ECOLOGIA
GLAUCO MATTOSO, UM POETA ECOLÓGICO
Se em sua faceta punk o "poeta da crueldade" parece cético quanto à preservação da natureza e antevê um futuro de total devastação, pelo lado hippie capitaliza o potencial mais utópico da contracultura para sustentar que nunca é demais denunciar os predadores e protestar contra os vândalos do meio-ambiente. Nestes sonetos fica patente que, ao lado do niilista GM há um GM ecológico, vagamente esperançoso. [Pedro Ulysses Campos] SONETO 104 NATURALISTA Mirbeau bola um jardim mirabolante: Ali os supliciados são mantidos à vista do turista, e seus gemidos se igualam aos dum pássaro que cante. Na China fica o bosque verdejante. A fina dama exibe os seus vestidos enquanto os prisioneiros nus são ridos e goza o algoz seu jugo agonizante. Tortura e ecologia fazem par e o sangue tinge o verde como a flor. Sadismo é lá tal qual peixe no mar. Aqui, quem vê se faz torturador gozando o que não posso apreciar, pisando a dor do cego com humor. SONETO 145 VEGETARIANO O reino vegetal é um bom retrato das sábias intenções da Natureza, pois, se de um lado existe a framboesa, dum outro está o jiló, mórbido prato. Caroço de mamão é um troço chato. No entanto, o amendoim faz boa mesa. Caju não causa nojo ou estranheza. Já a baba do quiabo paga o pato. Noz, brócoli, alcachofra, couve-flor, cebola, tamarindo, carambola... Varia a opinião como o sabor. Eu gosto de verdura, mas na sola dum cara que é carnívoro, o fedor me faz ser fã do queijo gorgonzola. SONETO 219 AO PARQUE Oásis de verdura no concreto. Canteiro de graminha na calçada. Assim parece o parque, da sacada da típica babel beirando o teto. Em meio ao quente caos, um lugar quieto. Pelo Ibirapuera, a caminhada. Rente ao Jardim da Luz, uma fachada, projeto inacabado do arquiteto. Trianon, Aclimação, a Cantareira. Transpira uma metrópole traída. Em tudo tem que ser sempre a primeira! Na pura poluição, vive hoje a vida que um dia viveria a Terra inteira! Não há pioneirismo sem saída... SONETO 240 BARROCONCRETO Silvícolas cultivam terra aguada. Ar puro, mar azul, fartura quente. O verde acolhe os olhos e, silente, desdobra-se na sílaba molhada. A mata a vaga alaga, e lá se nada. Na grota sobra a luz sobrevivente. Da guerra brota a cruz da nossa gente. Brasil, assim a missa sela e brada. Semeia o grão, a prole, até a colheita. Rebanhos cria, acorda proletário. Saqueia, pilha e dorme. Come e deita. Nascente, o afluente, o tributário. O rio poluído, a paz suspeita. O traço de Brasília, agreste aquário. SONETO 335 CATASTRÓFICO As tais calamidades naturais parecem pueril, divino jogo: vulcão, tornado, seca, neve, fogo... Se não for o bastante, inda tem mais: Enchentes, terremotos, vendavais... Visões finais dum mago demagogo; São Pedro a mil, podrão, pulando o pogo... Jesus Cristo, escutai os nossos ais! Que bom se a humanidade se virasse que nem barata tonta no terreiro, só ela e uma galinha, face a face! Mas, quanto mais se pisa o formigueiro, mais rápido a formiga volta e nasce. Deus gringo, mas o povo é brasileiro. SONETO 339 RECICLADO Vivemos chafurdando em podriqueira. Os ares se saturam de impureza. As fezes empesteiam a represa. Água já sai fedendo da torneira. Nas carnes o sabor travado beira a decomposição. À mesma mesa, tresanda uma fruteira e mantém presa a má respiração de quem a cheira. Socorro! Vou morrer contaminado! Nas vascas da agonia já estertoro, somente prelibando meu bocado... Que nada! O conservante, o vento, o cloro disfarça a podridão do mau estado... Vomito, volto, voto, e já melhoro. SONETO 490 (CONTO PODADO) O velho jardineiro fora escravo. É livre, todavia, enquanto lida com rosa, girassol ou margarida, hortênsia, lírio, dália, trevo ou cravo. Entrou de seus decênios já no oitavo. Não tem nenhum desejo mais na vida exceto uma área verde ver florida. Mas donos só cochicham seu conchavo. Um dia a transação se concretiza e chega o novo dono, examinando. Percorre tudo, e até no jardim pisa. O negro, desgostoso, fala: "Vando!" Não sabe dizer "vândalo", e agoniza ao ver que ali virou clube ou quejando. SONETO 532 URUBUEIRO Cortavam tuas águas belo bosque, chamado de Dom Pedro, antes de entrares no limpo Tietê, rente a pomares, caramanchões, coretos, a um quiosque... Não falta, agora, entulho que se enrosque nas tuas pedras podres, e teus ares venenos são, a ponto de nem dares abrigo ao rato audaz que em ti se embosque... Se esgoto a céu aberto é o Tietê, nem isso és tu: tens teto sobre ti! Teu leito, lodo grosso, mal se vê... Reflexo da tristeza em que caí, o mais saudoso adeus que alguém te dê, Tamanduateí, te mando aí! SONETO 614 ESTUPEFATO Passeia um bassê solto pela trilha do bosque, e comparado ao tronco grosso do altíssimo eucalipto ou ao colosso copado da paineira, ele se humilha. Patinhas curtas, mal se desvencilha do arbusto mais rasteiro e já o pescoço se enrosca no cipó; mas eis que um osso humano, um fino dedo o maravilha! Vestígio do cadáver dalgum crime, a mão inteira, à boca do cãozinho, desfila pelo parque e glória exprime! Casais e solteironas, no caminho, lhe fazem festa, até que se aproxime e exiba seu troféu fresco e escarninho! SONETO 732 DESARVORADO [a Milton Jung] Parece que as moléstias pulmonares voltaram numa escala assustadora. Pandêmicas já são, como se fora romântica a aridez dos nossos ares. Pulmões são, um por vez, nem sempre aos pares, os alvos das bronquites, da traidora, fatal tuberculose, e assobiadora se torna a inspiração nos lupanares. A pleura dói nas costas, e no peito reflete a grossa tosse da traquéia, que, plena de catarro, é um cano estreito. Asmática e pneumônica, a plebéia manada arfa no denso (ou rarefeito) bulício da poluta Paulicéia. SONETO 734 INTOXICADO [a Redson] A fim de que o povão mais adoeça, precise de mais drogas e as consuma, a indústria farmacêutica tem uma perversa conspirata na cabeça. Em seus laboratórios faz que cresça o número dos vírus, e se alguma moléstia está em partícula que esfuma, fabrica e a lança ao ar em névoa espessa. Da noite para o dia, a propaganda espalha que saiu novo produto, mas só protege até que a coisa expanda. A prova de que o antídoto é fajuto é a cor de merda n'água, que, antes branda, mais suja está que os sapos que degluto. SONETO 757 DA MILITÂNCIA Podaram totalmente uma frondosa paineira centenária e, sem folhagem, inquieta e aflita está a periquitagem, achando a providência desastrosa. Já era aquela sombra de que goza a alegre maritaca! Agora a imagem dos galhos dá pretexto a que se engajem num ato de protesto, em polvorosa. Por fim os periquitos algo prático decidem: depenar todas as flores que pendem das sacadas, num dramático desforço contra humanos predadores. As aves são, no jogo democrático, do verde os deputados, senadores. SONETO 774 DA PRAGA O mato tomou conta do terreno em volta do solar, onde um jardim cortado de alamedas foi festim noturno, em bacanais do mito heleno. Deserto, passa o espaço a ser pequeno a tanta planta estranha e erva ruim. Revê-lo, em saudosismo imerso, vim e ao místico fenômeno o condeno. O prédio construído no lugar ocupa-lhe a área toda, mas preserva no pátio um pedacinho de pomar. Atenta, a criançada à noite observa furtivos movimentos, farfalhar nos galhos, mãos colhendo a fruta e a erva... SONETO 778 DO PRECONCEITO TEMPORAL Os meteorologistas não têm cura no seu tendencioso linguajar: "mau tempo" dizem quando vai fechar e "tempo bom" se o sol brilha e perdura. "Melhora" só se a chuva não figura nas tortas previsões. Massa polar ou frente fria ao verbo "piorar" vinculam. Se esquentar, delícia pura! E se eu gostar de chuva? E quando o inverno bem-vindo for a alguém? Com que direito quem só curte calor quer sol eterno? O clima é democrático e sujeito a súbita mudança: ora eu governo, "chuvista", ora um "solista" acaba eleito. SONETO 842 DA ESTIAGEM O incêndio florestal tudo devasta! Reservas inteirinhas viram brasa, e quem não desocupa sua casa na pele vê que a sorte lhe é madrasta! País carente ou rico, extensão vasta ou curta, o fogo até cidade arrasa! Piora quando, cada vez mais rasa, a suja água retida já não basta... Se morro acima, é fogo na canjica! Se vai por água abaixo, desce o morro! Correu, o bicho pega, e ai de quem fica! O mar não tá pra peixe, e, sem socorro, em breve água só bebe gente rica: se esgoto eu não beber, de sede morro!
