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Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida em 2003 por Glauco Mattoso
a Augusto Nesi para a revista gaúcha INVERTEBRADO:


[1] Tua editora hoje é a Ciência do Acidente, que aparentemente trata
com muito cuidado e consideração o teu trabalho. Sofreste na busca de
uma editora ideal que possuísse uma linha editorial compatível com teu
trabalho? Em quem depositas credibilidade para acompanhamento e revisão
na produção final do livro?

GM: Tenho amigos que me ajudam lendo e revisando textos, entre eles o
infalível Tadeu Dias. Mas editor mesmo ainda não achei. O Joca (da
Ciência do Acidente) é outro autor independente que tem know-how
editorial, mas não banca nem dá conta de todas as encomendas. Deu cara
profissional a vários livros meus, mas não é como uma editora comercial.
Já publiquei pela Brasiliense, pela Record, mas nunca poesia. Esta
continua dependendo da publicação independente.


[2] Já realizaste trabalhos em poesia visual, poesia-conceito, poesia
concreta, poesia lírica, poesia panfletária, és um dos maiores
sonetistas da Língua Portuguesa... Ser rotulado como um dos ícones da
poesia marginal brasileira não limita um pouco teu trabalho?

GM: Todo rótulo limita. Ser considerado pornógrafo ou podólatra, por
exemplo, só se aplica a uma faceta do que faço. Mas não me importo, pois
cada rótulo me apresenta para um tipo diferente de público. Para quem
quer um vanguardista, sou concreto; para quem quer um cordelista, sou
cego cantador; para quem quer um palhaço, sou cego chupador, e assim por
diante.


[3] Tua fixação e aproximação com o mundo das HQ ( histórias em
quadrinhos) na década de 80 resultou em grandes parcerias como
roteirista para desenhos de Marcatti, Angeli, Mutarelli entre outros,
colaborando na extinta CHICLETE COM BANANA e sendo inclusive traduzido
para o italiano. Não podendo atualmente acompanhar os lançamentos e
novos títulos, na tua opinião quem representa os quadrinhos undergrounds
hoje no Brasil? Descartando a alternativa de ver o resultado final do
trabalho, caso surgisse a possibilidade de fazer uma parceria com um
desenhista do circuito internacional, quem tu escolherias: Manara,
Quino, Moebius, Crumb, Eisner, Shelton, Crepax...?

GM: Acho que Mutarelli, que continua produzindo muito, é hoje o mais
criativo e crítico quadrinhista brasileiro, mesmo que esteja sendo
editado comercialmente. Quanto aos gringos, como o Crepax já morreu,
acho que o Pichard, se estiver vivo, seria meu quadrinhista ideal para
caprichar, nos detalhes, todas as minhas fantasias cruéis, a julgar pelo
que fez naquela história da freira escravizada.


[4] Arrigo Barnabé, assim como tu, também foi citado na canção "Língua"
de Caetano Veloso, em 1984; recentemente em uma entrevista (revista
BRAVO! em 2001), Arrigo comentou que andava sem grana até para o
dentista dos filhos. Após ter inspirado e ser citado por Caetano, o que
mudou financeiramente para Glauco Mattoso como poeta? Tal citação
popularizou tua poesia para os ouvintes de MPB?

GM: Financeiramente nada muda, nem que alguém descubra que Nostradamus
me citou em algum poema profético. O crédito de Caetano, como o de
Augusto de Campos ou de Millôr, ajuda a manter meu nome em circulação, o
que não significa que o público conheça melhor minha obra. Vale como
reconhecimento, uma espécie de "certificado de qualidade", mas não
garante sucesso comercial. Aliás, nem conto com isso, mesmo.


[5] Em uma entrevista comentaste que sofres mais discriminação por seres
cego do que pelos teus textos ou tuas preferências sexuais. Ser poeta no
Brasil é foda, homosexual nem se fala; tu além de tudo és cego. A poesia
é válvula de escape numa sociedade homófoba e preconceituosa como o
Brasil?

GM: A poesia é válvula para todo tipo de inconformismo, em qualquer
parte. No meu caso é válvula de descarga. Com ela exorcizo a cegueira e
a intolerância alheia, e ainda me permito ser contraditório e me
humilhar diante de quem me discrimina. Só a poesia dá essa liberdade a
quem se supõe incapacitado.


[6] Quais são as fontes desse fetichismo desvairado por pés, do
sadomasoquismo e dos temas constantes na tua poesia, que são a tara, as
deformidades, o bizarro, o escroto e o nojento?

GM: A maior fonte do escritor é ele mesmo. Ser fiel à própria biografia
é o que faz a força e a autenticidade duma obra literária. Eu desabafo
os abusos que sofri na infância, à mercê de outros moleques, desabafo
contra a cegueira, os preconceitos, as desigualdades, e acabo, como todo
escritor sensível, extrapolando minha própria condição de sofredor para
me solidarizar com outras vítimas de injustiças, opressões e
discriminações. É isso que faz com que meus temas não sejam mera
sacanagem de punheteiro.


[7] É sabido de tua paixão pelos sonetistas Camões e Bocage, Gregório de
Matos e Augusto dos Anjos. Na poesia brasileira atual tem alguém que te
agrada?

GM: Se você quer dizer contemporâneos, tem muita gente: Bandeira, Jorge
de Lima, Vinícius... Mas se está se referindo só aos vivos, também vejo
valor num Bráulio Tavares, numa Leila Míccolis ou num Roberto Piva,
entre muitos, para não falar nos concretos, que continuam mestres e
instigadores.


[8] Pignatari citou e muito elogiou o teu JORNAL DOBRABIL no livro
"Signagem da Televisão" de 1986. Os irmãos Campos também elogiaram teu
trabalho devido aos recursos espaciais e de diagramação que usavas nas
tuas datilografias. Podemos aguardar hoje o surgimento de um novo
precursor para a linguagem poética brasileira?

GM: Seguidores novos sempre aparecem, alguns ótimos, mas precursor... é
difícil, já que as tendências literárias estão muito diluídas e
misturadas nessa geléia pós-moderna. No momento ninguém tem uma proposta
de estilo ou linguagem muito inovadora, mas quem sabe no decorrer do
novo século alguém hoje vivo seja considerado deflagrador de algum
"movimento"?


[9] Como foi tua discussão com o Jaguar sobre o artigo de tortura que
fizeste no período em que vocês trabalhavam no PASQUIM? Resultou numa
expulsão, né?

GM: Ah, isso nem tem importância. Todos fomos expulsos daqui ou dali
alguma vez. Importante mesmo é algum lugar em que queremos entrar e
nunca conseguimos. No meu caso, não seria a Academia Brasileira de
Letras, mas simplesmente uma editora que publique todas as obras dum
autor e que lhe pague o que deve. Isso, sim, equivale a um prêmio da
loteria.


[10] Por onde andam teus heterônimos, "Pedro o Podre" e "Garcia Loca"?

GM: Pedro era meu alter-ego punk e deixou a cena quando passou a década
de 80. Garcia Loca era meu personagem andrógino que só versejava em
espanhol. Esse reapareceu recentemente, quando saiu um volume dessa
poesia descastelhana intitulado GALERIA ALEGRIA. Mas já não assino
coisas novas com aqueles pseudônimos.


[11] És portador de glaucoma, é comprovado cientificamente que a
"cannabis sativa", sendo um vaso-dilatador, alivia a pressão ocular
exercida pela doença... Fazes uso deste método alternativo para aliviar
possíveis dores? Após 7 cirurgias para correção não ficou com o "saco
cheio" da medicina no Brasil?

GM: Estou de saco cheio com a medicina em todo o mundo e em todas as
áreas. Em pleno século XXI não conseguem fazer uma operação que
solucione definitivamente um caso de glaucoma, como na fimose ou na
vasectomia! No meu caso, nem a maconha resolve, nem colírios muito mais
concentrados que a pilocarpina. Sinto dores o tempo todo e só quando o
olho vazar e for trocado por uma prótese é que a coisa pode ter algum
desfecho.


[12] Que história é essa de greve que o Angeli fala que fizeste em 1991?
Crise artística? Desestímulo? Ou saco cheio mesmo?

GM: Nenhuma das anteriores. Foi só um faniquito que tive quando um
concurso de HQ extinguiu a categoria "melhor álbum independente" só para
não premiarem meu GLAUCOMIX, desenhado pelo Marcatti. Este quadrinhista
era cultuado no meio gibizeiro, mas por antipatia a mim boicotaram a
publicação, enquanto para as revistas foi mantida a categoria "melhor
revista independente". Coisas de panelinha. Mas a "greve" foi só na HQ,
não na poesia.


[13] Traduzindo Jorge Luis Borges com Jorge Schwartz em 1997 ganhaste um
prêmio Jabuti. Sempre comentas inclusive a semelhança da tua biografia
com a de Borges, cego, poeta e bibliotecário. A experiência que tiveste
nesta tradução não te estimula a realizar outras?

GM: O prêmio foi em 1999, e as coincidências com Borges incluem também a
bruxaria. Mas continuo, sim, a traduzir autores latino-americanos, como
Salvador Novo e Severo Sarduy.


[14] Podemos citar Restif de La Bretonne, Marquês de Sade, Sacher-Masoch
como literatura de inspiração para teus escritos?

GM: Não só esses, como outros "malditos" (Apollinaire, Genet, Aretino,
Lautréamont, Artaud, Jarry, Botto) sempre me motivam. Mas a maior fonte
é mesmo minha própria história.


[15] A música é uma constante na tua obra. Teus poemas já foram
musicados por Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Wander
Wildner, entre outros; atualmente és sócio do selo musical Rotten
Records. Os gêneros musicais "punk rock" e o "hardcore" ainda tocam na
vitrola de Glauco Mattoso?

GM: O que sempre toca é rockabilly cinqüentista (Buddy Holly, Warren
Smith), o rock'n'roll negro (Diddley, Berry), além dos sessentistas
Beatles, Byrds, Creedence e Kinks. O resto toca de vez em quando, nas
horas de saudade.


[16] Leminski também via de forma positiva essa junção de
poema-música-intérprete, o que na minha opinião também é muito saudável.
A música faz com que o poeta saia do anonimato?

GM: Não. Apenas torna o autor um pouco mais conhecido, mas não lhe
populariza a obra escrita. Em todo caso, acho importante que um poeta
tenha alguns de seus versos musicados, já que música (que tem a ver com
"musa") e poesia (que tem a ver com "lyrics") andam juntas desde tempos
mitológicos.


[17] Alcançar a marca de 1000 sonetos em tão curto período de tempo foi
um objetivo estipulado ou esta meta surgiu espontaneamente?

GM: Os maiores sonetistas não passaram de duas ou três centenas. Os que
ultrapassaram o milhar levaram a vida inteira. Eu pretendia no máximo
chegar aos 555 (quantidade de sonatas para cravo de Scarlatti, meu
compositor preferido), mas em cinco anos cheguei aos mil. Não porque me
impus o desafio, mas porque a compulsão de sonetar foi se acirrando, à
medida que aumentava minha revolta contra a cegueira e contra as dores
no olho, a insônia e os pesadelos. Coisa de louco desesperado, mesmo.


[18] Um soneto seu está na antologia OS CEM MELHORES POEMAS BRASILEIROS
DO SÉCULO da editora Objetiva. A escolha foi sua ou do organizador?
Estar entre os melhores poemas do século pode ser o auge na lavra de um
poeta?

GM: Tem seu valor, claro, mas como cada antologia é uma escolha do
organizador, o ideal seria ter um poema escolhido por votação do
público. Se eu mesmo escolhesse, acho que não me incluiria entre os cem
melhores, e sim entre os 101, já que me considero tão à parte, tão
esquisito e diferente, que serei sempre aquele um a mais.


[19] Será que dá pra bolar um breve hai-Kai (especialidade tua) ou um
poema cujo tema seja o título da revista (INVERTEBRADO)?

GM: A idéia sugere um mote, que eu glosaria à moda nordestina:


MOTE

Quando invertebrado é o bicho,
Ou se come ou tem veneno.


GLOSA

Dele debocho e pasticho
Se é político o cachorro,
Mas ao sarro não recorro
Quando invertebrado é o bicho.
Do polvo ao verme mais mixo,
Do gigante até o pequeno,
Cada qual no seu terreno,
Seja aranha ou caranguejo,
Eu prezo, pois, como o vejo,
Ou se come ou tem veneno.