p. inicial

 

O COLUNISTA


        
Veja no menu abaixo algumas das seções fixas assinadas por Glauco Mattoso na mídia, seja impressa ou virtual. Mais abaixo, confira texto de Pedro Ulysses Campos comentando a colaboração de GM na imprensa. COISÍSSIMA NENHUMA! (OUTRACOISA) PORCA MISÉRIA! (CAROS AMIGOS) GLAUCOMATOPÉIA (BLOCOS ON LINE) LENHA NA LINHA (CAPITU) PÉ DE QUEBRA (A ARTE DA PALAVRA) PÔ DO MANO PODÔMANO (FRAUDE) VELOCHÚPEDE (VELOTROL) MICRÔNICA (CRONISTAS REUNIDOS) CHRONICAS DO BAIXO BIXIGA (PASQUIM) BANANA PURGATIVA (CHICLETE COM BANANA) PÉ DE IGUALDADE (SP SÓ PARA MAIORES)

O DESARTICULISTA GLAUCO MATTOSO

por Pedro Ulysses Campos(*)
Para um "poeta maldito", o relacionamento entre Glauco Mattoso e a mídia escrita até que apresenta saldo positivo. No período da ditadura, não teria sido mais censurado que os intelectuais da esquerda; na fase democrática, não seria mais boicotado que qualquer pornógrafo. Como as restrições a termos chulos e temas tabus vigoram mais na TV e no rádio, o espaço conquistado em jornais e revistas tem sido o possível dentro das proporções do mercado e da política editorial de cada órgão. Entrevistas e ensaios à parte, a colaboração periodística de GM é relativamente escassa, praticamente bissexta, se comparada à assiduidade e ao volume de texto produzido por colaboradores fixos da grande imprensa (resenhistas, cronistas, comentaristas esportivos, analistas políticos) — os articulistas profissionais, enfim. O que GM tem feito, ora como resenhista, ora como cronista, ora como crítico, é aquilo que faz como poeta, ou seja, anarquizar padrões e questionar valores, ainda quando se atém aos limites formais ou temáticos do espaço impresso. O colunismo mattosiano nasceu satírico e paródico nas seções que mantinha em seu JORNAL DOBRABIL, razão pela qual poder-se-ia, numa primeira leitura, catalogá-lo genericamente como humorismo. Mattoso se diz humorista, e certamente o é, mas não do tipo contador de anedotas, abertamente hilário. Ao invés, ele segue o modelo dum de seus ídolos, Millôr Fernandes, o livre-pensador das reflexões sem dor. Na prosa, pende para o filosófico, recorrendo à ironia, ao paradoxo e ao nonsense. Na poesia, perfila-se ao lado dos satíricos, dos burlescos e dos fesceninos. A paródia tem sido, na mão de GM, instrumento de utilidade múltipla e irrestrita. Ainda adolescente, estudando filosofia no curso clássico, rascunhou textos que oscilavam entre o conto e a crônica, reaproveitados no JORNAL DOBRABIL, como "Burocracia dos conceitos" e "O latifundiário", tirados dum embrionário livro que, tivesse saído, levaria o título de NOXO: ESTÓRIAS. Antes de ser um fanzine, um manifesto poético ou um laboratório de arte gráfica, o DOBRABIL era, na verdade, um jornal humorístico em toda sua extensão, a começar pela caracterização dos "editores", todos heterônimos jocosos do próprio GM: Pedro o Podre, Garcia Loca, Tomokatsu Sugawara, Al Cunha e outros. Pedro o Podre foi o mais freqüente, e remetia ao nome civil de Glauco, influenciado por Alex the Large (personagem de Burgess e Kubrick no livro/filme LARANJA MECÂNICA) e por Johnny Rotten, protótipo do punk "podreira", cujo anarquismo se refletia na irreverência da sátira dobrabilesca. Já Garcia Loca assinava poemas e frases de efeito em espanhol, posteriormente recolhidos no livro GALERIA ALEGRIA. Se o JORNAL DOBRABIL (1977 a 1981) trocadilhava com o JB, seu "suplemento" REVISTA DEDO MINGO (1982) aludia à REVISTA DE DOMINGO do mesmo jornal carioca. O passo seguinte foi a colaboração em periódicos francamente humorísticos, como o PASQUIM (onde assinou a coluna "Chronicas do Baixo Bixiga", iniciada na REVISTA DEDO MINGO) e O MATRACA (onde assinou a coluna "Política gay"), entre 1982 e 83, e, a partir de 1987, no gibi CHICLETE COM BANANA de Angeli (onde assinou a coluna "Banana purgativa"), editado por Toninho Mendes, com quem GM preparou, já em 1994, um livro a três (o terceiro ali era Furio Lonza) intitulado 365 MOTIVOS PARA ODIAR O BRASIL, sob o pseudônimo coletivo de Visconde da Casa Verde. Bem antes, ainda como colaborador do tablóide gay LAMPIÃO DA ESQUINA, Mattoso havia participado duma edição (1981) de anedotas em livro sob o título de A BICHA QUE RI, antologia organizada por Francisco Bittencourt. Algumas daquelas anedotas eram textos do DOBRABIL que GM refundiu poeticamente como parte do livro FÁBULAS RASAS & CONTOS FULMINANTES. Ainda na praia dos quadrinhos, Mattoso participou, em 1989, do gibi TRALHA, de Marcatti e Mutarelli (com a coluna "These disgusting things") e, em 1991, do gibi MIL PERIGOS (com a coluna "Tretas entre tribos"), enquanto, no jornal erótico SP SÓ PARA MAIORES, iniciava uma coluna sobre podolatria homossexual intitulada "Pé de igualdade" (1992), que só foi interrompida com a súbita extinção do periódico. Já a coluna musical-comportamental "Rockaolho" mantida por GM no suplemento DIÁRIO DA TRIBO (do DIÁRIO DO GRANDE ABC), entre 1993 e 94, foi interrompida devido à extinção da visão do autor, que então só enxergava precariamente de um olho, o qual acabou por sucumbir ao glaucoma. Até o final da década, o poeta não voltaria a assinar matérias na mídia. Seu retorno se deu pela rede virtual, quando já proliferavam as revistas eletrônicas e os portais culturais, como BLOCOS ON LINE, ROTEIROS ON LINE, VELOTROL, A ARTE DA PALAVRA, FRAUDE, POP BOX e outros, que abriram páginas ao colunismo mattosiano sem limitações de espaço ou teor. A partir de então, GM passou a colaborar regularmente, inaugurando sua atual fórmula híbrida entre poesia e prosa, enxertando poemas como ilustração da crônica ou legendando a poesia com comentários em prosa, alternando estrofes e parágrafos, sonetos e notas. Essa fórmula tem sido estendida à mídia impressa (revistas como CAROS AMIGOS e OUTRACOISA), na qual GM volta a comparecer, graças ao computador adaptado para cegos e após cinco anos de intensa produção poética. Em colunas como "Porca miséria!", "Coisíssima nenhuma!" ou "Glaucomatopéia", Mattoso exercita um estilo anfíbio que flui com extraordinária compatibilidade: o poema funciona como cartum para o texto, e este como recordatório para a charge — para usarmos uma imagem caricatural. Naturalmente a linguagem do autor continua desbocada e debochada, e seus temas se mantêm politicamente incorretos, como calha a um maldito incorrigível. Varia apenas o enfoque, que na CAROS AMIGOS é social e político, na OUTRACOISA é musical e alternativo, na BLOCOS metapoético e experimental, e assim por diante, de acordo com o público-alvo de cada veículo. Mattoso, que não é um poeta convencional, jamais poderia assinar uma página como cronista ou ensaísta convencional. Seu estilo, já o analisei, nada mais é que uma reciprocidade, entre poesia e prosa, resultante daquela estratégia de linguagem que dá personalidade à sua dicção desde os tempos do JORNAL DOBRABIL: uma infusão do chulo no erudito, uma simbiose entre o coloquial e o protocolar. Não se trata, entretanto, de mero artifício formal, mas de coerência — mais que ideológica — existencial. Mattoso debate-se, desde uma infância traumática (criado na periferia paulistana, era abusado por outros meninos devido à deficiência visual e refugiava-se na leitura), no conflito entre violência e intelectualidade, entre tortura e cultura — conflito que evoluiu, da consciência individual para a coletiva, durante duas décadas de ditadura, quando a única antítese da opressão e da repressão estava na impressão e na expressão — estas metaforizadas como armas da "resistência cultural". Livre-pensador que é, Mattoso viu-se engajado, menos política que filosoficamente, no debate mais humanístico possível: a coexistência (nada pacífica) entre o bruto e o lapidado. A meta da temática mattosiana, em prosa ou verso, é, em última análise, a própria metalinguagem da boca suja, penetrada e penetrante, ferida e ferina — abusada e abusada, em suma. A cegueira apenas fecha — com chave de cadeia — o ciclo do vício de linguagem de que GM é perpétuo prisioneiro. Para este tipo de transgressão não há anistia, e a pena é escrever. (*) Pedro Ulysses Campos, crítico e ensaísta carioca, é professor na UERJ. Autor de APÓSTOLOS E APÓSTATAS (1999) e GENEALOGIA DA POESIA (2002).