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O GLOSADOR MOTEJOSO

Glauco Mattoso publica em 2003, em tiragem limitada, pela coleção 100 (Sem) Leitores (editada em São Paulo por Nelson de Oliveira), o volume de glosas concluído em 2001, O GLOSADOR MOTEJOSO. Neste livro GM retoma um gênero experimentado em 1982 na REVISTA DEDO MINGO, agora posto em prática de modo sistemático e planejado: a décima, usada para "comentar" temas por outrem propostos. Como explica o folclorista Barros Toledo, GM envenena a glosa "com sua visão negativa da cegueira e sua descarada inclinação para a inferioridade assumida — e, o que é pior, desafiando o mais arraigado dos valores que honram a reputação de um cantador ou glosador: a virilidade. Essa estratégia simultaneamente masoquista e anárquica, que subverte o conteúdo da poesia nordestina sem alterar-lhe a forma, Glauco a batiza de 'xibunguismo' e a pratica tanto no glosário avulso quanto na seqüência dialógica do folheto de cordel — casos, respectivamente, dos livros O GLOSADOR MOTEJOSO e ." Barros Toledo analisa O GLOSADOR MOTEJOSO nestes termos: [Paralelamente a uma incansável produção de sonetos, Glauco incursionou, ainda em 2001, num gênero igualmente tradicional e rigoroso: a décima, que, seja em redondilha maior, seja no decassílabo heróico, tem servido aos glosadores para responder ao desafio dos motes, na linha fescenina que vem de Bocage, passa por Laurindo Rabelo e pontifica, no caso do Nordeste brasileiro, entre os discípulos do potiguar Moysés Sesyom (1883-1932). Glauco revisitou, à sua maneira, os mesmos motes já trabalhados pelos cantadores; não satisfeito, transformou em motes alguns dísticos desentranhados das sextilhas de cordel atribuídas ao Cego Aderaldo (1882-1967), considerado o último dos grandes repentistas; ainda não satisfeito, fez o mesmo (garimpar motes) nos sonetos mais obscenos de Bocage, escolhendo de propósito versos cuja acentuação batesse com o ritmo anapéstico do "martelo agalopado", como é chamado o deca adaptado à décima. O resultado dessa nova aventura poética constitui o livro O GLOSADOR MOTEJOSO, do qual se adiantam exemplos dos três casos.] [1] Exemplos de motes tradicionais, em redondilha maior: Buceta, cu e caralho: Três instrumentos de foda. Caguei um negócio ali Que eu nunca comi na vida. Exemplos de como já foram glosados pelo paraibano José de Souza: Mesmo dentro do borralho Uma foda dá prazer; Pra ser boa tem que ter: Buceta, cu e caralho. Um cu ao molho, e com alho, Quem come não se incomoda, E eu que estou fora de moda Não pretendo mais foder: Estou querendo vender Três instrumentos de foda. Não pensei no que comi, Danou-se, deu a bexiga, Me deu um nó na barriga: Caguei um negócio ali. Aí, perguntaram aqui: Qual terá sido a comida? Eu que estava sem saída Tive que dar a resposta: O que ali caguei foi bosta, Que eu nunca comi na vida. Glosas de GM: BUCETA, CU E CARALHO: TRÊS INSTRUMENTOS DE FODA. Em vez de estudo e trabalho, A molecada travessa Tem três coisas na cabeça: Buceta, cu e caralho! Na falta da buça, eu calho E foder-me a boca é moda A que a turma se acomoda! A boca dum cego escroto; A rola e o pé dum garoto: Três instrumentos de foda! CAGUEI UM NEGÓCIO ALI QUE EU NUNCA COMI NA VIDA! Fico de quatro. Ele ri. Como cachorro me doma: "No chão, ceguinho! Ande, coma! Caguei um negócio ali!" Abocanhei e engoli A merda quente e fedida! Esse é o tipo de comida Que um vencido merecia, E não néctar e ambrosia, Que eu nunca comi na vida! [2] Exemplo de sextilha em Aderaldo, tirada do folheto PELEJA DO CEGO ADERALDO COM ZÉ PRETINHO DOS TUCUNS, assinado pelo piauiense Firmino Teixeira do Amaral: Sai daí, cego amarelo, Cor de couro de toucinho! Um cego da tua forma Chama-se abusa-vizinho! Aonde eu botar os pés, Cego não bota o focinho! (PRETINHO) Mote desentranhado e glosa de GM, também em redondilha maior: AONDE EU BOTAR OS PÉS CEGO NÃO BOTA O FOCINHO! Mais reles dentre as ralés, Do cego a raça descamba! Quem enxerga lhe diz: "Lamba Aonde eu botar os pés!" Assim sofro, desde os dez, Quando, na marra, engatinho, Chupo paus, provo sebinho... Não há, pra quem vê normal, Sola suja sob a qual Cego não bota o focinho! [3] Exemplos de sonetos bocagianos: SONETO AO ÁRCADE FRANÇA No canto de um venal salão de dança, Ao som de uma rebeca desgrudada, Olhos em alvo, a porra arrebitada, Bocage, o folgazão, rostia o França. (2) Este, com mogigangas de criança, Com a mão pelos ovos encrespada, Brandia sobre a roxa fronte alçada Do assanhado porraz, que quer lambança. Veterana se faz a mão bisonha; Tanto a tempo meneia, e sua o bicho, Que em Bocage o tesão vence a vergonha: Quis vir-me por luxúria, ou por capricho; Mas em vez de acudir-lhe alva langonha Rebenta-lhe do cu merdoso esguicho. SONETO ASCOROSO Piolhos cria o cabelo mais dourado; Branca remela o olho mais vistoso; Pelo nariz do rosto mais formoso O monco se divisa pendurado. Pela boca do rosto mais corado Hálito sai, às vezes bem ascoroso; [pronuncia-se "ascroso"] A mais nevada mão sempre é forçoso Que de sua dona o cu tenha tocado. Ao pé dele a melhor natura mora, Que deitando no mês podre gordura, Fétido mijo lança a qualquer hora. O cu mais alvo caga merda pura: Pois se é isto o que tanto se namora, Em ti mijo, em ti cago, ó formosura! Motes desentranhados e glosas de GM, no martelo agalopado: TANTO A TEMPO MENEIA E SUA O BICHO QUE EM BOCAGE O TESÃO VENCE A VERGONHA! Que de bicha me chamem! Eu me lixo E me espelho no exemplo de Bocage, A quem tara nenhuma cheira a ultraje, Tanto a tempo meneia e sua o bicho! Quando a porra, na cama, a sós esguicho, Com chulé minha língua ainda sonha E o sabor do sebinho atiça a bronha! Em Mattoso, o anormal transgride a norma E onde há nojo há prazer, da mesma forma Que em Bocage o tesão vence a vergonha! POIS SE É ISTO O QUE TANTO SE NAMORA, EM TI MIJO, EM TI CAGO, Ó FORMOSURA! És poeta que a mídia condecora E que a crítica trata por objeto: És discreto, no abstrato ou no concreto! Pois se é isto o que tanto se namora, Eu desisto da fórmula: estou fora! Minha vida não tem nada de pura: Desde cedo, encarei a pica dura, Fosse minha ou alheia, como arteira! Se teu verso não fede, a mim não cheira: Em ti mijo, em ti cago, ó formosura! Para outra amostra da poesia de GM neste gênero, acesse "Poesia de cordel" no TEMÁRIO MATTOSIANO