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foto: Cláudio Cammarota

 

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O POETA


ALGUMAS OPINIÕES SOBRE A POESIA DE GLAUCO MATTOSO

[De Ademir Assunção, na revista curitibana "Medusa": Sua temática corrosiva é um banquete difícil de ser engolido até mesmo pela maioria dos críticos brasileiros. O sadomasoquismo explícito, a podolatria escancarada (...), a coprofagia, o sarcasmo feroz e a ironia ferina, presentes em toda a sua obra, ainda estão longe de ser assimilados pela "alta e nobre" cultura — mesmo que Glauco Mattoso escreva sonetos tecnicamente perfeitos, poemas concretos de intensa inventividade, versos livres com ricas cadências rítmicas —, sempre com uma consciência cínica, claro.] [De Alexei Bueno, no livro "Uma história da poesia brasileira": Glauco Mattoso (1951), pseudônimo de Pedro josé Ferreira da Silva, já pela escolha deste mostra a sua verve humorística: homenageando dois baianos geniais e barrocos, Gregório de Matos e Glauber Rocha, o pseudônimo deste paulistano cria a palavra glaucomatoso, o que ele era de fato, até, infelizmente, perder a visão. Trata-se de personagem completamente "sui generis" no panorama da poesia brasileira, dedicando-se, depois de fases muito diversas, a uma numerosíssima obra de sonetista, composta com todos os requintes técnicos imagináveis, muitas vezes tendo como temas a podolatria e a coprofilia, num balanço entre o erudito e o pornográfico que traz um sabor único e irresistível à sua poesia.] [De Álvaro Alves de Faria, no jornal curitibano "Rascunho": Nenhuma concessão a qualquer tipo de facilidade. Nada. Uma poesia veemente, um beco sem saída. Enquanto os grupinhos se formam no mingau de todas as tardes, Glauco Mattoso se recolhe mais no seu mundo. Uma poesia que vai da loucura ao momento mais sublime. Do grito ao silêncio. Como Augusto dos Anjos — não se trata de comparação — Glauco é um caso à parte da literatura poética deste país sem poesia. Glauco quer distância. Um monge num convento pegando fogo, colhendo a poesia possível. Se é que a poesia é ainda possível. A bem da verdade, disso não se sabe. As palavras sempre serão poucas para situar Glauco Mattoso.] [De Amador Ribeiro Neto, no jornal paraibano "A União": Glauco Mattoso já é referência no soneto contemporâneo. Há anos ele vem publicando-os sempre com a irreverência crítico-criativa do inquieto e produtivo poeta que é. Sua obra é corrosiva e dilacerante. Nada escapa aos olhos deste poeta que ficou cego. E até sua cegueira é motivo de auto-escárnio. Mas há os poemas líricos também. Ainda que pisados e repisados por seu amor humor sarcástico. Por seu sado-homo-masoquismo assumido e propagado à mancheia. (...) Ler Glauco sem refletir e sem rir não tem graça. Sua poesia tem um pé na filosofia e outro no chiste. Não se pense que ele entrega de bandeja o poema. Aliás, entrega-o, sim. Mas somente quando já tiver cortado vigorosamente a cabeça do poema. O banquete a que ele nos convida não é para todos os paladares - mas para os paladares abertos a novos sabores - do cheiro e gosto do pé ao gosto e cheiro das fezes. (...) Os sonetos são rigorosamente decassílabos, como manda a norma. E aqui e ali contei versos heróicos e sáficos. O que aumenta a proeza do sonetista. Agora, o que chama a atenção é que Glauco não se enclausura na métrica e deixa dançar o tema no soneto. Ele faz as duas coisas, com tal naturalidade, que até parece um repentista glosando em redondilha maior.] [De Astier Basílio, no "Jornal da Paraíba": Cada vez mais o poeta Glauco Mattoso vem enveredando pelo universo da poesia popular nordestina. Habilidoso com a forma fixa, além de escrever sonetos, o escritor, que se notabilizou nos anos 1970 como ícone da contra-cultura brasileira, Mattoso também demonstra que sabe como ninguém as artes do versejar nos estilos e gêneros da literatura de cordel. Seu mais recente trabalho nesta área é "Peleja Virtual de Glauco Mattoso com Moreira de Acopiara". O folheto tem 20 páginas. A sugestão para o duelo veio da pesquisadora Maria Alice Amorim, cujo objeto de estudo de uma dissertação de mestrado na PUC, de São Paulo, era as pelejas virtuais. Ela sugeriu que Glauco desafiasse o poeta Moreira de Acopiara, que é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Os autores percorrem os principais gêneros da peleja, como a sextilha. (...) Glauco Mattoso, como é comum em sua obra poética, faz uma auto-flagelação, um verdadeiro ofício masoquista de celebração, ao contrário, de sua condição de cego e homossexual. Glauco criou até uma variante do estilo em décimas "martelo alagoano", adaptando-o ao seu estado natal, São Paulo. (...) Os poetas ainda experimentam a setilha, a décima em sete sílabas e o galope à beira mar. Glauco Mattoso publica atualmente suas obras na série "Mattosiana" da Dix Editorial.] [De Augusto de Campos: Alegram-me o seu saudável entusiasmo e farta produção, que contrastam com o meu "mood" pós-mudo e o agrafismo, a afasia, apoesia, ou sei lá o que seja que tem reduzido a quase-nada a minha fala poética. Mas sem querer me intrometer, ou desarvorar essa sua animada sonetotrip, eu, que sofro de sonetofobia (e julgo ter-me desembaraçado dos sonetos com duas soneterapias e um falso pós-soneto) lhe pergunto: você já pensou em usar outros sistemas mnemônicos, como p. ex. linhas de duas, três, quatro sílabas, crescendo e decrescendo, ou melhor ainda: métodos tipo "sprung rhythm" à Hopkins, que fazem equivaler três monossílabos, como "sou tal qual", a versos de quatro tônicas, como: "pássaros sumindo no céu horizontal"? Seria um modo de fugir da tirania sonetífera e diversificar a dicção que o soneto coage a certos estilemas, por mais que se queira libertá-lo deles e se o use com a competência com que você o usa. Se meu palpite é furado, deixe de lado, e "go for it", esquecendo a desesperiência dos velhinhos de vanguarda que mal conseguem abrir a boca para dizer duas ou três palavras provavelmente equivocadas.] [De Cacaso (Antônio Carlos de Brito), no jornal paulistano "Leia Livros": Glauco Mattoso configura um caso à parte em nossa poesia: ele pega um pouco de tudo, come de tudo, bebe de tudo, prova de tudo. E desconfia de tudo. Pratica todas as técnicas da vanguarda, faz poemas concretos, poemas-processo, praxis, trocadilhos, grafismos, jogos datilográficos, palavras cruzadas. Mas também escreve poemas como qualquer outro poeta, com um verso depois do outro, tudo correto e bem trabalhado. Usa de tudo e não se prende a nada. Glauco satiriza tanto a falta de seriedade quanto a falsa seriedade: aí entram as vanguardas, o homossexualismo, as contribuições alheias, as ideologias, seu próprio trabalho. O poeta mete a língua na vida alheia, na língua alheia, na obra alheia, na dor alheia e na própria dor. Glauco Mattoso é uma espécie de espírito maligno da poesia brasileira, que veio para avacalhar com a compostura e com a própria avacalhação, e para dar dignidade à dignidade e à sua falta. Receitando para o doente — a literatura e os literatos — o único remédio cabível, no caso: veneno. Qual a fronteira entre um valor e outro? Entre uma forma e outra? Entre uma verdade e outra? Do imenso caldeirão de Glauco tudo sai relativizado. Seu sadomasoquismo tem efeito purificador. O mérito da atitude de Glauco consiste em buscar o contato, mas não a cumplicidade; sendo que seu ponto de equilíbrio se faz pelo desequilíbrio das formas e valores à sua volta. E o mérito de seu trabalho está em provar que este equilíbrio é precário, mas possível.] [De Carlos Emílio Correia Lima, na revista "Visão": Desde 1977 o "Jornal Dobrabil" vem produzindo um incessante espanto na sociedade tupiniquim colonizada. Escrito, batido e diagramado à máquina, dirigido e organizado por Glauco Mattoso, depois enviado pelo correio a um número restrito e bem selecionado de pessoas, esse espécime de periódico sem periodicidade determinada foi, com o passar do tempo, minando todas as estruturas, demolindo conceitos e posturas bem pensantes dos que fazem a chamada cultura brasileira. Seus 53 números mereciam, portanto, ganhar uma forma que garantisse a permanência do trabalho, dando-lhe um sentido documental. Foi o que fez Glauco Mattoso, reunindo todo o material desse jornalzinho supermarginal em livro, luxuoso, de edição própria. Depois do modernismo, do movimento antropofágico, nada quis demolir tanto quanto a linguagem que formiga e se expõe no "Jornal Dobrabil". Tudo ali é posto em xeque, nada é levado a sério no que se refere a arte, filosofia, literatura e, como não poderia deixar de ser, política. Os historiadores futuros, querendo ou não, terão de incluir entre as tendências da literatura brasileira o clima escatológico e terminal fornecido pela cosmovisão anarquista e delirante do poeta, contista e livre-pensador Glauco Mattoso. A reunião de todos os números do "Jornal Dobrabil" em livro só pode multiplicar o seu valor como obra total. Glauco Mattoso assimilou quase todas as tendências estéticas e comportamentais que estavam vibrando no ar e, com sua visão coprofágica do mundo, se tornará (infelizmente para ele) mais um paradigma para os que já não acreditam em nenhum dos valores até agora estabelecidos pela cultura humana. Os leitores que alimentam alguma esperança em relação aos destinos de nossa civilização, no entanto, terão uma leitura amarga e cruel. Os poemas, manifestos, ensaios, citações premeditadamente apócrifas, cartas são elementos que se orientam para a destruição de todos os mitos detectáveis no espaço. Não sobra nada. Aniquilando os conceitos de harmonia, fruição estética, autoria, obra e linguagem poética, Glauco Mattoso coloca-nos maravilhosamente na pré-história da literatura e da escrita. Daqui para frente (se houver mesmo futuro), nada será igual.] [De Carlos Juliano Barros, na revista "Problemas Brasileiros": Glauco é considerado pela crítica especializada um dos principais herdeiros dessa linhagem poética irreverente e libidinosa iniciada, aqui no Brasil, por Gregório de Matos. Também pode ser colocado no mesmo time do português Bocage, devido à língua afiada e aos versos obscenos. "O meu diferencial é o tempo a que pertenço. Sou produto do rock, da contracultura, do gibi. Estou apenas reciclando algo que já fizeram. Ninguém pode ter a pretensão de achar que descobriu a pólvora", explica. Ele não gosta de ser enquadrado em nenhuma categoria, porque, na sua opinião, não há rótulos que consigam dar conta de sua complexa personalidade. A não ser a noção de "queer", um termo inglês usado em estudos recentes sobre comportamento humano para designar alguém esquisito, fora do padrão. Glauco é poeta, tradutor, produtor musical. Até aí, nada de mais. Ele também é cego, homossexual, sadomasoquista, podólatra - quer dizer, uma pessoa que tem fetichismo por pés - e faz questão de que sua obra seja fiel a seus gostos. "Mas duvido que ela entre no repertório de um vestibular, por exemplo", brinca Jorge Schwartz, amigo e professor de literatura hispano-americana da Universidade de São Paulo (USP). (...) "Glauco é totalmente vinculado à Tropicália, foi um herdeiro daquele movimento. Além disso, na questão da espacialização da poesia, do uso artístico da máquina de escrever, pode-se perceber a influência do concretismo", analisa Schwartz. (...) "Sem dúvida, o 'Dobrabil' fez o nome dele porque chegava aos chamados formadores de opinião. Na verdade, foi o primeiro fanzine do país. Era artesanal e absolutamente amador, no bom sentido, por ser feito com paixão", afirma Frederico Barbosa, organizador da Coleção Alguidar, da Landy Editora. No ano passado, ela lançou a antologia "Poesia Digesta", um balanço de 30 anos da obra de Glauco. Antes de mostrar um poeta de qualidade, um tanto quanto erudito, o primeiro olhar sobre o "Dobrabil" revelava a princípio um verdadeiro gênio da máquina de escrever. Glauco deixava que a folha de papel dormisse por dias em sua Olivetti, enquanto as idéias para preenchê-la iam brotando, como se lentamente pichasse um muro. Criava efeitos visuais impressionantes para a sua poesia utilizando apenas a letra "o" minúscula e explorando recursos da máquina com que a maioria dos datilógrafos nem podiam sonhar. "Ele é um gráfico por excelência, com uma idéia absolutamente original. Além disso, do ponto de vista do conteúdo, era muito arrojado, transgressivo e irreverente - alguém que de fato conhecia literatura. E há certas peculiaridades, como a questão da podolatria e do sadomasoquismo, que dão um colorido diferente à sua obra", comenta Schwartz. Mas Glauco não foi o primeiro a apostar e a ganhar notoriedade no circuito alternativo de literatura, no país. Em 1976, quando ele ainda não havia lançado o "Jornal Dobrabil", a pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda publicou a coletânea "26 Poetas Hoje", livro que é considerado o marco da geração de autores imortalizada pelo rótulo de marginal, e de que se destacam Torquato Neto, Paulo Leminski e Chacal. "Assim como eu, esses autores estavam lutando contra as mesmas dificuldades políticas e culturais, contra uma espécie de feudo criado pelos medalhões literários da época, como Carlos Drummond de Andrade. Quem não participasse da panelinha dos monstros sagrados não saía por uma editora. Eu me identifico com os marginais porque publicávamos nossos livros com recursos próprios e não estávamos nem aí para as editoras", afirma Glauco. "Na década de 70, quem era fã de poesia concreta geralmente não gostava da marginal, era um clima bem sectário. Mas ele conseguiu unir o espírito iconoclasta e a postura de destruir barreiras típicos dos marginais ao rigor estético dos concretos", pondera Barbosa. Contudo, é a própria personalidade de Glauco que o diferencia das manifestações artísticas daquela época. "Os marginais não se preocupavam em ser fora do padrão da geração deles, porque estavam irmanados com várias outras pessoas que também contestavam os rumos da arte e o regime político. Porém, eu estava isolado pela deficiência visual, pelas preferências sexuais e pelos meus gostos", resume Glauco. (...) Jorge Schwartz fez uma proposta de trabalho que, em certa medida, revolucionou a nova vida de Glauco: a tradução de "Fervor de Buenos Aires", obra de estréia do grande escritor argentino Jorge Luis Borges - que curiosamente também ficara cego. Aos domingos, falando-se por telefone, Glauco vertia para o português os versos lidos por Schwartz, que também registrava no computador o que o amigo lhe ditava. "O trabalho certamente despertou-o para a possibilidade de voltar a escrever poesia. Ganhamos o Prêmio Jabuti de tradução, um dos mais importantes do país. Isso também o tirou do ostracismo", completa Schwartz. O próprio Glauco divide sua poesia em duas fases: a visual e a cega. Na primeira, nota-se uma profunda influência da estética concretista, como se vê no "Dobrabil". Entretanto, com a perda da visão, ele foi obrigado a desenvolver sua capacidade de memorização e, para isso, investiu na composição de sonetos. Além disso, com a ajuda de um programa de computador concebido especialmente para cegos, ele pôde retomar a atividade de escrever. Os poemas compostos e decorados geralmente em madrugadas insones eram registrados assim que ele acordava. Chegou à incrível marca de mil sonetos em apenas quatro anos.] [De Cassiano Elek Machado, na "Folha de S. Paulo": Desde 1995, o poeta perdeu totalmente a visão. Em sua retina, porém, Glauco tinha bem presente a imagem de Borges. Bibliotecário, assim como o autor argentino, Glauco aprendeu com o autor de "O Aleph" que o fundamental é "organizar tudo na cabeça". Conflitos internos não faltam também no formato de sua literatura. Desde o início, adotou formas rigorosas, como o concretismo, para embrulhar sua poética com temas nunca muito rigorosos. Todos os elementos que rechearam suas criações até aqui, como o rock, o flerte com o orientalismo, o sadomasoquismo e o gosto pela literatura marginal aparecem em "Centopéia". (...) Ícone do "malditismo literário brasileiro", o poeta Glauco Mattoso vive um momento "sui generis" na sua trajetória: o autor está às voltas com três lançamentos simultâneos de livros, cada um por uma editora diferente. (...) Ele está lançando pela editora Landy, como parte da coleção de poesia Alguidar, o volume "Poesia Digesta", que faz um balanço dos seus 30 anos de poesias "indigestas". Com o subtítulo "1974-2004", o livro - que em seu título brinca com o termo em inglês "digest" (digesto, condensado, compilado, resenhado) - vem sendo digerido pelo escritor há muitos e muitos anos. Sua "superantologia", como qualifica o trabalho, era uma forma de seguir os passos de um de seus "modelos" literários, o poeta concreto Augusto de Campos.] [De Chris Daniels: Como eu dizia, fiquei totalmente pasmo com sua trilogia de sonetos, que, a despeito de terem sido produzidos em tão pouco tempo, me parecem equivalentes, em inteligência, humor, fúria e poesia, aos "Testamentos" de Villon, às "cantigas d'escárnio", ao que há de melhor em Kenneth Patchen, em Bataille, e em meu grande herói, Rabelais, para não falar do "Boca do Inferno" e de Bocage (eu não li muito desses dois grandes poetas, mas li o bastante para saber o que fizeram e quem foram) — e de Sade, sim, é claro.] [De Claudio Daniel: Uma arte do escarro, jogo entre voz e memória, nos intervalos entre sono e vigília. Palavras como vísceras ou jorros seminais, odores, imagens, excrescências: elogio ao pútrido. Fender eróticos idílios, pinturas e devaneios, reconvertidas em matéria plásmica, fecal. Exercer o ofício da língua e da lâmina, sobre os tépidos suores de falos e pés: apócrifo rito à pele descorada, impregnada de calosidades e epidérmicas deformações, incensadas por um peculiar desejo. Que transfigura carne em metáfora e metáfora em carne; proferindo impropérios como invocações, no silabário excêntrico da rua, no idioma escroto do boteco e da plebe. Com o olhar no escuro, exercitar a lembrança, o sádico imaginário. Percorrer um atlas pessoal de referências, povoando o sonetário com entes reais e irreais, climas e latitudes da história desolada. Sem esquecer o ritmo e as cores do gibi americano, o tênis sujo de soltos cadarços, a guitarra de cordas cegas, tatuagens de marinheiro e o ânus imundo da cadela. Para descrever tamanha brutalidade, é preciso ser um anjo de botas carcomidas, matador de clichês, delicado inconformista, orixá da língua portuguesa: Glauco Mattoso.] [De Cora Rónai, no "Jornal do Brasil": Um dia, um grupo de pessoas muito especiais recebeu, pelo correio, uma folha de papel xerocada, sem pé nem cabeça, reunindo frases, poemas e idéias soltas no melhor "nonsense" possível, cuidadosamente datilografado. Cuidadosamente? Talvez seja mais correto dizer obsessivamente. (...) Provavelmente, parte das pessoas nem prestou atenção, jogando a folha no lixo. Mas, pouco tempo depois, chegou uma nova folha. E logo outra, e mais outra, o que foi chamando a atenção de alguns dos destinatários, como Augusto de Campos, Décio Pignatari, Millôr Fernandes, Antonio Houaiss, Rubem Fonseca. Em breve, as folhas começavam a receber cartas e colaborações de seus leitores famosos. Isso foi em 1977, e as folhas eram o "Jornal Dobrabil". Agora, os 53 números editados ao longo dos últimos cinco anos acabam de ser reunidos numa edição supercuidada, impressa em papel cuchê com o maior esmero — o que fez do "Dobrabil", indubitavelmente, o primeiro alternativo de luxo do país. A edição foi financiada por Glauco Mattoso, alma e artífice do jornal. (...) Através de uma datilografia minuciosa e inesperada, Glauco imita as famílias tipográficas utilizadas pelos grandes jornais. A sátira é, aliás, a grande característica do "Jornal Dobrabil", não só na forma como (principalmente) no conteúdo. Assim, não é incomum encontrar uma citação de Voltaire assinada por Glauber Rocha; ou um texto em inglês escorreito assinado por William Shakespeare — de autoria do próprio Glauco. Essa irreverência causou, como seria de esperar, algumas confusões. Quando as primeiras cartas e colaborações de pessoas conhecidas começaram a chegar à "redação", muitos amigos de Glauco o cumprimentaram pelo primor com que conseguia imitar o estilo de um ou outro escritor. Quando ele explicava que não se tratava de uma imitação, recebia em resposta um invariável risinho irônico: "Ora, Glauco..." Daí que, na edição de luxo do "Dobrabil", um índice remissivo aponta as colaborações e citações autênticas, para diferenciá-las das... autênticas, mas nem tanto. (...) O material reunido na coletânea do "Dobrabil" vem de todas as fontes imagináveis: de textos de autores clássicos, de jornais e revistas, de rabiscos em banheiros públicos. E, principalmente, da cabeça de Glauco Mattoso, ou Pedro o Podre, ou qualquer outro nome que resolva utilizar — às vezes, até mesmo de pessoas existentes em carne e osso, na vida real. Glauco diz que não se leva a sério — mas para ele, levar-se a sério não tem, exatamente, o sentido habitual que se dá à expressão. Seu jornal é um veículo maravilhosamente criativo, realizado com uma perícia extraordinária e uma constância rara entre os que fazem o que se convencionou chamar "literatura marginal" — enfim, com grande seriedade.] [De DBC Pierre, na "Folha de S. Paulo": O australiano (que já morou nos EUA, no México e hoje vive na Irlanda) DBC Pierre esbanjou bom humor na coletiva que deu no estande da Record, editora brasileira que lançou no país o seu "Vernon God Little", um dos mais importantes livros em língua inglesa lançado nos últimos anos. Por ter vivido muitos anos no México ele gosta de se dizer mexicano e, portanto, próximo do Brasil pelas afinidades latinas. "Acho que o Brasil é o exemplo maior de uma cultura apaixonada, por isso sempre quis tanto conhecer aqui", disse ele, que chegou ao Rio ontem de manhã. Os livros que pediu à sua editora mostram seu anticonvencionalismo: "Abusado", de Caco Barcellos, sobre tráfico de drogas; "Batidão", de Silvio Essinger, sobre o universo do funk carioca; e um volume de poemas do erótico e "marginal" Glauco Mattoso.] [De Décio Pignatari, no "Jornal da Tarde": Chegava-me às mãos esparsamente, agora me chega em pequena coleção, um jornaleco de uma folha que se chama "Jornal Dobrábil". (...) A responsabilidade vai para dois rapazes que não conheço: Glauco Mattoso e (codinome) Pedro, o Grande. (...) Vai do grego ao chulo. Um design gráfico antropofagicamente simples, econômico, criativo. E um texto — verbal e não verbal — simplesmente de rachar o bico. (...) Da diagramação ao texto, tudo ali é farra e bagunça de signos "corporais", se assim posso dizer (não há ilustração nenhuma) — como se a cultura inteira, o mundo inteiro, fossem traduzidos em termos Dadá-intestinais, Dadá-digestivos, Dadá-gestuais. (...) O que me leva a concluir que, não apenas na televisão, mas também no cinema, no teatro, no rádio, na música erudita e popular e na imprensa, aquilo que entendemos por "cultura" ainda depende muito do famoso "Proibido para menores de 18 anos". Daí a constatação: quanto maior a repressão, em qualquer nível, tanto mais claro o sinal de que um menor número está ganhando muito. Quando tivermos uma "televisão dobrábil" estaremos num período glorioso de cultura e liberdade.] [De E. M. de Melo e Castro: Nesta complexa obra, a poética pornô se afirma com uma acutilância inusitada, de tal modo que se não sabe mais, qual é qual, se a poética se a pornô, se a razão se a desrazão de ambos! Mas uma coisa se torna evidente na sua premente pungência: só a poesia permitiria, no seu código e no seu cógito, dinamicamente abertos, uma tal explosão do belo-pornô ou do sublime-abjeto, a que os rigores a que a escrita do soneto exige e obriga, dão um brilho contraditório, angélico e demoníaco. É que só a poesia se consubstancia com a simultânea e violenta subida/descida às esferas superiores e às esferas inferiores dos excessos do humano. Porque tudo o que está em cima é equivalente ao que está em baixo e, reciprocamente, o que está em baixo representa-se no que está em cima, numa espiral interativa, indeterminada e interminável. Fazer sonetos pornô é assim uma tarefa total e tão utópica como essa mesma mútua e recíproca reflexão entre o sublime e o abjeto, entre o perfeito e o defeito, entre o arquétipo e a sua efêmera materialização existencial que em cada um de nós se nasce e se anula. Matéria viva em contínuo declínio putrefacto, em acelerada decadência entrópica, em autodissolução energética, fatal. E, no entanto, os sonetos de Glauco Mattoso aí estão conduzindo-nos de degrau em degrau, de verso em verso, na ascensão descendente ou na descida ascendente, de uma leitura repulsivamente fascinante, em que o cheiro das excreções vitais gera sinestesias e delírios: sinais ambíguos de que a poiésis é, neste caso, o que se fazendo se desfaz. Marca indelével tanto do humano como do desumano.] [De Fabiano Calixto, no jornal "O Estado de S. Paulo": Autor que, entre outras formas fixas, se aventurou pelo haicai, pelos limeiriques, quadradécimas etc., escolheu a forma dos quatorze versos, fundada ali pelo século XIII, para dar moradia privilegiada à acidez, ao humor e à melancolia de sua poesia, com a língua afiada de poeta "canônico e maldito ao mesmo tempo". (...) Para Glauco, os temas tratados (os mais variados possíveis, diga-se) funcionam como alicerces de seu mote, que é, na verdade, o próprio soneto. Tendo o soneto como motivo, o mundo circundante apenas se encaixa dentro da forma. Nesse "maquinário sonetista", podemos imaginar o imenso risco que o autor corre. É uma produção obsessiva! A pergunta é: ainda se segura? Respondê-la não é tão fácil. (...) Glauco sabe o que faz, antes de tudo (lição de poesia aos pretensos poetas): domina a técnica do verso. Peças como "Soneto da língua putanheira", uma hilária paródia pornosiana do poema "Língua portuguesa" de Olavo Bilac, provam essa afirmação. No sufoco destes tempos sem quase nenhuma poesia, o soneto ainda respira, graças à oxigenação que lhe deram alguns poetas que recusam o banal - como na crítica político-visual de um Avelino de Araújo. Como pedra no sapato da chatice crônica, no caldeirão do Mago Marginal, entre cobras e lagartos, uma poção trágica para espantar o tédio.] [De Fausto Wolff: Um mestre em anagramas, jogos de palavras, dono de um estilo irônico e mordaz, que corta rente aos ossos dos caga-regras, Glauco Mattoso infelizmente tem o mau hábito de lamber pés de atletas, de preferência sujos e suados.] [De Fernando Bonassi, na "Folha de S. Paulo": Não é muito comum vermos poetas do texto transitarem para o disco. Para cada Paulo Leminski, Antonio Cícero ou Arnaldo Antunes, há inúmeros escritores produzindo versos ainda divorciados de suas possibilidades cancioneiras. Tudo isso é escolha de quem escreve, de quem compõe e de quem torna o resultado público, claro, mas a permeabilidade entre as duas áreas parece sempre ficar aquém das nossas potencialidades expressivas. É uma pena para os nossos espíritos... Mas parte desse déficit está sendo sanado neste momento. O melhor seria dizer insana e deliciosamente sanado. Um encontro explícito entre a poesia e a música está à disposição dos ouvidos antenados: trata-se do CD "Melopéia", de Glauco Mattoso. Glauco — que é um desses "penetrantes" transitando por diversas áreas, com o nome sempre associado a canções e à própria história da MPB — produziu 23 sonetos, interpretados pelas mais variadas vozes/arranjos da música brasileira, de Itamar Assumpção a Inocentes, passando por Humberto Gessinger, Falcão e Arnaldo Antunes. O espectro de sonoridades é amplo e o mesmo acontece com o alcance dos textos. Se a palavra soneto faz você lembrar de alienadas velharias parnasianas, "Melopéia" pode ser uma revelação. Despudor, sarcasmo e, o mais importante, culhões de observar e sublinhar o país que nos tornamos, com suas xoxotas embaladas a vácuo, fuzis de repetição e políticas de interesses escusos. O Brasil que Glauco passa a limpo é escatológico, injusto, perverso e autodestrutivo. Nada mais verdadeiro, para quem mantém um índice mínimo de abertura de olhos. Numa tradição de gênios, mas que também comporta muito lixo, "Melopéia" representa a unção da inteligência crítica, senso de humor e suingue. Uma porrada adorável. Melhor que isso, só mais disso.] [De Frederico Barbosa: Poucos nomes são tão conhecidos na poesia contemporânea brasileira quanto o de Glauco Mattoso. O pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva começou a se tornar célebre, ainda que no restrito círculo da poesia nacional, com a publicação, a partir de 1977, do "Jornal Dobrabil", um boletim satírico precursor da onda de fanzines. Já se iniciava a construção de um mito: o misterioso poeta muito conhecido, bastante comentado e pouco lido. Livros como "Línguas na papa", "Memórias de um pueteiro" e o "Manual do podólatra amador" fizeram crescer a fama do poeta iconoclasta, fescenino e escatológico. Já em 1982, Cacaso via, com muita lucidez, a singularidade do poeta. Em 1984, Caetano Veloso menciona o poeta na canção "Língua". Assim, o nome de Glauco Mattoso ia se tornando sempre mais célebre, enquanto sua obra, paradoxalmente, ficava, como ele mesmo observa, "circunscrita a pequeno círculo de leitores, em razão das reduzidas tiragens autofinanciadas." Depois de anos de silêncio — e após perder definitivamente a visão, vítima do glaucoma do qual tirara o auto-irônico pseudônimo — Glauco reaparece, já em 1999, com uma série de livros de sonetos. Mas não se pense que o poeta "marginal", "punk" ou "pós-maldito" tenha se rendido ao neoconservadorismo vigente. A forma fixa auxilia o poeta cego a elaborar mentalmente seus poemas, mas não abranda o teor transgressivo e crítico dos textos, que continuam cortantes e indomáveis. A publicação da antologia "Poesia digesta (1974-2004)" vem, portanto, contribuir para que o público que certamente já ouviu falar em Glauco Mattoso possa, afinal, conhecer a obra mais do que necessária do poeta cuja "meta/ jamais foi ao guru servir de escolta/ nem crer que do Messias venha a volta,/ mas sim invectivar tudo o que veta."] [De Giovanna Longo, na revista paulistana "Em Cartaz": Para se referir ao poeta paulistano Glauco Mattoso, algumas pessoas usam adjetivos como pós-maldito, marginal e até punk. Mas, afinal de contas, o que ele é? (...) Quem quiser desvendar se a fama do poeta corresponde ou não à realidade deve assistir ao projeto Poeta em Cena, na Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima. Na ocasião serão encenados poemas de autoria de Mattoso, com direção de Helder Mariani. Criador de uma extensa produção literária, composta principalmente por sonetos, que chega, segundo o poeta, a três mil títulos, coube a Mariani a tarefa de escolher quais seriam representados. Com o auxílio do pesquisador Flávio Rodrigo Penteado, o diretor iniciou um criterioso trabalho de imersão na obra de Mattoso, marcada pela diversidade de temas que vai das atividades cotidianas à escatologia. (...) Para auxiliar na formatação das poesias para teatro, Mariani contou com a assistência da atriz e diretora Denise Weinberg, fundadora do Grupo Tapa.] [De Heitor Ferraz, na "Folha de S. Paulo": O uso do soneto na poesia contemporânea pode fazer a boca-torta. Depende, sem dúvida, de quem maneja o verso. Hoje, diante de um certo "vale-tudo" poético, muitos se apropriam desta velha forma à procura de algo perdido. Mas muita coisa pode caber dentro dessa garrafinha métrica. O poeta Glauco Mattoso, autor marcado por uma forte irreverência, tornou-se, nos últimos anos, um sonetista por excelência. Mas, em seus versos, essa forma lírica se torna o espaço de uma espécie de narração contida pela metrificação e cesuras. Narração de fatos banais, coisas do cotidiano. Ou ainda, podemos dizer que Glauco faz do soneto o espaço da crônica. No quarto volume da série "Mattosiana", o poeta reuniu um grupo de poemas em duas partes. Na primeira, por exemplo, tira um belo sarro do gramático "midiático/ que pretende cagar regra e ser oráculo", e é capaz de descartar o elíptico "risco de vida" e nos empurrar goela abaixo o seu "risco de morte", procurando uma lógica que não é a do falante da língua. Na segunda parte, todas as bandas e roqueiros desde Bill Haley e Elvis Presley até os mais contemporâneos ganham seu verbete sonetístico. Mas sempre com humor, colocando o soneto em vibração com o mundo documentário do chiste.] [De Henrique Marques-Samyn, na revista www.speculum.art.br: Trata-se de um poeta que, indiscutivelmente, está fadado a tornar-se um clássico de nossa literatura satírica e pornográfica - aliás, sua obra foi justamente elencada, na fundamental "Antologia Pornográfica" de Alexei Bueno, ao lado das de Gregório de Mattos, Bocage, Laurindo Rabelo e António Botto, dentre outros; não obstante, Glauco está longe de receber o devido reconhecimento de seus contemporâneos, o que sem dúvida está relacionado às tendências moralistas (e não raro hipócritas) que permanecem vivas e ativas entre nós - as mesmas que, diga-se de passagem, tentaram impedir a comercialização da mencionada antologia de Alexei Bueno em nome dos "bons costumes".] [De Hildeberto Barbosa Filho, no jornal paraibano "O Norte": Ecoando algo de Villon, de Baudelaire e de Rabelais, como bem anota Leo Gilson Ribeiro, em orelha ao terceiro volume, Glauco Mattoso, com sua dicção visceral, anárquica, iconoclástica, perversa e amarga, sem complacência para com o outro nem para consigo mesmo, se impõe como um daqueles casos isolados (por exemplo Lautréamont, em França, e Augusto dos Anjos, no Brasil), a que ouvidos mais "delicados" e sensibilidades mais "refinadas" nunca suportarão... O que para Glauco e para a crítica mais aberta, se não é motivo de lisonja, é mote para uma boa gargalhada!] [De Italo Moriconi, no livro "Como e por que ler a poesia brasileira do século XX": Um dos destacados poetas da geração, hoje atingindo novos patamares de celebridade com a reedição recente de seu fundamental "Jornal Dobrabil", autêntico mapa da mentalidade "pop"-vanguardista-marginal em clave humorístico-pornô-escatológica.] [De Iumna Maria Simon & Vinícius Dantas, na revista "Novos Estudos CEBRAP": Merece ser citada, ainda que de passagem, uma das mais fascinantes criações textuais — poesia? — de todo este período, o "Jornal Dobrabil" de Glauco Mattoso, que tira vantagens exatamente desse estado de nulificação do sujeito e de indiferenciação estilística, para articular uma estratégia perversa. O autor montou um dispositivo anonimizador vertiginoso, sob a forma de jornal, por meio do qual tudo aquilo de que ele se apropria adquire o estatuto humorístico mas degradado de texto poético, só que aí a poesia é uma experiência nivelada à pura fecalidade. O pastiche de todos os procedimentos, estilos, maneirismos, provérbios e citações, deformados ou não pela glosa, quase sempre excrementícia e pornograficamente pervertidos pelo contexto em que são citados, cria uma espécie de elefantíase subjetiva, imprevista e obsessiva, em seu mecanismo gratuito que desconhece qualquer interdição. A autoconsciência deste dispositivo usado para desqualificar e anonimizar entra num torvelinho sem parada — o que é uma imagem aberrante e ameaçadora da sensibilidade aqui descrita, levada ao máximo de despersonalização.] [De Jaguar, no "Pasquim": Não resisto ao jeu de mots: "que viado é esse? parece coisa de merda!" Falar em cocô e chulé ainda causa frisson na província. Apollinaire caipira, trocou o absinto por um chopps e duas pizza no Bexiga. Como poeta de merda atinge seus objetivos.] [De João Adolfo Hansen, na revista paulistana "Arte em Revista": Trata-se do simbólico, que é binário. Por isso, aquilo que os textos de G. M. permitem é falar a partir do imaginário da transgressão, isto é, DENTRO DELA: todo ateu afinal é religioso, os textos permitem leitores cândidos, que acreditam que todo pornógrafo perverso também há de ter intensas zonas de PUDENDUM, um SANCTUS SANCTORUM de pudibunda inocência. (...) Casta estratégia de talvez castas etapas. Os textos de G. M. são afirmativamente cínicos e não querem mudar nada: gozam, enquanto transformam. O mesmo imaginário da transgressão também introduz a biografia, suposto biografema: no caso, o não estilo deve ser necessariamente conseqüência do não-Homem. Como os textos de G. M. e de Pedro-o-Podre erigem um sujeito que se auto-constitui bicha no discurso, seria muito comovente postulá-lo, ao pronome pessoal que aí faz de conta que fala, como ilustração de um vivido. Assim: G. M. é homossexual; os textos de G. M. falam A Homossexualidade; LOGO G. M. é homossexual. Como o tempo da enunciação é o da leitura, leitor, é nela que se constitui o sujeito do texto, efeito produzido nela, não sua causação. Imagine-se G. M. pai de família. Padre. G. M. é uma mulher? G. M. é homossexual? Talvez fosse, ou seria, quando for e, sendo ou tendo sido, o ser será motivo para diferenciação em São Paulo e Para-lá-do-mapa? Há só UM sexo, leitor, cujas variantes são posições diferenciais, canalizadas todas elas multiplamente nos circuitos controladíssimos da economia, não substancializemos assim "O Homossexualismo" etc. — que tédio. Não interessa, aqui, o homossexualismo e o heterossexualismo e o heterogamismo de Glauco Mattoso; talvez o homografismo e o heterografismo, sim, quando for caso para o humor do amor sodomita entre pronomes, quando for o caso de se pensar a literatura como corpo gozoso interposto entre o corpo de quem escreveu "eu" e o molho social, a liter-ratura como máquina de moer detritos no detrito, o leitor incluído.] [De João Silvério Trevisan, no livro "Devassos no paraíso": Já Glauco Mattoso tem um approach anarco-dadaísta freqüentemente eivado de sugestões semióticas, cujas nuances de magistral ambivalência devem-se à inserção do elemento obsceno, com que também se vêem destruídas as tentações de estéril intelectualização univeritária tão típicas dos semióticos. (...) Empregando um sarcasmo demolidor que o reporta à tradição de um Gregório de Matos, ele costuma desdobrar-se em vários heterônimos, como Pedro o Podre, que adora "scat-games". Glauco é também brutalmente irreverente e violento ao criar textos apócrifos. (...) Mas a perversão e o desvio, que nele atingem explosivamente a linguagem, chegam também ao veículo, pois Glauco assume a marginalidade do seu fazer poético e simplesmente imprime folhas subversivas que manda pelo correio a seus leitores escolhidos. Seu trabalho me parece um sopro de radicalidade rara e necessária à poesia, que perde assim seus limites e estribeiras, contaminando tudo.] [De Jorge Schwartz, no jornal "Lampião": Qual o espaço ocupado por Glauco Mattoso na história de nossa literatura marginal? Acreditem ou não, ele se configura como produto-síntese de quase três décadas de poesia experimental. Descendente direto do grupo concretista da década de 50, o JD abunda em poemas concretos. (...) Após o "poema-processo" dos anos 60 e 70, começam a surgir produções isoladas, já mais caracterizadas como imprensa alternativa. (...) Seu caráter efêmero é típico da produção literária considerada marginal. Dentro deste contexto, e pela sua longevidade, o "Jornal Dobrabil" é um marginal à margem. (...) Ao meu ver, Glauco é um "enfant terrible" de Oswald de Andrade. Do fechadíssimo clube da Antropofagia, ele revela-se um dos membros mais devoradores da tribo. O JD encontra-se hoje há mais de meio século do Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha, quando foi lançada a "Revista de Antropofagia". O "Manifesto Coprofágico" e o "Manifesto Escatológico" são dois textos chaves do JD que mostram a exaltação da merda como síntese residual do grande gesto de devoração. (...) Estamos perante um projeto anarco-poético por excelência, onde o sistema é criticado através das armas tecnológicas oferecidas pelo próprio sistema: uma Olivetti & Xerox. (...) O malabarismo tipográfico dá ao jornal um caráter inusitado: verdadeiros arabescos da era tecnológica, com um "design" de fazer inveja a qualquer projetista gráfico. Olhado de perto, um labirinto de letras; de longe, aquilo que Oswald recomendava no seu "Manifesto da Poesia Pau Brasil": "pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico". (...) Queremos ainda ressaltar dois traços que marcam o estilo do JD: são eles o PLÁGIO e a PARÓDIA. Baseado no plágio como forma de recriação poética, Glauco recupera (via Millôr) a famosa sentença de T. S. Eliot: "O poeta imaturo imita. O poeta maduro plagia." E para aqueles que o acusam de plagiar Millôr, nada "milhor" do que plagiar o Glauco: "Estão me comparando ao Millôr Fernandes. Isso não é injusto, porém encerra um equívoco. Claro que o Millôr é um autêntico gênio do plágio inteligente, e eu seu discípulo, mas ele se considera um humorista, e eu apenas um artista. A diferença está em nós, não no que fazemos. Pois, para todos os efeitos, o humor só pode ser trazido a sério, e a arte é ridícula." Vemos como o próprio Glauco procura estabelecer os limites do processo plagiatório, onde as diferenças entre um e outro ficam marcadas pelo humorismo vs. experimentalismo. Isto lhe dá coragem para afirmar mais adiante: "Há títulos tão bons que não deveriam ter livro. E há plágios tão bem feitos que o original não deveria existir. Mas já que têm e existem, o jeito é plagiar os títulos e intitular os plágios." Para aqueles leitores que acham excesso de merda ou de referências anais no JD, é meu dever alertá-los que não há motivos para pânico, muito pelo contrário. Por um lado, o erotismo anal como forma de contestação aos valores de uma moral sexual repressiva, atinge no JD o próprio delírio. O último gesto antropofágico (ou coprofágico) realiza-se na síntese do ato da defecação. Nada melhor então do que erotizar este gesto, e torná-lo um ato de poder: a "libido dominandi". Se já Freud achava que a merda equivale ao ouro, nada mais valioso no seu gesto subversivo do que a apologia anal, que rima e coincide com o vil metal.] [De José Paulo Paes, no "Jornal da Tarde": Se bem lhe demonstre, acima de qualquer dúvida, a habilidade de versificador, não me parece que o reduzido compasso do limeirique e do haicai possa dar toda a medida da versatilidade poética de Glauco Mattoso. Esta vamos encontrá-la antes no seu "Jornal Dobrabil", cuja escrachada contestação do filisteísmo do Establishment político-militar pós-64 se constituiu, sem favor, no ponto mais alto alcançado pela imprensa alternativa ou nanica daqueles anos que não deixaram saudade alguma. O mosaico da página de jornal, onde ele combinava a tradição do barão de Itararé com a do marquês de Sade, numa como nobiliarquia antropofágica, oferecia o espaço ideal para a imaginação, a irreverência, a erudição e o senso de humor de Glauco Mattoso — para nada dizer da sua inventividade datilográfica — deitarem e rolarem como quisessem. Bem mais recentemente, com suas "Rockabillyrics", a versatilidade do poeta deu outro sinal de si ao se valer dos estilemas das letras de rock para criar uma dicção "rocabileira" realmente notável pela saborosa fluência do seu coloquialismo. E assim, desde o mosaico de jornal até o limeirique anglo-nordestino, desde os trocadilhos até o haicai nojento, Glauco Mattoso vai desdobrando em leque as suas potencialidades de poeta que tem no humor — um humor cujo refinamento ultrapassava desde o começo os limites de um marginalismo historicamente datado — o signo de nascimento por excelência.] [De Leila Míccolis: Enfim uma peça atreve-se a trazer ao palco a vida de um dos mais polêmicos poetas da Geração 70: Glauco Mattoso. Sempre achei que não precisávamos recorrer aos famosos "poetas malditos" franceses, quando no Brasil tínhamos o nosso grande Glauco: assumidamente homossexual, coprofágico, podólatra, e atualmente cego. O texto de Denise Camilo Duarte mostra a genialidade do poeta, fazendo com que os poemas se constituam na própria narrativa dramatúrgica, através da qual dialogam vozes do passado com sons do presente, não em uma integração harmoniosa, o que destoaria da própria intenção da peça, mas em uma estranha dodecafonia que traduz, com maior fidelidade, o universo deste poeta, cuja maior ousadia é não separar sua obra de sua vida, dicotomicamente, fazendo da sua literatura uma espécie de autobiografia de suas vivências. A autora deixa no ar duas interrogações: vivenciando o que o autor viveu, escreveríamos diferente? Medraríamos e apenas agradeceríamos a Deus "por nos deixar respirar, por nos deixar existir", omissamente? Para Artaud, o Teatro tinha que ser cruel para despertar no espectador, através da própria carne, as adormecidas emoções, a fim de fazer explodir o grito recalcado, "o seu quase gosto pelo crime, as suas obsessões eróticas, a sua selvageria, as suas fantasias, e mesmo o seu canibalismo". Só assim, perturbado a tal ponto, o público se transformaria. Quer queira quer não, Glauco faz a mesma coisa com sua poesia - uma aventura, uma experiência comovente e verdadeira -, que a peça "O poeta da crueldade" mostra de forma impactante e perturbadora.] [De Leo Gilson Ribeiro, na revista "Caros Amigos": Ah, quem me dera de Camões ou Milton ter a vigorosa lira para agradecer-te a beleza bocagiana de teus sonetos ricos, inteligentes, variadíssimos, com pitadas de Baudelaire, um tempero de Rabelais e um pouco de molho de Villon, poeta Glauco Mattoso! Acrobata do picadeiro de todos os gêneros de soneto, do hindu ao judaico, do concretista ao muçulmano e outros mais, galgas cada vez mais degraus da cimeira poética, sem parar agora. Nada pode velar a luz criadora de um espírito superiormente dotado como o teu! Aleluia!] [De Luís Dolhnikoff a Alcir Pécora: Acabo de receber pelo correio dois livros do Glauco, "O glosador motejoso" e "Sonetos requentados". Ele, cego, se metamorfoseou em vinho: está cada vez melhor. Não pode melhorar em termos de domínio técnico das formas clássicas, não apenas do soneto em todas suas variáveis. Então melhora no domínio de sua temática, o sexo pervertido como nada pervertido face ao que é o homem (que aliás inclui em sua condição a multiformidade), e uma metalinguagem esperta, com conotação autobiográfica, a cegueira versus a lucidez do fabbro. Tudo cozido no fogo nada brando de um humor finamente escatológico. Em suma, recende a vida. É poesia "realista", no sentido mais lato do termo, pois agarrada à realidade da vida como hera num muro. O contrário do que costuma rolar por aí, afetação idiossincrática de poetas que "se levam a sério", e "levam a sério" o "ser poeta". E que se agarram a isso, que é areia.] [De Manuel da Costa Pinto, no livro "Literatura brasileira hoje": Glauco fez parte da chamada geração marginal, também conhecida como "geração mimeógrafo" — que na década de 1970, durante os anos de chumbo da ditadura militar, buscou meios alternativos para veicular textos de teor inconformista, à margem do mundo oficial e das instituições culturais. Data dessa época seu "Jornal Dobrabil", um panfleto "dobrável" cujo título remete parodicamente ao "Jornal do Brasil" e que associava experimentações tipográficas semelhantes às da poesia concreta a um conteúdo contracultural. Esse poeta glaucomatoso sempre vinculou insurreição moral a irreverência formal. Tanto é assim que seus sonetos se apropriam de um formato tradicional ("a mais difícil e a mais bela das formas da poesia lírica", segundo o parnasiano Olavo Bilac) para fazer do domínio técnico do verso um instrumento de resistência à dominação. (...) Glauco Mattoso é um herdeiro da poesia fescenina (a lírica licenciosa da Antigüidade latina), das cantigas de escárnio e maldizer (que remontam ao trovadorismo português), da poesia erótica do barroco brasileiro Gregório de Matos e do sonetista português Manuel du Bocage: transforma perversão, pornografia e auto-humilhação masoquista (leia-se seu "Soneto Natal") em denúncia anárquica da "merda comunitária cosmopolita" — como no "Manifesto Coprofágico". (...) Chulo, escatológico, Glauco Mattoso compõe — com sua pretensa autobiografia ("Manual do podólatra amador", 1986), com seus poemas coprofágicos e com os sonetos de livros como "Paulisséia ilhada" (1999) e "Panacéia" (2000) — uma espécie de compêndio irônico de moral e cívica que, pela perversão, denuncia as perversidades da história e da política. (...) Recentemente, ficou completamente cego, adotando a forma fixa do soneto, cuja regularidade facilita a memorização dos versos. Mas nem a submissão à rima e à métrica conseguiu discipliná-lo: com seus pastiches enciclopédicos e sumamente engraçados, Glauco Mattoso passou da "Fase iconoclasta" para a "fase podorasta", em que podolatria (fetiche por pés) e pederastia transformam até formas bem-comportadas de poesia em artefatos de insurreição.] [De Marcella Althaus-Reid, na revista "Época": Polêmica e provocadora, a professora de Ética Cristã da Universidade de Edimburgo reivindica um Cristo bissexual. No fim dos anos 90, a teóloga Marcella Althaus-Reid começou a escrever um livro para ela e para seus amigos. Era um desabafo de quem, ainda na infância, sentia que não cabia em nenhuma fôrma: nem a da família, nem a da sociedade. O livro fez tamanho sucesso em particular que ela foi convencida a publicá-lo. "Indecent theology" (teologia indecente) foi lançado no Reino Unido em 2000 e Marcella nunca mais parou de produzir polêmica. No ano passado, ela botou no mercado outro livro provocador: "The queer God" (o Deus "esquisito"). A palavra inglesa "queer" é habitualmente traduzida como "gay", mas Marcella a usa no sentido original da Cultura Queer, um movimento que surgiu em Londres e Nova York no fim do século XX e ganhou importância na política e no comportamento. Nele, Queer é compreendido como aquilo que está fora da possibilidade de formatação ou definição, para além da ordem. É transgressor, mas também indefinível. Os dois livros de Marcella — há mais três no prelo — giram em torno desse pensamento, ainda pouco conhecido no Brasil. Marcella defende a idéia de que a teologia precisa resgatar o que é tradicionalmente excluído: não só os pobres, mas a sexualidade. Propõe uma teologia "sem roupas íntimas", contesta a "ideologia heterossexual" da Bíblia e lança um Deus de muitas faces — à imagem e semelhança de todos e de nenhum em específico. Provocadora — por convicção e por marketing —, essa argentina convertida em escocesa, criada na religião protestante quacre, esteve no Brasil pela primeira vez no fim de agosto, a convite da Universidade Metodista de São Paulo. Fez conferências e esvaziou as livrarias paulistanas dos livros do poeta Glauco Mattoso, de quem é fã confessa.] [De Maria Alice Amorim, na revista "Continente": Glauco Mattoso critica costumes, satiriza a política, maldiz a cegueira, consumada em 1995, mas não cruza os braços. Labuta diariamente com um computador falante e com os recursos mnemônicos da poesia rimada e metrificada, sem perder de vista transgressões e subversões que pratica na sua escrita maldita, desde os tempos da marginália dos anos 70. Visceralmente ligado a autores fesceninos e submundanos, a exemplo de Bocage e Aretino, a desconstrução poética que exercita a partir dos anos 90 muda o foco: desprende-se do recurso às visualidades do texto concretista para adotar o uso das oralidades tradicionais. E é aí, a partir dessa época, que reacende o fascínio pela poesia popular nordestina e inaugura um caso amoroso com o soneto, a glosa e a literatura de cordel. (...) Transitar do "underground" à tradição pode soar como paradoxo; no entanto, a vocação polêmica mantém-se na dianteira da obra de Glauco Mattoso, com esmero formal digno dos eternos paradoxos do barroco, numa dicção única, contracultural desde sempre.] [De Mariana Duccini, na revista "Imprensa": O glaucoma que o fez totalmente cego também o singularizou na alcunha de Glauco Mattoso: "glaucoma-toso" ou "aquele que sofre de glaucoma", em uma subversão de linguagem tão peculiar aos poetas. Cúmulo da auto-ironia, visto que sua obra, no início, era eminentemente baseada nas artes visuais. Poeta "maldito", sempre cultuou o sujo, o escatológico, o sadomasoquista. Na fase em que enxergava, fazia poesia concreta, arte dactilográfica (Glauco é o autor do "Jornal Dobrabil", um dos mais célebres fanzines dos anos 70 e que satirizava a grande mídia), suas referências vinham dos quadrinhos e do cinema. Atualmente, sem um repertório de imagens (a não ser aquelas que a memória cristalizou), sua poesia encarna a visceralidade de cada palavra, cuidadosamente medida. Nessa perspectiva, em que o código verbal é a essência da arte, o ritmo, as rimas, a métrica, deveriam ser soberanos. O soneto tornou-se, assim, a forma poética que o consagrou - notadamente após a cegueira. A temática, no entanto, jamais se curvou ante o classicismo dos decassílabos. Antes, apresenta-se cada vez mais fiel à escatologia original. (...) Glauco acompanhou, ora ao largo, ora mais de perto, todos os movimentos de vanguarda de sua época, no Brasil (sem, no entanto, se imiscuir completamente em nenhum deles). É "herdeiro" dos goliardos, os estudantes beberrões do século XII. Da maldição de Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e Baudelaire. Da verve pornográfica de Gregório e Bocage. Da bruxaria de Jorge Luís Borges. Sua personalidade cáustica, no entanto, "escorrega" de qualquer enquadramento ou definição. É um beatnik da brasilidade, mas não apenas isso. Glauco está empiricamente imerso na contradição, desde a infância - eis o grande diferencial de sua produção. Jamais se furtou a escancarar os abusos de que foi vítima, a homossexualidade, a fixação por pés masculinos, a orientação sadomasoquista. O artista "cai de boca" (às vezes, até literalmente) naquilo que cobre de pânico a maioria dos seres humanos.] [De Mário Sérgio Conti, na "Folha de S. Paulo": Não basta posar de "enfant terrible" para se fazer poesia. Rimbaud só existiu um, e é lido até hoje porque tinha talento. No Brasil, só existe um Glauco Mattoso. Mas abundam os diluidores de Oswald de Andrade, que jamais quis ser o príncipe dos poetas de São Paulo, título que Nassar, Tavares e Klafke desejam ruidosa e obstinadamente.] [De Millôr Fernandes, no "Jornal do Brasil": Fascinado com o desvario, calibre, engenho & arte, tudo embrulhado em grosso manto de perfídia e desespero, respondi a algumas provocações de Glauco, que ele publicava e estimulava. (...) Cultura enciclopédica delirante — sabe exatamente tudo —, domínio safado de várias línguas, entre elas o Volapuque e o Gujarati, despudor diante de todas as glórias, embora a amplitude e a qualidade de sua produção sejam um contraditório, Glauco já nasceu pronto, ainda que nem ele nem eu soubéssemos disso, no "Jornal Dobrabil". (...) Mas o "Jornal Dobrabil" foi só o início. Depois veio o ensaio-deboche sobre o trote, a erudição léxica do dicionário de palavrões inglês-português, até a glória atual dos sonetos, camonianos, perfeitos como técnica, transbordantes de idéias, nojentos como temática (a podolatria, idolatria não só do pé, mas do pé sujo) e assustadores pelas confissões, pura literatura, eu sei, ninguém é tão tarado, mas minuciosa, exagerada, buscando o fígado do leitor. Cada palavra de Glauco Mattoso é uma reverberação. Não há como ultrapassá-lo.] [De Moreira de Acopiara, na revista "Laboratório de Poética": Como bem disse Glauco Mattoso, poeta paulistano cego e um dos melhores sonetistas do Brasil, que transita com muita tranqüilidade por todos os estilos de poesia, conhecendo inclusive todas as modalidades do cordel e do repente, "nos anos 1970/80 houve uma espécie de relaxamento". Verdade. Muitos poetas abaixo da média publicaram intensamente e o Brasil foi infestado por cordéis muito ruins. Isso contribuiu sobremaneira para a má fase pela qual passou essa importante manifestação da cultura popular brasileira. Felizmente essa fase ruim acabou e o momento do cordel é muito bom.] [De Nelson de Oliveira, no jornal "O Globo": Glauco está de volta, e, ao que parece, numa grande enrascada. Resolveu cutucar com vara curta Dante e Camões. Ao decidir trazer à luz sonetos, autocondenou-se a medir forças com os maiores criadores da literatura ocidental. Petrarca e Shakespeare, invictos há séculos, também aguardam a vez de subir no ringue. Mas "Centopéia", "Paulisséia Ilhada" e "Geléia de rococó" também podem ser vistos como um único e longo poema, daí a parcial aparição do termo "epopéia" no título do primeiro livro, e de "ulisséia", no do segundo. Por promover a mestiçagem entre o nobre (forma) e o podre (tema), podem ser vistos ainda como uma coleção mais de anti-sonetos do que de sonetos — o melhor modo de entender os três livros. O austero vê-se, dessa maneira, desafiado pelo jocoso, a matéria pela antimatéria e a arte pela antiarte.] [De Paulo Polzonoff Jr.: Glauco Mattoso é um poeta que sempre esteve ligado à arte marginal. Foi à margem de tudo o que se escrevia de pretensamente novo no Brasil que começou, ainda na década de 70, a escrever sonetos. O que pode parecer um conservadorismo tacanho se revela como extremamente revolucionário em Glauco Mattoso. Em tempos de desregramento, a disciplina auto-imposta pelo poeta é um alento para quem está acostumado a desdenhar dos livros de poesia, não sem um tanto de razão. (...) Não pense o leitor que Glauco Mattoso é um purista. Ele faz uso, isto sim, de uma forma tradicional para destilar este seu poderoso veneno satírico e/ou erótico. Às vezes, confesso, é de causar nojo. Achava que já havia lido de tudo na vida quando deparei-me com os sonetos de Glauco, que destilam um ceticismo mau-humorado (ou humorado demais para um leitor mau-humorado) misturado com referências homoeróticas sem o crivo de censura alguma. (...) Ruborizaria Camões se ouvisse as coisas que Glauco Mattoso, em sua sátira que em muitos bons momentos lembra o Boca do Inferno, Gregório de Mattos. Não resta pedra sobre pedra na perfeição de seus sonetos.] [De Pedro Stephan, no sítio www.mixbrasil.com.br: Os admiradores de pés masculinos estão vivendo um momento de êxtase: está em cartaz no Rio de Janeiro, com a casa lotada (num teatro na Lapa), a peça "O Poeta da Crueldade" baseada na vida e obra do papa da podolatria gay do Brasil, Glauco Mattoso. A encenação é baseada nos poemas e prosa do autor, transformados num monólogo pela teatróloga Denise Duarte. No papel-título, o ator Daniel Barcelos, que, além de atuar, também produz e dirige o espetáculo. Durante uma hora, tempo que dura a peça, Barcelos magnetiza completamente os espectadores, numa atuação arrebatada e provocativa. Faz cenas com a platéia, se contorce, chora, ri, e esbraveja a obra visceral de Glauco, que pela primeira vez é usada num espetáculo teatral. A montagem é simples (uma bela luz e cenografia criativa, utilizando materiais alternativos, criam belos efeitos cênicos), mas tem lá os seus luxos, que ficam por conta das participações especialíssimas de grandes nomes do teatro e cinema nacionais, como Antônio Abujamra, Laura Cardoso e Paulo César Pereio, que contracenam com Daniel Barcelos através de vídeos. Além disso, a peça tem um ator eletrônico: um computador, com um programa de leitura de voz, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, usado na vida real por Glauco, que é cego, para escrever e se comunicar com as pessoas através da internet. Durante o espetáculo, o computador lê e-mails hilários, recebidos pelo autor em suas paqueras pela net, arrancando gargalhadas do publico, e quase rouba a cena. Desconhecido do publico baunilha, no entanto Glauco é cultuado por uma legião de fãs moderninhos, eruditos ou alternativos: pessoas ligadas à literatura, homossexuais, punks e músicos. Suas letras, além de serem originais na temática, são feitas em forma de sonetos, com uma métrica rígida, e por isso mesmo facilmente musicadas. Essa é a razão pela qual a trilha sonora da peça, um dos trunfos do espetáculo, seja feita de músicas compostas e gravadas por ídolos do pop-rock tupiniquim, tais como Arnaldo Antunes, Humberto Gessinger, Edson Cordeiro e Itamar Assumpção. O publico (que se emociona, aplaude com entusiasmo, e ao final da peça participa de um bate-papo com o ator) é surpreendentemente composto de jovens, casais hetero e senhoras idosas, que se dobram de rir com o deboche escancarado do autor, e prendem a respiração nas cenas de lambeção de pés, exibidas nos vídeos. Ao fim do espetáculo querem saber mais sobre a vida do Glauco: "Aquilo que ele diz nos poemas... é tudo verdade?", pergunta ansiosa uma senhora. Alguns jovens, com olhos faiscando, querem saber em que livraria podem comprar os livros de Glauco Mattoso.] [De Régis Bonvicino, no jornal paulistano "Leia Livros": Antes de mais nada, GM é um artesão hábil de formas, coisa raríssima entre bardos, vates e bonifrates de sua camada generacional. Nosso amigo vai do soneto inglês ao petrarquiano, do hai kai japonês ao poema concreto ortodoxo (onde se encontram os momentos mais discutíveis do livrinho) com segurança, competência e humor. E isto, no país do poema-piada, é um sinal de mais. Sem falar que, do ponto de vista temático, "Memórias de um pueteiro", na pista do "Jornal Dobrabil", transforma todos os "sex-lib-poets" em freiras enclausuradas de um convento de cidade do interior.] [De Ricardo Aleixo, no jornal mineiro "O Tempo": Glauco Mattoso é um caso único na literatura brasileira. A extrema novidade da presença dele é rara mesmo quando confrontada com a produção literária de outras épocas. Seus principais traços distintivos: vontade de superação da oposição dicotômica vida/texto; problematização do controle social do corpo masculino e ao mesmo tempo da "identidade gay"; erudição não-acadêmica; preparo técnico-formal; visão histórica da poesia; ouvido apto a captar da zoeira das megalópoles as mínimas filigranas lingüísticas. É ao "ouvido musical" de Glauco que devemos seu retorno à poesia, depois de dez anos só escrevendo prosa e, principalmente, depois de ter ficado cego em decorrência do glaucoma que lhe valeu o nome literário. Fazer sonetos — índice, há muito, de conservadorismo estético — tem tudo a ver com esse iconoclasta que sempre se apropriou com habilidade de outros gêneros poéticos transformados em fórmulas ou fôrmas poéticas, como o haicai, o poema concreto etc. A trama, agora, é envenenar o soneto, despejar sobre sua monotonia rítmica e suposta nobreza a matéria viva, suja e fétida do cotidiano. Mais novo sócio de um clube que tem Homero como sócio-fundador e membros ilustríssimos como John Milton, Swift, Joyce e Borges (de quem se tornou tradutor), Glauco Mattoso vocaliza sonetos também por causa dos aspectos mnemônicos, portanto conservadores do gênero. Cego e de novo poeta, pode-se dizer que ele incorporou a cegueira enquanto elemento composicional, ao invés de render-se a uma fatalidade.] [De Ricardo Corona, na "Gazeta do Povo": Somente com essa mistura de universos, Glauco já estaria posicionado na contramão da caretice que rodeia a dita forma fixa. Mas o autor paulista escancara que o soneto não é a camisinha da poesia e que o tema "low" — escatologia, homossexualidade, fetiche etc. — sempre serviu bem à literatura de todos os tempos e estirpes, demonstrando o engodo que pode ser a mera demonstração de ginástica formal. Dialogando com o que há de mais vivo na tradição, os sonetos investem contra o mau uso da forma, servindo como antídoto contra todo tipo de conservadorismo. Em Glauco respiram e conspiram Gregório de Mattos e Bocage — para citar apenas dois de uma vasta linhagem de rebeldes. Por isso, uma das importâncias fundamentais desse disco de sonetos musicados, "Melopéia", é a possibilidade de se perguntar o quanto as formas poéticas são também políticas. Por trás de pergunta tão simples, pode-se chegar a respostas que envolvem a própria criação poética ou, mais especificamente, a sua liberdade de linguagem. Como já disse, não se trata aqui de patrulhar o soneto, metendo-se a julgar a importância de fazê-lo ou não, mas avaliar as diferentes intenções dos praticantes de hoje, que vão desde um poeta conservador como Alexei Bueno, até um libertário maldito como Glauco Mattoso. Não restam dúvidas que a fama de forma rígida, facilmente atribuída ao soneto, pode ser usada como bandeira para cruzadas conservadoras, chamando para si a tarefa de elevar a "baixa" produção de uma época. Contudo, dependendo da visão de mundo do autor, de seu comprometimento com a inserção da poesia no seu tempo, etc., a mesma fama pode contribuir para um efeito contrário, de extrema consciência política, estética e comportamental. É o caso do poeta paulista Glauco Mattoso. Talvez porque sempre transitou pela forma fixa com inventividade e rigor libertários, fazendo haicais urbanos e limericks nordestinos, por exemplo. Neste caso, chegando a produzir uma verdadeira obra-prima: "Limeiriques & outros debiques glauquianos", transformando o limerick em limeirique. Uma apropriação "abrazileirada" e abusada da tradição. Glauco parece não se contentar em simplesmente mudar o rótulo do pote de conserva ou somente trocar a sua água. Também parece não se render ao pudor de comer a iguaria para ficar conservando-a indefinidamente até a sua putrefação. Sabe o quanto é bom e necessário comê-las.] [De Roberto Piva: O garoto-escândalo & o pivete-skate oferecem ao Conde Glauco Mattoso seus tênis constelados de chulé. Animais nômades, sociedades de bofinhos & carecas com seus rostos-paisagens. Bêbado de chulé, Glauco escreveu sua sinalização cósmica chamada "Centopéia". Exorcismo podólatra para pintar de azul os pés do garoto marroquino. As sereias do Rock falam em voz alta. Karma kósmico. Yoga da perversão. Coruja-negra & seu 3º olho. Fantasma com pés tecnológicos. Brasões anfetamínicos das tribos monarquistas. Conde Glauco & o Grande-Dragão de mil pés, nos convidando para o jogo das sombras. Eis o Tempo dos Assassinos.] [De Ronaldo Bressane, na revista "Trip": Sonetista serial, pornógrafo, fanzineiro, erudito versado em sadomasoquismo e música barroca, Pedro José Ferreira da Silva, paulistano, fala sete línguas e adora enfiar a sua entre pés masculinos. Esse seria um rascunho tosco para definir a lenda Glauco Mattoso, poeta dos mais esdrúxulos desta terra (em que ser poeta já é algo bem esdrúxulo). Um ser raro, porém visitado por figuras tão iluminadas como os músicos Caetano Veloso e Lobão, os escritores Millôr Fernandes, Augusto de Campos e Arnaldo Antunes e críticos do porte de João Adolfo Hansen, que, a seus pés, louvam sua poesia satírica como uma das mais originais no Brasil.] [De Silvio Essinger, no "Jornal do Brasil": Datilografado na frente e no verso de uma folha de papel ofício, xerocado e enviado por carta a amigos e nomes ilustres da cultura brasileira entre 1977 e 1981, o "Jornal Dobrabil" chega agora às livrarias, com a reedição, pela Editora Iluminuras, do livro em que Glauco compilou, exatos 20 anos atrás, com prefácio do poeta Augusto de Campos, as 53 edições (de periodicidade absolutamente instável) que esse seu "fanzine avant la lettre" teve. (...) O que este novo "Jornal Dobrabil" - trocadilho com o "Jornal do Brasil", do qual copiava o logotipo, e referência ao fato de a folha ter de ser dobrada para entrar no envelope da carta - ganha de diferente em sua segunda edição é uma orelha de Millôr Fernandes, um dos mais atentos leitores e assíduos colaboradores na época em que ele circulava apenas por carta. (...) Alguns, como o poeta Bráulio Tavares, escreviam cartas de volta, com poemas que eram publicados. As primeiras correspondências foram inventadas - e Glauco as respondia desaforadamente na seção "Curreio". Depois, passou a receber algumas de verdade, mas não mudou a forma de respondê-las. "E as pessoas achavam que aquelas também eram inventadas", diz. (...) Tão fascinante quanto ler o "Jornal Dobrabil" é imaginar a sua confecção, numa época em que computador pessoal ainda era coisa de filme de Stanley Kubrick. "Era algo extremamente trabalhoso, tudo na base do olhômetro e do dedo, um verdadeiro crochê de letras", lembra o autor. Nada era sequer rascunhado. "Eu punha uma folha na máquina e ia enchendo", diz. "E o resultado ficava tão harmônico que as pessoas pensavam que era planejado." (...) Relendo hoje o "Dobrabil", Glauco vê um certo valor histórico, de resistência à ditadura, mas também muito valor estético, que pode ser percebido em detalhes como a criação de heterônimos (Pedro o Podre, Pierre Le Pourri, Pedlo o Glande) e suas ousadias visuais absolutamente artesanais. (...) Hoje em dia, mesmo depois de tanta experimentação, a poética de Glauco Mattoso mantém a essência: "É o escatológico, o fecenino". Além de continuar com seus sonetos escatológicos, o poeta se dedica a pôr na internet as obras de autores afins, como Bocage, Laurindo Rabelo ("uma espécie de Bocage brasileiro") e o mexicano Salvador Novo. "São meus antepassados recuperados", diz. (...) "A internet é a liberdade total, sem tamanho de texto ou censura. É como se fosse um fanzine", comemora.] [De Solange Ribeiro de Oliveira, na revista "Matraga: Estudos Lingüísticos e Literários" (da UERJ): O sobrenome fictício "Mattoso" remete também a Gregório de Matos, elegido pelo poeta seu antepassado literário. Desse modo, o brasileiro insere-se na tradição de autores fesceninos como Bocage, Aretino, Genet ou o próprio Gregório, exploradores do obsceno e do impuro, a serviço da crítica de costumes e da sátira social. Efetivamente, Mattoso alia o tema da cegueira à exploração da dimensão horizontal, com suas conotações de humilhação, degradação, e de erotismo anal. Sem cessar, a persona lírica explora a humilhação do cego, repetidamente apresentado como vítima de violência, especialmente através de uma sexualidade anal imposta por um vidente cruel. Essa temática constrói um análogo verbal do rosto sacral postulado por Bataille, que apresenta, como complementares, a face, centrada na boca, e as nádegas, cujo eixo é o ânus. Na poesia de Mattoso, os dois "rostos", o oral e o anal, são freqüentemente aproximados. Submetida a uma mistura de humilhação e erotismo, a persona lírica encontra sua realização num masoquismo que também se deleita com percepções de imundície e maus odores. O sujeito poético faz do pé imundo que o submete a práticas humilhantes o seu fetiche amoroso - versão grotesca da "Pata da Gazela", de Alencar, romance mencionado em um dos poemas. Que melhor ilustração se poderia encontrar da arte abjeta, em sua versão literária? (...) Do ponto de vista formal, Mattoso, também autor de "Dicionarinho do Palavrão & Correlatos", reivindica para si um estilo que ele próprio resume em alguns rótulos, quase todos neologismos: "coprofagia" (releitura escatológica da antropofagia oswaldiana), "pornosianismo" (apuro formal no tratamento de temas pornográficos), "datilograffiti" (linguagem chula de grafitos de banheiro levada ao papel por meio da máquina de escrever), "barrockismo" (procedimentos preciosistas, contrastantes com a vulgaridade da matéria trabalhada), "transficcionismo" (sonetos compostos de paráfrases de contos alheios). No conjunto, o estilo de Mattoso justifica esses rótulos.] [De Steven Butterman: Em diversos sentidos, Glauco Mattoso é herdeiro direto da satírica linhagem sonetística de Gregório de Mattos. DE fato, cabe indagar até que ponto as similaridades (...) ensejariam a comparação formal entre os sonetos gregorianos e mattosianos. A encarnação pós-moderna do "Boca do Inferno" faria jus a tal título, quer pelo cinismo, quer pelo criticismo, quer pelo humorismo, predominantes nos versos de Mattoso. (...) A motivação fetichista é notável nas coletâneas de sonetos de Mattoso, sonetos camonianos (compostos em verso heróico), nos quais o padrão decassílabo é rigorosa e consistentemente — poder-se-ia dizer "fetichisticamente" — observado. A unidade temática ao longo da obra é tão obsessivamente repetitiva quanto a forma fixa que lhe serve de arcabouço: o amor homoerótico ao pé masculino e a cultivada lamentação do sofrimento masoquista. (...) Mattoso usa perversa e performaticamente o sadomasoquismo à guisa de metáfora da individualidade e o fetichismo à guisa de ponte para a subjetividade. (...) No cerne do projeto mattosiano reside a deliberada colocação de uma insolúvel tensão em cujo bojo se sustenta o seguinte paradoxo: a voz poética "despatologiza" o fetichismo e o sadomasoquismo, resgatando-os da rotulagem normativa de "perversão", mas simultaneamente reafirma e perpetua a radical estética da própria perversidade, num conflito interminável porém realizado, que resiste à normalização.] [De Susana Souto Silva, na revista "Língua Portuguesa": Inventa-se em seus textos. Vai da folha fotocopiada ao livro luxuoso, do folheto de cordel ao CD, da página impressa à tela do computador. Quanto às referências, de Camões a Augusto de Campos, de Gregório de Matos a Luiz Delfino, de Olavo Bilac a Millôr Fernandes, de Sade a Cego Aderaldo... Quanto ao gênero, do ensaio ao poema visual, do conto ao manifesto, do romance ao poema fescenino, do soneto à autobiografia. Entre os temas: o pé & a cegueira (binômio central em grande parte dos seus livros), o politicamente incorreto e o correto, o baixo corporal, o amor, a feitura do poema, a cidade, o preconceito, o ódio... Em tudo, imprime a marca do humor, do riso, ora ao canto da boca, ora, desbragado, solto. O primeiro poema assinado como Glauco Mattoso tem o título de "Kaleidoscopio" (1974), com "K". Anúncio e afirmação da sua pluralidade. Impossível etiquetá-lo, poeta visual, experimental, sonetista, tradutor, letrista, editor, ensaísta, produtor de banda punk, colunista, graduado em Biblioteconomia e em Letras, pela Universidade de São Paulo, ex-funcionário do Banco do Brasil, esse caleidoscópio chamado Glauco Mattoso desnorteia e desconcerta seus leitores. (...) O giro de Glauco Mattoso pelas possibilidades da língua embaralha as referências, compõe novos desenhos, leva-nos a rever nossa percepção de poema, leitura, obra, tradição, inovação, dor, amor... Como na música de Caetano, seus poemas encurtam dores, furtam cores, fazem profusões de prosódias e de paródias. É bom sentir a nossa língua roçar a língua de Glauco Mattoso.] [De Tom Zé: Fico muito contente quando recebo seus poemas bonitos, esse trabalho de mouro, belo. Sempre quero lhe agradecer. Agradeço o "Geléia de rococó" antes de ler. Como o autor é e continua sendo Glauco, posso lhe dar o obrigado antes da leitura. Num país em que há tantos autocomplacentes, uma pessoa que disciplina as palavras dentro duma forma tão rigorosa como o soneto, ainda que não fosse o ótimo poeta que é, já seria um grande exemplo para esse rebanho de preguiçosos.] [De Valêncio Xavier e Décio Pignatari, na "Gazeta do Povo": Após dez anos sem nada publicar, o poeta Glauco Mattoso lança pela Edições Ciência do Acidente o extraordinário "Centopéia: sonetos nojentos & quejandos". Como o subtítulo diz, são sonetos — gênero poético em descrédito — que Glauco, seguindo a métrica de Camões, maneja com perfeição, o que levou o crítico Wilson Martins a declarar que considera excelente a técnica de sua versificação. Com os "nojentos & quejandos" e o tom podólatra de sua poesia, Glauco retoma a tradição porno-erótica que vem de Marcial, Gregório de Matos, Quevedo e Bocage.] [De Wilberth Salgueiro, no livro "Lira à brasileira": Num ensaio de 1974, Hans Magnus Enzensberger fala do "efeito aspirina" da literatura: ela se dissolve, mas não desaparece. Adorno já dizia, nos anos cinqüenta, de uma "corrente subterrânea coletiva", vendo na forma lírica, além da expressão individual, a inscrição da experiência histórica. De 1977 a 1981, as 53 "folhas soltas" do "Jornal Dobrabil" testemunham um tempo de transição. A carnavalização "apolineobarroca" e "arcadionisíaca" de Glauco Mattoso dos "dactylogrammas" de então se mantém nos cáusticos sonetos da antologia "Poética na política (cem sonetos panfletários)", de 2004. Mesmo em contexto democrático, continua o tom cético e a verve demolidora do artista, fazendo de sua própria obra um exemplo da "corrente coletiva" que se sustenta na contramão do império dos meios de comunicação de massa, ainda que pelos resíduos marginais, não midiáticos, da literatura. (...) Passado o período de trevas políticas, e tudo o que isso implica para a formação de gerações e gerações, Glauco perde completamente a visão. Sua produção experimentalista de verve concreta dá lugar, a partir de 1999, a uma profusão, obsessiva mesmo, de sonetos. O fetiche pelo pé masculino — cultivado já no JD — dialoga com a cegueira, elemento trágico e irônico do estar no mundo. Lança, nesse ano, "Centopéia — sonetos nojentos e quejandos", "Paulisséia ilhada — sonetos tópicos", "Geléia de rococó — sonetos barrocos". Em 2000, "Panacéia — sonetos colaterais" confirma o lugar de destaque de Glauco no panorama da lírica contemporânea brasileira. O livro "Poética na política (cem sonetos panfletários)", de 2004, reúne sonetos recentes cuja temática, ou melhor, cujo alvo é preciso: os políticos. No entanto, os tempos mudaram: em 1º de janeiro de 2003, Lula assume a presidência da República, e com ele o Partido dos Trabalhadores chega ao poder. A esperança venceu o medo — enfim, dizíamos. Nem os novos ventos da alegria popular demoveram Glauco de seu dogma radicalmente antipolítico.] [De Wilson Bueno, no jornal "O Estado de S. Paulo": Com um rigor de forma poucas vezes visto na moderna poesia brasileira, os poemas de "Centopéia" apontam para uma inegável maturidade. Ao adotar o modelo camoniano, com exatos decassílabos, Glauco fez questão de, mantida a iconoclastia de sempre, sustentar-se rigorosamente fiel a uma tradição de sete séculos. Aliás, o recurso da adoção das chamadas formas fixas não é novo na produção poética de Glauco, só que agora, ao lançar mão dele para exorcizar o pânico de cada dia, os sonetos de "Centopéia" acabaram ficando, digamos, mais fiéis ao pós-modernismo decadentista deste fim de milênio. A produção anterior do poeta, de cunho nitidamente viso-espacial, era construtivista, e agora, por motivos óbvios, em vez de absolutizar "olhar" e "espaço", ele revaloriza o "tormento" interno de que são espelho a rigidez e disciplina, as quais exaltam, no processo mesmo de seu construir-se, uma "subversão" que não se quer mais óbvia, e sim roendo, insidiosa, o poema por dentro. Mais que o corrosivo humor que os atravessa, em torno do obsedante tema da podolatria homoerótica (fetiche por pés), o que fica destes sonetos é, sobretudo, o seu "tom" — não conseguindo em nenhum momento, apesar da paródia e do chiste, disfarçar uma incontornável amargura. E isso é o que, no mínimo, confere dignidade a esta poesia, cuja musa é o Sofrimento, ainda que, pelo viés do gozo, auto-infligido.]