, numa instigante mistura de coloquial e erudito. Quem dera mais escritores brasileiros tivessem a audição musical e o paladar podólatra desse nosso Conde Drácula da baixeza.] [De José Carlos Vieira, no "Correio Braziliense": Os mundos paralelos de Glauco Mattoso são muitos e muitos não têm volta. Como se fosse um daqueles loucos cineastas do expressionismo alemão, o prosador e poeta paulistano aproveita histórias já contadas e conhecidas, como "A pata da gazela", do romancista cearense José de Alencar, para reinventar uma trama com ângulos e lentes diferentes, mas de olho no mesmo foco: o pé. O cenário da obra recém- lançada pela Lamparina editora é o mesmo de Alencar — o Rio de Janeiro do século 19, do Romantismo —, mas o transgressor Mattoso dirige um mundo em outra dimensão, assim como fez Robert Wiene, no filme "O Gabinete do Doutor Caligari" (1919), no qual os personagens brigam com a realidade dentro de um hospício para atingir em cheio a cabeça do espectador. E o real para Mattoso é a obra de José de Alencar, que tinha o sugestivo apelido de Cazuza na infância. "A pata da gazela" é uma historieta romântica, um conto de fadas à brasileira em que dois jovens mancebos, Horácio e Leopoldo, um rico e outro pobre, disputam o pé (a mão) da bela e rica Amélia, a Cinderela tropical. E é o pé que também vai nortear toda a narrativa de "A planta da donzela", com citações diretas ou indiretas de autores clássicos do Romantismo, como o poeta Álvares de Azevedo. Para justificar a releitura de "A pata da gazela", o poeta se autodenomina um podólatra — é autor do autobiográfico "Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés". A submissa e desejada donzela é transformada numa pessoa dominadora de um jogo com nuances de perversão e fetichismo da Inglaterra no período vitoriano. É um livro que dá tesão, desejo, mesmo aos que não sonham com um pé maravilhoso desfilando em nuvens de seda branca. Resultado de um escritor maduro que optou pela transgressão. Indagado se ainda carrega nos óculos escuros algum rótulo literário, como o de "marginal" por ser contemporâneo da geração de poetas loucos dos anos 70, disse que a sua "esquisitice" o libera desses carimbos.] [De Leo Gilson Ribeiro: Este "Manual do podólatra amador", com o subtítulo de "Aventuras & leituras de um tarado por pés", costura grande parte da autobiografia de Glauco Mattoso com trechos de obras célebres da "littérature cochonne" de vários autores. Esta por vezes melancólica saga, epopéia ou coisa que o valha do orgasmo atingido através da língua e dos pés (de preferência imundos e fétidos) percorre toda uma linha sinuosa, abrangendo jornais de "underground" gay norte-americanos, encontros na praça Roosevelt de São Paulo, torturas policiais na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro e obsessões pelos pés emanadas de autores tão vetustos quanto José de Alencar. (...) A salvação da humanidade, gay ou não, estaria na podolatria? (...) Seria esta a conclusão deste longo labirinto rumo à Assunção de si mesmo rumo a Paraísos Intransferivelmente Pessoais? Seja como for, nesta sábia dosagem de citações cultas e apropriadas e de um talento irreverentemente excepcional, de uma irrisão que partindo de si mesmo abarca talvez tudo, uma funda vocação poética e filosófica se esconde por trás do aparentemente fútil, fulminante, efêmero. Glauco Mattoso não tem seguidores, no Brasil, que preencham, com ele, o total dos dedos de uma só das mãos (ou dos pés) sequer. Ele faz, como que de forma auto-depreciativa, em tom menor, o que Jean Genet, D. H. Lawrence e os "vitorianos ocultos" da era da pudica Majestade Britânica consignaram a diários e crimes abafados pelo puritanismo ubíquo de quase todas as épocas da história ocidental. Como diria Platão: "Fora com ele da minha República!". No plano poético, a sua coragem e a sua autenticidade estão na mesma linha do tiro que Verlaine disparou contra Rimbaud numa das inúmeras vezes em que este quis se separar do velho amante. Na mesma linha de combate da hipocrisia que as frases espirituosas, refinadas e audazes de Oscar Wilde jogadas na cara da severidade inglesa dos juízes que o condenaram ao cárcere de Reading e ao "De profundis", com suas tiradas de humor e cintilantes de "wit". Em plano mais elevado, ele forma ao lado de todos os que reconhecem em Wilhelm Reich o libertador das algemas que nos amarram dentro de uma couraça sufocante de uma sexualidade presa a um garrote de proibições e de vetos (e fetos).] [De Miguel de Almeida, na "Folha de S. Paulo": Poeta satírico, Glauco Mattoso bombardeou, a partir de 1977, escritores, jornalistas e outras personalidades com o seu "Jornal Dobrabil". (...) "Manual do podólatra amador" narra essa aventura poética de Glauco Mattoso pelas profundezas da poesia paulistana, a partir dos anos 70. Na verdade, o livro é uma espécie de tratado autobiográfico com um cunho psicológico. No livro, Mattoso explica ainda como descobriu seu alter ego, o célebre Pedro, o Podre. Com esse heterônimo, ele investiu em suas taras e obsessões. "Pedro, o Podre, é o meu lado sujo, a coisa meio punk. Porque eu tenho tendência a ser meio careta. Quando escrevo como Pedro, o Podre, assumo toda essa sujeira, o fetiche". Mattoso intercala no "Manual do podólatra amador" a sua história com um inventário de autores que dedicaram célebres páginas sobre o pé. Segundo sua interpretação, lá está José de Alencar fissurado pelo pé no livro "A pata da gazela"; ou Raduan Nassar na novela "Um copo de cólera", além de outros escritores. Porém, o poeta acha que avançou mais que seus colegas: "Eu declaro o meu amor pelo pé do homem, que é uma coisa feia, não é delicada e é muito grande", afirma.] [De Néstor Perlongher: No "Manual do podólatra" o fedor do olfato vai impregnar corredores menos sublimados. Essa "ação direta" do desejo, que a pornografia evoca, também se põe manifestamente no próprio gesto de quem lê. A mão não se dirige, como a do pensador, à fronte carregada e pesarosa, mas ao frenesi ríspido da braguilha. Glauco não confessa, como faz Genet, que "escrevo enquanto me masturbo". Mas conta, no seu itinerário desejante, que se masturba enquanto lê, ou que lê para se masturbar. (...) O PÉ: fetiche "kitsch". A exaltação da futilidade rococó atinge aqui seu clímax textual no êxtase romântico de "A pata da gazela". Mas as coisas não tardam a se tornar mais sérias, as pegadas mais graves. do frágil salto Luís XV, das bacias versalhescas, passa-se às botas dos guardas, às chuteiras dos jogadores, aos tênis lamacentos dos operários. O fetiche parece perder sua vocação de adminículo, tardio e decadente, na vitrine espelhante de uma casa de bonecas, para fazer em pedaços a cristaleria maneirista. (...) Estas memórias de um podólatra se dispõem como uma "arqueologia desejante". Seu objeto é vasculhar as origens, as circunvoluções e as escalas de um desejo, a "podolatria" (e ao neologismo não escapa uma associação, que lhe é bem grata, com a "idolatria": podólatra, caberia dizer, é aquele que idolatra os pés), recriada a partir de sua culminação experimental. (...) A continuidade desta volúpia pode talvez conectar-se com o desenvolvimento excepcional do olfato daquele que vê menos, que é segregado dos rituais da infância viril por causa da sua falta de visão, esmagado o olhar vivaz e insuficiente sob o espelho das grossas lentes. (...) O livro todo se orienta no sentido de iluminar o escuro pé deste desejo. Mas o transcurso de seu desvelar passa por uma multiplicidade de práticas e experiências: variantes de sexo oral, anal, posições sadomasoquistas, às vezes intercambiáveis. E mais: quando Glauco interrompe a narração de suas aventuras para insertar trechos bibliográficos ou "teóricos", está dando conta de outro aspecto da maquinaria. A leitura é também uma ocasião de deriva, uma instância na atualização do gozo. (...) O texto de Glauco é particularmente interessante porque está diretamente ancorado num dispositivo complexo e eficaz: o desejo de dominação. Remete à questão colocada por Reich, que é um dos cavalos de batalha do "Antiédipo": "as massas desejaram o fascismo, e isso é o que se tem de explicar". (...) Mas o fascismo não ronda o trânsito erótico de Glauco apenas como fantasma latente; ele aparece manifesto nos discursos de vários clientes de sua massagem. (...) O experimento da massagem linguopedal é feito, explicitamente, para ser registrado neste livro. (...) Glauco nos estaria sugerindo: os mecanismos sociais de poder, de opressão e de repressão, não seriam mais, em última instância, que caminhos que o gozo percorre para realizar-se. As cenas voluptuosas da prisão, da tortura, da humilhação, desvelam o lado libidinal das coisas. A sociedade cheirada por Glauco é, neste aspecto, quase Sadeana: a finalidade dos vexames a que são submetidos os seqüestrados no isolado castelo dos "120 dias de Sodoma" era a produção de um gozo sexual para os amos.] [De Sérgio Telles: Se o glaucoma tem efeitos devastadores, como não é difícil de imaginar, por outro lado, acrescenta novos ingredientes ao gozo do narrador-personagem-autor, pois a cegueira lhe alimenta o masoquismo, possibilitando-lhe novas configurações fantasmáticas. Diante de tantas dificuldades sofridas pelo autor, poder-se-ia esperar um texto de lamentações. Mas Glauco Mattoso não é um choramingas. Pelo contrário, o tom geral do livro é de uma ironia crua, uma comicidade que muitas vezes atinge o escracho debochado e escatológico, aproximando-se dos excessos de Bocage ou Rabelais. (...) A singularidade de seu fetiche - o amor pela disodia, nome castiço que esconde a vulgaridade desagradável do "chulé" - talvez o faça sentir com mais intensidade o peso da solidão e da segregação. (...) "Manual do Podólatra Amador" é um livro que pode ser lido sob vários enfoques. Sua linguagem, trabalhada com evidente esmero, afasta-o da mera pornografia, garantindo-lhe um lugar no campo da literatura. Sua conotação política se estabelece ao defender os direitos de um desejo que não se conforma aos padrões da maioria. Finalmente, ao relatar suas vivências com franqueza e lisura, Mattoso produz um valioso depoimento para estudiosos das questões de gênero.] [De Sebastião Nunes, no portal www.cronopios.com.br: O livro de Alencar foi publicado, sob o pseudônimo de Sênio, em 1870, como informa na introdução o releitor. O de Glauco saiu 135 anos depois e é uma extraordinária combinação de rigor, paródia, pastiche e — como não poderia deixar de ser — sadomasoquismo. Não tenho espaço, nesta coluna, para mostrar todos os desvios com que Glauco tira a história de Alencar dos eixos e a transforma num romance moderníssimo. Também não tenho espaço para mostrar o que pode criar um talento excepcional a partir de um breve romance, apenas trocando alguns nomes e fazendo girar vertiginosamente as situações, que no entanto se passam na mesma época, no mesmo lugar e com os mesmos personagens, ou quase os mesmos. Apesar da manutenção da estrutura e até da linguagem, que diferença de um livro para o outro! Digamos, sem desmerecer o alto nível de fabulação do grande José de Alencar, que seria como Villa-Lobos tomar uma valsinha qualquer do século 19 e transformá-la numa de suas bachianas, coisa de que seria perfeitamente capaz. Admirador frenético do "Jornal Dobrabil", da prodigiosa produção glauquiana de sonetos e de tudo o mais que brota de sua usina criativa, obras que mostram com sobras tudo aquilo de que um grande escritor é capaz, sou mais uma vez obrigado a ajoelhar-me aos pés de Glauco Mattoso para lamber-lhe as botinas. Para terminar, acrescento que o efeito é ainda mais surpreendente e desbundante quando os dois livros, "A pata da gazela" e "A planta da donzela", são lidos (ou relidos) ao mesmo tempo, ou quase.] [De W. J. Solha: Grande poeta, estupendo teórico de sonetos e criador de milhares deles, superando a marca dos 2279 de Giuseppe Belli, adepto, como ele, da sátira fescenina, Glauco saca o lado positivo de seu problema. (...) Como sua história fascina tanto quanto sua poesia e prosa, Glauco Mattoso me lembra dois grandes artistas trágicos, para os quais os dramas pessoais foram a própria causa de sua agonia e de nosso êxtase: Van Gogh e Frida Kahlo. Veja-se o seu chocante soneto 509, chamado "Assumido". Descobri (incrivelmente tarde) parte da obra de Glauco Mattoso a partir de seu conto "O Podomante", da coletânea "Capitu Mandou Flores", organizada por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial), e li então, na Internet, uma tonelada de poemas seus, alguns ensaios, mandei-lhe e-mail falando-lhe da forte impressão que me causara por sua densidade e domínio literário, e ele me remeteu vários livros, entre os quais "A Planta da Donzela", editado pela Lamparina em 2005. Esse romance, intertextual e metalingüístico, construído em cima de "A Pata da Gazela", de José de Alencar, é uma "revelação do inconsciente obsceno dos românticos e historiadores de alta estirpe", como analisa Ítalo Moriconi na orelha do volume. Discordo, apenas, no que esse autor fala em pastiche e paródia. Para mim, "A Planta da Donzela" é uma releitura que Freud faria do romance alencarino, nem mais, nem menos. Traumas à parte, duas coisas me chamam atenção nessa obra. A criação de uma eficaz expectativa crescente, e sua excepcional qualidade literária. Como diz Henrique Marques Samyn, "Glauco Mattoso vem construindo uma das obras mais rebuscadas da contemporaneidade". Sempre me pareceu que os bons romances dependem tanto da excelência de seus textos quanto os grandes filmes do nível de sua fotografia. O que seria do "Cidadão Kane" sem a participação de Gregg Toland, e de "O Anjo Exterminador " de Buñuel (maníaco por pés, como Glauco Mattoso) sem a colaboração de Gabriel Figueroa? Que seria de Euclides da Cunha, de Gabriel García Márquez e de Guimarães Rosa sem seus estilos tão particulares? Eu diria que a "fotografia" de Glauco Mattoso, em "A Planta da Donzela" é qualquer coisa de especial. Talvez porque suas imagens vêm de uma época em que via. E, mais: o truque é o de freqüentemente completar "o romancista da época", José de Alencar, com seu texto datado. Como na descrição de um dos personagens, que vemos como um "moço elegante não só no traje do melhor gosto, como na graça de sua pessoa", descrição a que se seguem detalhes do nosso contemporâneo: "Olhos verdes, boca esculturalmente desenhada, nariz afilado, bigode aparado com precisão milimétrica, corpo esbelto e desenvolto". Em outro personagem, José de Alencar vê o "luto pesado, nas roupas negras, na cor macilenta, na mágoa que lhe escurece a face", enquanto Glauco lhe observa as pernas arqueadas e "pés voltados para dentro e espalhados em largos sapatos pretos". Somos, assim, apresentados ao desvio de rumo que a história vai tomar. É a sensação de se ver um filme - a estória de Alencar - com um revelador making off - o de Mattoso. O resultado é um texto rico, fluente, elegante. Se a parte final do livro - pelo ritual sombrio - me leva a outro filme de que gosto muito - "De Olhos bem Fechados", de Kubrick - o escabroso que vem depois é digno de "A Laranja Mecânica", quando o Demolidor ataca de novo. Creio que temos, agora, o grande autor que nos faltava.] [De Alberto Guedes, na revista "IstoÉ": Ninguém precisa fazer muito esforço para perceber que o país foi tomado por uma epidemia poética nos últimos dez anos. Grande parte dessa poesia tem características específicas pelas quais acabou sendo denominada marginal e, com o tempo, passou a receber um crédito (ou descrédito?) antecipado por parte dos leitores. Para se ponderar com sensatez essa questão, nada mais oportuno que a leitura do frio e objetivo "O que é poesia marginal". Uma coisa que podemos observar logo de cara é que essa geração de poetas do mimeógrafo é fruto do desbunde que deu margem à disseminação da contracultura através do tropicalismo. Como herança daquele movimento dos anos 60, sobrou uma certa propensão à ruptura de valores estabelecidos a níveis ideológico, cultural e, portanto, estético e literário. Essa ruptura implicou uma opção por linguagem coloquial, irreverente, irônica e displicente na abordagem de temas do cotidiano, o que já não aconteceu com os poetas mais politizados (não-desbundados) da mesma geração, que preferiram adotar um estilo panfletário. Segundo Glauco, esse antagonismo basta para descaracterizar a marginalidade em termos literários. Quanto ao aspecto político, note-se a existência do que poderíamos chamar de patrulhas poético-ideológicas cobrando posicionamento político; Glauco denuncia estarem implícitas e/ou explícitas em antologias coletivas como "Ebulição da escrivatura". O discurso poético panfletário "não é caracterizado pela linguagem e temática historicamente inovadoras e, culturalmente, não representa uma subversão de valores". Percebe-se que pelo lado político também fica difícil encontrarmos motivos para chegar à marginalidade dessa poesia dos anos 70. A resposta parece estar ao nível da produção e do aspecto material da marginalidade. A falta de recursos da maioria dos poetas forçou uma produção de baixo custo, que utilizava freqüentemente o mimeógrafo, e uma distribuição em circuito paralelo, alheia a livrarias e editoras. No entanto, enquanto Chacal diz: "Ser marginal não é uma opção. É uma impossibilidade de produção em larga escala", Ulisses Tavares atinge a TV com sua poesia. Esse é um dos indícios da falta de homogeneidade prática e teórica que elimina a possibilidade de se encarar essa poesia como "marginal" ou como "movimento". "Poesia é poesia, não precisa adjetivo", já disse o poeta Nicolas Behr.] [De Carlos Vogt, na "Folha de S. Paulo": Os que têm interesse ou o dever de ofício de conhecer a história às vezes pouco dignificante do trote estudantil têm à sua disposição o excelente ensaio de Glauco Mattoso, "O Calvário dos Carecas", publicado em 1985 em São Paulo. Através dele sabemos que já em 1831 os excessos desse "ritual de iniciação" resultaram na morte de um primeiranista de direito. (...) No fundo, como aliás intui o ensaio de Glauco Mattoso, o trote bem pode ser considerado uma forma refinada de tortura, prática que, quando não tem motivações políticas ou econômicas, guarda parentesco com as técnicas de manutenção do poder ou da propriedade.] [De Cláudio Willer, na "Folha de S. Paulo": A bibliografia sobre poesia independente, ou "marginal", divide-se entre aqueles que a exaltam e os que tentam relativizá-la. Na primeira categoria, entram algumas observações mal-humoradas e sarcasmos feitos, em ocasiões diferentes, por Affonso Romano de Sant'Anna, Moacyr Félix e José Guilherme Merquior. Na segunda, destaca-se o trabalho de Heloísa Buarque de Hollanda, que, no prefácio da sua antologia "26 Poetas Hoje" e no livro "Impressões de Viagem", procura mostrar que a geração do "desbunde" representa uma tendência genuinamente inovadora da nossa poesia, com um alcance crítico que ultrapassa e supera dialeticamente os movimentos e grupos dos anos 60 (concretos vs. populistas etc.). Mais na linha do "nem tanto ao mar nem tanto à terra", ou do "devagar com o andor", temos o recente "Poesia Marginal", de Glauco Mattoso, e também "Poesia Vírgula Viva", de Armando Freitas Filho. Para Glauco, os limites entre o marginal e o não-marginal são fluidos, a revolução comportamental não é um atributo exclusivo destes "marginais", e muitas das características da sua poética (informalismo, coloquialismo, incorporação de falas populares e gírias, ironia exacerbada) são uma mera continuidade de coisas que já existiam.] [De Felix de Athayde, no "Jornal do Brasil": Sem ser tão categórico — antes não dando muito ênfase às categorias — Glauco Mattoso preparou para a coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, um livrinho bem interessante: "O que é poesia marginal". Não interroga. O título, sem o sinal de interrogação, já sugere que o leitor, lendo o texto, vai saber o que é poesia marginal. E ao terminar a leitura sabe, sim. Sabe que MARGINAL não significa nada. Uns quiseram, ao se declararem marginais, significar um comportamento social; outros, tidos como vanguardistas; outros, como desinformados, etc., etc. (...) A poesia marginal dessa época é o assunto do livro. E essa época foi de profundo desencontro, desencanto, desinformação. A tal ponto que poetas que se diziam contestadores e vanguardistas queimaram poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto em plena Cinelândia. Igualzinho aos nazistas. Glauco Mattoso notou e anotou que "a poesia marginal não apresenta qualquer homogeneidade, prática ou teórica. Não há um trabalho coletivo ou grupal orientado e posicionado contra ou a favor de determinados conceitos. Se existem traços comuns à maioria dos autores da década, são eles a desorganização , a desorientação e a desinformação". DISSE TUDO. A dizer mais é reconhecer que muitos poetas que se auto-intitulavam de marginais, ou eram apontados como marginais, eram apenas jovens poetas abrindo caminho. (...) Glauco Mattoso, de cabeça culturalmente bem-feita, deveria trabalhar sobre o opúsculo que publicou e discutir mais abundante e profundamente esse problema da marginalidade da poesia. Que sempre é marginal numa sociedade consumista e predatória. E pesquisar — isto é uma sugestão — a influência da IDEOLOGIA psicanalítica na libertação de temas e palavras dos poetas que um dia foram tidos como marginais: aquele discurso do inconsciente. Cujas raízes, na poesia, possam ser encontradas nos goliardos da Idade Média, bem antes dos dadaístas. No mais é concordar com Glauco Mattoso quando escreve que "ideológica ou material, a marginalidade não é, em última análise, um rótulo que sirva para definir qualquer tipo de poesia."] [De Marçal Aquino, no "Jornal da Tarde": A literatura praticada por Glauco Mattoso pode ser chamada de tudo, menos de bem-comportada. Desde os tempos em que publicava o "Jornal Dobrabil" - uma reunião de autores e trabalhos que tinham por norma "desafinar o coro dos contentes" - até o livro "O Calvário dos Carecas", um ensaio sobre o trote universitário, o interesse de Glauco sempre esteve voltado para temas no mínimo insólitos. Agora, depois de quatro anos de pesquisas, ele apresenta seu mais novo trabalho, que deve mais uma vez provocar algumas polêmicas. Trata-se do "Dicionarinho do Palavrão e Correlatos", uma reunião bilíngüe de palavras chulas, invariavelmente ignoradas tanto pelos dicionários de português quanto pelos de inglês. Glauco explica que a idéia para o dicionário nasceu de sua própria dificuldade de encontrar a tradução exata para termos que encontrava em suas leituras pouco comportadas em inglês. (...) Em breve os leitores brasileiros deverão ter à sua disposição um trabalho que, entre outras coisas, vai permitir a exata compreensão de certas palavras que aparecem com freqüência na música, no cinema e na literatura, e que invariavelmente são "traduzidas" de maneira mais suave.] [De Marcos A. da Silva, na "Folha de S. Paulo": Só a fineza da linguagem poética e humorística inventada por Glauco Mattoso poderia sintetizar tão bem tantas dimensões de um tema facilmente transformável em ladainha edificante e entorpecente para "belas almas". Afinal, as denúncias de torturas expõem um processo brutal mas também isolam seu espaço de existência, deixando passar um monte de pequenas torturas quotidianas como fatos normais: o tratamento dispensado a presos comuns (registrado pelo autor), doentes e crianças, passar fome, usar trem de subúrbio ou ônibus lotado, trabalhar em lugares que se detesta, ficar desempregado, dormir com quem não se ama, tudo isso é desligado daquele processo. Mattoso tem o brilho de quem vira o jogo para nos situar no coração do demônio. Seu tom narrativo e reflexivo vive da transa com o leitor que não se fecha nas tranqüilizantes fórmulas analíticas de tortura, prazer e sociedade. Navegar em seu barco bêbado é encarar nossas melhores e piores faces para entender o secular sucesso da servidão universal. Conformismo? Não. Nem triunfalismo ingênuo que enxerga a comunidade harmônica na próxima esquina. Situando acertadamente seu olhar no espaço filosófico, Mattoso atravessa outros campos (poéticos, político, histórico, psicológico) que nossas vãs ciências teimam em tornar assépticos devido ao medo de se limitarem a dar opiniões. Nesta altura de desilusão com os saberes institucionalizados, a opinião filtrada pelo texto prazeroso se revela fértil, como prova esse livro, "O que é tortura". (...) Mas o grande saldo dessa leitura é uma auto-análise que jamais alimenta algum auto-deslumbramento, antes ajuda a rediscutir nossos fascínios nacionais por exus, pererês, amigos da onça, fradins e similares. Que não são torturadores no sentido tradicional da palavra mas provocam intenso prazer em nós ferrando uns e outros.] [De Moacir Amâncio, na "Folha de S. Paulo" e no "Jornal da Tarde": Agora, na série "O que é", da editora Brasiliense, Glauco Mattoso publica livro sobre algo que, indica, nunca chegou a existir: a poesia marginal. De repente quase tudo virou "produção marginal". Evidência de não identificação com o sistema? Mas que confusão. Enfim, aplicar aos outros ou a si o adjetivo MARGINAL teria mais a ver com identificação com o outro lado da moeda do "sistema", nada de contestatório. (...) À primeira vista, toda a movimentação até que parecia bonita, simpatizava-se com os "marginais". Na segunda ou terceira já fica esquisito. A gente percebe o uso forçado da palavra, a mentira. E tanto esforço para quase nada, ou para voltar atrás. As coisas aparecendo como se jamais alguém houvesse feito poesia no Brasil. Isto também aconteceu com os romances e contos repetindo fórmulas que o primeiro Jorge Amado deixava pra lá. Porque não adianta, essa conversa de "espontaneísmo", pseudo-surrealismo etc. Vale nada. Qualquer trabalho artístico passa a ter eficácia só quando mexe na linguagem/linguagens e através dela ou delas remete à realidade. Estas são algumas das conclusões a que leva a leitura destas 84 páginas de Glauco Mattoso. No tom didático exigido pela série, ele vai reunindo alguns exemplos de poesia e idéias da época. Podem achar pequeno o número de exemplos, no entanto, para o objetivo do autor, agora são suficientes. Não há aqui nenhuma sugestão de que toda aquela erupção — cutânea — de poetice deva ser ignorada. Pelo contrário, precisa de exame e reflexão, ainda mais quando se pensa nas seqüelas existentes na praça. Oportuna a contribuição de Glauco que, matreiro, chega à frase final do poeta brasiliense Nicolas Behr: "Poesia é poesia, não precisa de adjetivo". (...) As origens e motivações desse estúpido ritual, o trote estudantil (em 1980 um calouro foi assassinado em São Paulo), são estudadas por Glauco Mattoso em "O Calvário dos Carecas" (EMW Editores, 177 páginas). "Trote é tortura", conclui o autor. "Mas é uma tortura 'lícita', isto é, legitimada pela tradição, pela espontaneidade e pela própria libido. Se não for a libido dos participantes, será ao menos a dos espectadores, como eu ou você." O poeta Glauco Mattoso não quer deixar o leitor indiferente nem evita o distanciamento de quem pretendesse estudar o trote como matéria de laboratório. Retoma o Marquês de Sade e...]