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Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida por Glauco Mattoso a Jean
Vinicius Abreu, editor do sítio VISÃO GERAL (dedicado aos portadores
de glaucoma), matéria que foi ao ar em 2004.


[1] Qual seu tipo de glaucoma? Como foi o desenvolvimento da doença e o
tratamento?

GLAUCO MATTOSO: Como vocês perceberam, meu pseudônimo literário é um
trocadilho com o portador de glaucoma (glaucomatoso), e foi escolhido
justamente porque sou glaucomatoso de nascença, ou seja, antes mesmo de
ser batizado como Pedro-José. Não acompanho a evolução da nomenclatura
oftalmológica, mas meu glaucoma congênito era caracterizado pelo tamanho
grande do olho logo ao nascer, anomalia chamada na época de "buftalmo".
Meu olho direito era maior e mais duro que o esquerdo, e bem cedo notei
que enxergava menos com ele, enquanto o esquerdo tinha visão
praticamente normal. Já na idade escolar fui notando que ambos eram
míopes, o direito em maior grau. Ainda no primário comecei a usar óculos
e aos oito anos fui operado pela primeira vez, no Hospital das Clínicas,
em São Paulo. Mais tarde meus pais foram aconselhados a procurar
tratamento no Instituto Penido Burnier, em Campinas, que então era um
centro de referência. Os médicos não quiseram tentar nova operação até
que eu estivesse adulto, e fui sendo tratado com um colírio de
pilocarpina e comprimidos diuréticos. Aos dezoito anos comecei a perder
o olho direito, cujo volume foi aumentando junto com a miopia. Operei-o
aos vinte e um anos, com o professor da USP Celso Antônio de Carvalho,
mas houve perda total na própria mesa de cirurgia. Desde então fiquei
caolho, com a miopia progredindo proporcionalmente à pressão ocular do
esquerdo. Cheguei a usar óculos com mais de dez graus, e mesmo depois de
outra intervenção (com o Dr. Hilton Rocha, famoso cirurgião mineiro), a
pressão continuava subindo. Aos trinta anos fui novamente operado, desta
vez pelo médico paulista John Helal Jr., discípulo de Celso Carvalho, e
a pressão se estabilizou por alguns anos. Aos quarenta o Dr. John
operou-me a catarata e implantou uma lente de grau, que diminuiu as
grossas lentes dos óculos, mas a pressão voltou a subir. Nova operação
aos quarenta e dois anos, mas àquela altura as cirurgias indicadas
(trabeculotomia, trabeculectomia) já não davam resultado. Dois anos
depois ainda tentei nova operação, com um médico do hospital Albert
Einstein, mas a hemorragia pôs definitivamente a perder minha visão já
muito fraca. No olho direito, o mais afetado, a pressão atingiu picos
superiores a sessenta pontos, enquanto a do esquerdo, nos momentos mais
críticos, passou de cinqüenta. Mesmo depois da perda total tive que
continuar usando colírios, e atualmente a pressão do esquerdo se mantém
em torno dos vinte pontos, graças ao colírio Xalatan, que substituiu
todos os outros colírios e comprimidos, mas que não evitou a cegueira,
já que meu campo visual estava muito reduzido pelos escotomas e pelos
descolamentos internos, sangramentos, inflamações, etc. Pode-se dizer
que a medicina não tem solução para casos como o meu, apenas consegue
adiar a cegueira.


[2] Como era sua visão e como é hoje? Como tem sido sua adaptação?

GLAUCO MATTOSO: Hoje não enxergo nada, nem mesmo as sombras e claridades
que conseguia distinguir antes da última cirurgia, mas até os quarenta
pude ler e escrever o suficiente para estudar, me formar (cursei
biblioteconomia e letras), trabalhar (fui funcionário do Banco do
Brasil) e desenvolver minha carreira literária (tenho mais de vinte
livros publicados), entre outras atividades. Minha visão nunca foi
normal, sequer na infância, pois só conseguia ver de longe pelo olho
esquerdo. O direito era tão míope que só servia para ler bem de perto.
Isso não impediu que eu me dedicasse às artes visuais, como a poesia
concreta e os quadrinhos (não me confundam com o cartunista Glauco,
criador do Geraldão), antes pelo contrário: impedido de brincar como os
outros meninos, que praticavam esportes, andavam de bicicleta e dançavam
nos bailinhos, tornei-me mais estudioso e amante das letras. Com o
agravamento da moléstia, tive que abrir mão da leitura até que, já cego,
passei a me dedicar à produção de CDs de rock alternativo (associado a
um selo independente), mas no finalzinho do século apareceu um sistema
de computação sonora chamado Dos Vox (desenvolvido pela UFRJ para a
língua portuguesa), que "fala" o que vai sendo digitado ou "lê em voz
alta" o que já vem escrito, possibilitando-me o retorno à poesia e à
publicação de livros, bem como abrindo-me as portas da comunicação
internáutica. Já no dia-a-dia a coisa é mais difícil e sofrida, pois não
consigo me adaptar à cegueira nos atos mais práticos, e dependo de ajuda
dentro ou fora de casa. Outro problema é o despreparo e a discriminação
das pessoas em relação ao deficiente visual, o que me acarreta o
sofrimento adicional de suportar maus tratos. A única compensação que
consigo tirar é a fantasia masoquista, que se realiza através da minha
obra, na qual me sujeito às piores humilhações e desabafo minha revolta
contra as injustiças (humanas e divinas) de que me julgo vítima.


[3] Fale de sua formação e de seu trabalho no banco.

GLAUCO MATTOSO: No banco o serviço era burocrático e rotineiro, mas
quando me formei bibliotecário tive oportunidade de trabalhar no Centro
Cultural do Banco do Brasil (que então era um departamento englobando a
biblioteca e o museu de numismática, no Rio) e saí da casa dos pais, em
São Paulo, para passar uns anos na Cidade Maravilhosa, onde incrementei
a vida literária. De volta a Sampa, continuei no banco, mas caí de novo
na rotina dos formulários, das contas e dos carimbos, até ser aposentado
por invalidez. Não fiquei no Rio porque aqui estou mais perto da família
e das raízes culturais. Pensei várias vezes em me mudar para outro país,
mas a precariedade do meu estado clínico não me animou a sobreviver
longe da aposentadoria e da assistência médica a que tenho direito, e
assim me conformei com a condição de ex-bancário e ex-bibliotecário,
lembrando que a literatura não sustenta ninguém nesta terra.


[4] Fale de seus trabalhos como escritor e da relação de sua obra com o
glaucoma.

GLAUCO MATTOSO: Desde adolescente eu escrevia bastante, inventava uns
contos malucos, mas a poesia eu comecei a praticar nos anos 70,
paralelamente àquela geração dos "poetas marginais", só que meus
primeiros poemas já descreviam as sensações de quem sofre de glaucoma,
daí meu pseudônimo. No final deste texto dou dois exemplos daqueles
primeiros poemas, aludindo a alguns sintomas mais perceptíveis, tais
como o arco-íris circular que surge em torno de lâmpadas acesas e outros
focos luminosos, as manchas cegas que surgem em vários pontos do campo
visual (chamadas de escotomas), as "estrelinhas" que pipocam a qualquer
momento, dependendo do movimento ou do esforço físico que a gente
fizesse, e assim por diante. Outras impressões mais graves, como a perda
progressiva das cores (o vermelho e o verde foram as primeiras a dar
lugar a um cinza pálido), típicas da fase terminal da capacidade visual,
foram descritas nos sonetos dos quais dou uma amostra logo abaixo.


[5] Lembra de outras dificuldades e problemas decorrentes do glaucoma?

GLAUCO MATTOSO: São inúmeros os complicadores para quem sofre deste mal.
Contra-indicações de remédios, alimentos e bebidas a evitar, esforços
físicos... sem falar na miopia, que nunca estacionava, da dor de cabeça
causada pela pilocarpina e por outros colírios, da angústia e da
paranóia diante da perspectiva de ficar cego não se sabe quando... Mesmo
depois da perda total o glaucoma não pára de incomodar. Se a pressão do
olho cego deixar de ser controlada com medicamentos, a dor pode ficar
insuportável. No caso do olho direito (o que foi inutilizado há mais
tempo), demorou para que ele perdesse a rigidez de pedra e começasse a
murchar, e até nesse processo de encolhimento passei por muitos
sangramentos, pontadas, pruridos e corrimentos. Enfim, a agonia tem sido
longa e constante. Claro que nem todos os glaucomas são graves e fatais
como o meu, mas quem puder se prevenir que se previna.


[6] Encerre com o que mais quizer acrescentar.

GLAUCO MATTOSO: Apenas o consolo de saber que nós, os glaucomatosos,
estamos, como os cegos, em boa companhia: de Ray Charles a James Joyce,
de Jânio Quadros a Sérgio Sant'Anna, temos "colegas" em todos os campos
da celebridade. Pra não dizerem que sou maria-vai-com-as-outras, resolvi
me diferenciar pela atitude politicamente incorreta e escancaro meu
sadomasoquismo, meu fetichismo e minha escatologia numa linguagem muito
suja e violenta, razão pela qual sou conhecido como "o poeta da
crueldade". Meus livros e meu sítio pessoal dão provas desse
comportamento anticonvencional, mas quem tiver a curiosidade de ler o
que escrevo vai perceber que por trás da baixaria está algo mais
profundo, ou mais elevado, como queiram: o protesto contra todo tipo de
desumanidade, venha ela do próprio homem ou do Além.






PEQUENA AMOSTRA DE POEMAS SOBRE O GLAUCOMA

Veja abaixo alguns sonetos de GM compostos entre 1999 e 2003, quando o
poeta já estava cego, e, mais abaixo, dois poemas da década de 1970,
quando GM se iniciava na literatura, logo após uma cirurgia na qual
perdeu o olho direito:


SONETO GLAUCOMATOSO [242]

Barroco é uma charada cuja chave
depende da veneta do freguês.
Vendendo alguma dose de talvez,
compõe a pauta toda só com clave.

Glaucoma é uma ocular moléstia grave,
vendeta original de Quem nos fez.
Queimar ou torturar com a torquês
ao morbo comparado, é mais suave.

Requinte é uma palavra que bem calha
a Góngora, Quevedo ou Torquemada,
na fórmula forjada na fornalha.

Bem antes que a visão se torne um nada,
as cores do arco-íris formam malha
concêntrica na noite iluminada.


SONETO NATAL [951]

Nasci glaucomatoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.

Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.

Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.

Mas não compenso, nem que o gozo esguiche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.


SONETO ASTROLÓGICO [178]

No azar do tempo, câncer é meu signo.
Meu ascendente é sina, com certeza.
As cartas, já marcadas, sobre a mesa
só rezam que ao destino me resigno.

Como estigmatizado, me persigno.
Meu mapa astral não dá qualquer defesa.
Ser pato no zodíaco é dureza.
Se feio, então, não tem futuro digno.

Na tal constelação do Caranguejo
está um buraco negro gigantesco,
origem do glaucoma malfazejo.

Só mesmo um cosmo novo, ainda fresco,
reserva-me outra vida que, antevejo,
será sob um horóscopo momesco...


SONETO CONSOLO [380]

Não sou leproso, aidético ou capado.
Não sofro de impotência ou alergia.
Não cago sete vezes num só dia,
nem passo todo o mês sem ter cagado.

Não quero ser chamado de viado,
mas vejo a viadagem sem fobia.
Pó, pedra, pico ou gás não me vicia.
Jamais fumei sequer um baseado.

Mas, em compensação, lembro do olhar
de quem se foi, e à noite não sossego,
tentando com as trevas não sonhar.

Quanto mais vivo, à vida mais me apego.
Enfim, não sou tão vítima do azar:
só sou glaucomatoso e fiquei cego.


SONETO MEDICINAL [877]

Avanços mais comuns da medicina
são para os cardiopatas, para os loucos,
neuróticos, asmáticos ou roucos,
na cura ou no pregão que o mal previna.

Não há, porém, antídoto ou vacina
que livre da aflição aqueles poucos
que sofrem, cegos, mudos, mancos, moucos,
no horror da invalidez que os contamina.

Vergonha é o que a ciência inda não sente
mas era pra sentir, sendo tão lerda
no trato do glaucoma e seu doente!

Em vez de "irreversível", uma perda
da vista será, pura e simplesmente,
aquilo que foi sempre e é hoje: merda!


SONETO RASGADO [713]

Fenômeno curioso, força oculta
suspende de repente o meu sintoma
de febre, dor de dentes ou glaucoma
na véspera do exame ou da consulta.

Vem desde nossa infância à idade adulta,
e nada tem a ver com o diploma
exposto em consultórios ou a soma
cobrada, que nos dói mais que uma multa.

O fato é que saramos num instante,
com medo, porventura, do motor,
da pinça, faca ou coisa semelhante.

Porém o que nos causa mais pavor,
acima até do inferno que viu Dante,
é o mórbido sorriso do doutor...


SONETO DISSONANTE [116]

Palácios, almofadas de cetim,
caramanchões, perfume de alfazema,
diamante em preciosíssimo diadema,
manjares, vinho, essência de jasmim.

Malária, convulsão, pedra no rim,
gangrena, diabetes, enfisema,
bronquite, tifo, lepra, cancro, edema,
glaucoma, raiva, cólera... Ai de mim!

Você que lê, sentiu-se incomodado?
Então já percebeu como me sinto,
um cego porco em solo imaculado.

Até que meu grunhido seja extinto,
serei saliva imunda no solado
de quem pisa soalho tão distinto.


SONETO MONSTRUOSO [132]

Quasímodo é platônico na marra.
A fera, sem a bela, é só uma fera.
O Hyde e o Frankenstein também. Pudera!
Qual virgem quer beijar uma bocarra?

Já o sapo se deu bem, a lenda narra:
virou gato e casou cuma pantera.
Até o patinho feio recupera,
já cisne, a mesma estima da cigarra.

Destino ingrato é ser defeituoso!
Qualquer metamorfose só piora:
É cego hoje quem foi glaucomatoso.

Em vez duma princesa, beijo agora
a bota do bandido a quem dou gozo
chupando, pois não mama quem não chora...


SONETO TÂNTALO [311]

Tormentos são momentos. Dor eterna
é tão insuportável quanto o gozo
que nunca terminasse, caudaloso
lençol abastecendo uma cisterna.

Não há mal que não finde, nem interna
pressão total do humor glaucomatoso.
Um parto não é sempre doloroso.
Nem sempre uma gangrena amputa a perna.

A dor, como um orgasmo, é passageira.
Não fosse assim, o corpo acostumava,
e o ferro em brasa não fede nem cheira.

Sem dúvida, a tortura é nossa escrava,
exceto em se tratando de cegueira,
que, quanto mais perdura, mais se agrava.


SONETO CROMATOLÓGICO [332]

O branco é somatória; o preto, ausência.
O verde é o tom de azul com amarelo.
O cinza é um preto e branco menos belo.
Violeta é um desafio pra ciência.

Marrom e creme é mera conseqüência.
Abóbora e laranja não pincelo.
Magenta e sépia existem só no prelo.
Vermelho é comunista ou emergência.

Mania do pintor, como do vate,
as cores são constantes citações:
carmim, rosado, púrpura, escarlate.

Nuances, sangue em manchas e borrões
fizeram do meu olho este tomate,
e só guardei da cor recordações.


SONETO INFERIOR [360]

Mudei-me para o Rio desolado.
Perdi minha nissei. Nem vi o diploma.
Temendo o agravamento do glaucoma,
queria me atirar do Corcovado.

Pensei no Assis Valente, outro coitado
que de autocompaixão fatal se toma.
A calma da visão, porém, me embroma,
e a trágica opção fica de lado.

Ao pé do Pão de Açúcar, pelo Aterro,
caminho, sob o efeito azul do clima,
tentando achar as causas de algum erro.

A luz do sol me aquece e reanima.
Farei um bom proveito do desterro.
Fiquei por baixo. Agora estou por cima.


SONETO PASSAGEIRO [162]

Noventa e três foi ano de ansiedade.
Já quase sem visão, em Londres tento
buscar num oculista algum alento,
mas tudo em vão. Lá vem fatalidade!

Sem rei nem roque, andei pela cidade
e, em vez dum quadro lúgubre e cinzento,
vi cores, da abadia ao parlamento;
vi parques e palácios pela grade.

Um ônibus vermelho, em dois andares,
levou-me à estranha feira na avenida
e ao pub, em nada igual aos nossos bares.

Na feira, comprei bota já lambida.
No bar, bebi cerveja com meus pares,
pessoas que uma vez só vi na vida.


SONETO PREMIADO [417] (*)

Tu pensas que és a glória da nação
apenas por ter condecoração?

Troféus, estatuetas, copas, taças,
medalhas, láureas, placas e diplomas,
os pés no calçadão, bustos nas praças...

Comendas não são tudo nesta vida!
Doutor honoris causa é qualquer um
que, só porque também soltou seu pum,
já julga ter a merda mais fedida!

Do meu anonimato não desfaças,
pois com o mais terrível dos glaucomas
ganhei o campeonato das desgraças!

Exijo mais respeito, cidadão!
Não sou tão pouca porcaria, não!


(*) Neste soneto a divisão estrófica é diferente da usual: em vez de
dois quartetos e dois tercetos, GM usa um quarteto, dois tercetos e dois
dísticos, em ordem concêntrica.





Veja abaixo dois poemas da década de 1970, nos quais GM usa a antiga
"orthographia" para descrever impressões causadas pela doença que lhe
deu o pseudônimo:


KALEIDOSCOPIO (1974)

Relendo cartas com olho unico.
Delenda Carthago com olho punico.
Lenda escripta com olho runico.
Lente elliptica com olho conico.
Mente espirita com olho cynico.
Demente hysterica com olho clinico.
Semente hermetica com olho cyclico.
Serpente heretica com olho biblico.
Sentença enclitica com olho obliquo.
Substancia lithica com olho liquido.
Sciencia critica com olho logico.
Verdecencia cryptica com olho glauco.
Experiencia optica com olho cego.


(consciencia mystica com) OLHO MAGICO (1975)

         Um momento no tempo resta:
  o dextro, pela derradeira fresta
           lobrigou a ultima restia
      estampando-a na reminiscencia
   antes de succumbir.
                      O sinistro inda resiste
                    tragicamente, magicamente
    ao avanço da sombra, ao halo irisado... e
                     ao escotoma scintillante.
                                      Resiste
       e me offerece desesperadamente á mente
sua dadiva diaphana e ephemera:
       um polyorama multifario, kaleidoscopico,
                     ultifari   kaleid  copico
                      ltifar    kalei    opico
                       tifa     kale      pico
                        if      kal        ico
                       rifi     ka      delico
                      irific    k    chodelico
            feerico, mirifico,    psychodelico,
                  filtrando um universo de luz
             mais rutilante que o escotoma,
             mais matizado que o halo,
             mais ecliptico que a sombra.