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O CALVÁRIO DOS CARECAS: HISTÓRIA DO TROTE ESTUDANTIL

Glauco Mattoso publica em 1985, pela casa EMW Editores (São Paulo), o ensaio monográfico O CALVÁRIO DOS CARECAS: HISTÓRIA DO TROTE ESTUDANTIL. Sobre este e outros trabalhos teóricos de GM, escreve Pedro Ulysses Campos: [Debochado demais para aceitar o comportado jargão acadêmico, irreverente demais para respeitar qualquer metodologia, politicamente incorreto demais para enquadrar-se numa ética do pensamento humanístico, Glauco Mattoso jamais poderia defender teses e escrever monografias, da mesma forma como Oswald não fora bem aceito pelo protocolo universitário. Ainda assim, GM chegou a resenhar (entre 1988 e 1990) para o CADERNO DE SÁBADO do JORNAL DA TARDE — onde se manteve em tom comedido — e a publicar três livros onde teorizou sobre assuntos que lhe instigavam a curiosidade. Além da poesia e suas possibilidades criativas, investigou as manifestações daquilo que chama de "desumanismo": a brutalidade, a crueldade, a violência — moral ou física; política, religiosa ou racial —, a começar pelo próprio estupro "comunitário", abuso de que foi vítima e que custou a explicitar, traumaticamente, em sonetos como o "Autobiográfico" (1999) e o "Primário" (2000). Dois desses livros são de bolso e saíram pela famosa coleção "Primeiros Passos" da editora Brasiliense: O QUE É POESIA MARGINAL (1981) e O QUE É TORTURA (1984). O terceiro é mais extenso e saiu em 1985 pela EMW Editores com o título de O CALVÁRIO DOS CARECAS: HISTÓRIA DO TROTE ESTUDANTIL. Nos voluminhos da Brasiliense os assuntos não podiam ser aprofundados e o estilo era necessariamente didático para torná-los palatáveis ao público pré-universitário. Já no CALVÁRIO não havia parâmetros, nem orientador ou editor, para cercear as especulações maníacas e a curiosidade mórbida de Mattoso ao tratar dum objeto tão impregnado de implicações perversamente libidinosas como o trote. Neste livro, GM não se refere à sua própria experiência — retratada nos sonetos "Estudantil" (1999) e "Superior" (2000), bem como no MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR —, que considera atípica por ter sido artificialmente provocada. Preocupa-se, isto sim, em rastrear o costume dos veteranos e calouros através de documentos de época, desde a Idade Média, quando todos os textos eram produzidos em latim decadente. Independentemente dos propósitos maliciosos de Mattoso, o CALVÁRIO é interessante até do ponto de vista poético, pois resgata pitorescos testemunhos versificados.] A seguir confira uma transcrição do trecho em que O CALVÁRIO DOS CARECAS aborda o trote em Portugal, tradição que influiu diretamente no costume brasileiro e se transferiu das arcadas de Coimbra para as do largo de São Francisco. A antiga ortografia dos versos portugueses foi preservada. [...] Vistas as fontes históricas, verifica-se que, tal como sucedeu na Europa medieval, o trote lusitano aparece mais pitoresco e pormenorizado nos depoimentos autobiográficos e nas composições literárias. Quanto a estas, dispomos duma singular preciosidade, o célebre PALITO MÉTRICO anteriormente citado. Trata-se duma coletânea de poemas macarrônicos e herói-cômicos, misturados a cartas e "recomendações" em prosa. A autoria é incerta, mas seguramente não são todas as peças do mesmo autor. O mais provável é que estejamos diante duma compilação de textos anônimos de diferentes épocas, mais ou menos contemporâneos do Rancho da Carqueja e das provisões reais, já que a primeira edição do PALITO data de 1746. Em todo caso, a maior parte dos poemas ali inseridos é atribuída a um presbítero secular, o padre João da Silva Rebello (1710-1790), que seria o responsável pelo pseudônimo Antonio Duarte Ferrão constante do frontispício. São inúmeras as edições do PALITO. A de 1942, organizada por Rocha Madahil, é das mais fiéis e completas. A de 1912 serviu-me de fonte para as transcrições. O PALITO se divide em várias partes. Na primeira, intitulada MACARRONEA LATINO-PORTUGUEZA, o que fascina os pesquisadores é o colorido da linguagem. Antonio Maria do Couto considerou o PALITO superior às composições de Scarron, Tomás de Yriarte e à "sublime macarrônea italiana" (Tifi Odasi, Folengo, etc.). Alberto Pimentel, nos POEMAS HERÓI-CÔMICOS PORTUGUESES, diz que "em verdade, raro era o estudante que, principalmente em Coimbra, não sabia de cor trechos do PALITO MÉTRICO ainda nas primeiras gerações acadêmicas do séc. XIX". Camilo Castelo Branco chegou a munir-se dum MAGNUM LEXICON para ler e traduzir os poemas latinizados, e elogiava o tal Ferrão como um latinista sem rival na sua especialidade. Para nós o que interessa aqui é a temática. Gira toda ela em torno das praxes acadêmicas, onde o calouro volta e meia está na berlinda. Graças a isso podemos saber com alguma riqueza de detalhes como era o tratamento reservado aos bichos em Coimbra. Embora não houvesse um período de escravidão compulsória e ininterrupta como na França e na Alemanha da Idade Média, o novato ou "louraça" estava permanentemente sujeito às tais "investidas" ou "troças", a partir do momento em que chegava à cidade para se matricular. O poema CALOURIADOS descreve a investida de recepção ao calouro João Fernandes: (...) Vixque ajustatum aluguele pagavit, Cum algazarris hinc inde apupata rapazum, Matriculorum chegat endiabrata caterva, Et cum Calouro estalagine pousat eâdem. Adque ubi louraçam bisparunt, protinus omnes Fortunam louvare suam. Primo unus eorum Pacifice envestit louraçam: illumque salutat More logrativo, & verbis cortejat amicis. Engolit louraça opium, adque anginhus iisdem Comprimenta facit verbis: tum caetera turba Rodeat miserum; truxque envestida começat. Principio quatuor mandat aparare sopapos, Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes, Donec sella chegat lumbo imponenda rebeldi. Novatus cuidans se tunc estare Coselhis, Respingat mandata: sui dominusque focinhi Se facit ad bandam, nec vult aparare sopapos. Illi indignantes, quod sic louraça reguinguet, Multa reluctantem agarrant & corpora sellâ Estirant: tum sella chegat, quam protinus anquis Louraçae imponunt: illumque erguere parumper Mandantes, brochant cilhas, freyumque Calouri Encaixant boquae: alter peitorale fivella Destrus abotôat: latam hic quadrilia circum Accingit retrancam: alius chairéle superne Concertat: louraçam omnes cavalescere cogunt. Jamque novum turbâ circum agarrante ginetem, (Namque escoucinhat) quidam saltavit in ancas, Murzellumque chamat, pernisque açoitat ilhargas. Ille choramingans, gemitu (nam fraena vetabant Fallare) exposcit veniam, alcançatque petitam. Tum sese apêat sessor, sellamque tiravit, Et freyum. Jam se confessat ad omnia promptum, Erguendo sursum digitum louraça trementem. Et casum carpindo suum, velut una criança, Per tristes adeò barbas chorabat abaixo. Ut seixus, pedrasque ruae chorare fariat. Moetorem veterani ejus, chorumque videntes, Omnia perdôant, praeter mamare sopapos, Atque bateculos, grossamque pagare patentem. Post haec coena chegat; veteranum tota caterva Accumbunt mensae, & mandant servire Novatum; Nec deixant illum coenae provare migalham, Aut pingam chincare vinhi: Novatus olhando Stat, luzente oculo, & cheiro tantummodo gozat. Amota mensa, variè jogatur; & omni In jogo ficat semper louraça logratus. Et postquam innumeros huic pregavére calótes, Descalçare botas mandant, deitantur & omnes In camis: louraça tamen taboaliter illam Jussu horum passat noctem, compridior unquam, Quâ sibi visa est nulla: & quae igualare podiat Lamegui noctes: sed non cerraverat olhum In tota. (...) Ali estavam os principais ingredientes da troça: a agressão física, a humilhação de ser reduzido a quadrúpede, montado e escarnecido, e o banquete (pagare patentem) do qual o calouro só participa como anfitrião e garçom. Na parte segunda, intitulada CALOIROLOGIA, NOVATOLOGIA, PRAXEOLOGIA ACADEMICA E ACTOS ADDICIONAES, um soneto traça o perfil do calouro e outro lhe prescreve os deveres: PENSÕES, QUE CÁ EM COIMBRA PAGA HUM CALOURO E HUM NOVATO AOS VETERANOS Não ter nome, senão o de Novato; Ser logrado d'algum caramboleiro; Soffrer o veterano companheiro, Que delle faz talvez gato-sapato: Em todas as funções pagar o pato; Na meza tirar sempre derradeiro; Comer, e beber mal por seu dinheiro; Mammar de vez em quando um esfollagato: Por dá cá aquella palha irem-lhe ao couro; E quando os mais dão fogo á artilheria, Não ser senhor de dar o seu estouro: Levar na veia da arca huma sangria: São pensões de hum novato, e de hum Calouro Pelo foral da nossa Academia. CONSELHO SAUDÁVEL A UM NOVATO Será mui obediente ao Veterano, Será no seu fallar muito encolhido, E quando fôr (quod absit) investido, Tudo executará com rosto lhano: Se acaso ouvir dizer: "Fóra pastrano", Vá andando, não se dê por entendido; Porque o mais é mostrar-se comprehendido, E além d'isso, arriscar-se a maior damno: Se dos quinze de maio se vir perto Sem que lhe tenha alguem montado em cima, Póde pesar-se a cêra pelo acerto: Mas de gabar-se d'isto se reprima; Pois lá diz um ditado muito certo, Que até lavar os cestos é vindima. Mais adiante, um longo poema composto em oitavas rimas (atribuído a um oficial da universidade designado pelas iniciais J.F.D.S.) intitula-se SYSTEMA METRICO, MODERNO E EXPERIMENTAL, PARA USO DOS NOVATOS, QUE NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA QUIZEREM EVITAR OS INNUMERAVEIS ENGANOS E CALOTES, A QUE ESTÃO SUJEITOS PELA SUA MISERIA. Vejamos algumas estrofes onde se narra a invasão da casa dum novato pela horda veterana: Logo a turba dos grandes mangadores, Que se pôde ajuntar, concorre armada A casa do Novato, nas melhores Intenções de mangar industriada: O Novato se toma de mil côres, E vendo a casa toda rodeada Da horrivel multidão, tem por desdouro, Em tão grande funcção servir de touro. Vê de uma parte o fero Alemtejano, Que um pequeno papel lhe põe na testa, Vê que d'outra o Minhoto deshumano Com garrochas continuas o molesta: Os olhos encaminha ao Veterano, E por tantas injurias lhe protesta; Porém ele lhe diz, que soffra tudo Humilde, paciente manso e mudo. Já o rude Algarvio apparecendo N'um cavallo escholastico montado, Notaveis cortezias vem fazendo Dos ligeiros Capinhas rodeado: Um vermelho murrião na fronte tendo, Que o finge mais soberbo, e respeitado, Faz no curro taes gestos de improviso, Que a todos os mirões provoca o riso. Chegando ao meio da soberba praça, Supplica ao Veterano duro, e injusto, Que licença lhe dê, para que faça A sorte, que pretende, a todo o custo: A venia conseguida, o manto traça, E empunhando o rojão no braço adusto, O Novato com tanta furia busca, Como se fôra um touro da Chamusca. Porem elle se anima na estacada, Qual o manhoso tóuro irresoluto, Que por mais que o rival lhe acena e brada, A nada d'isto emfim se move o bruto: Mas o bom toureador, que pouco, ou nada Ignora as manhas do animal astuto, Com tanta força encrava-lhe o rojão, Que estendido o deixou como um cação. Tal succede ao Novato, que indeciso Deixando-se ficar no chão prostrado, Observa a seu pesar o grande riso, Com que o seu Toureador é festejado: Assim que se levanta, de improviso De um rustico Beirão se vê montado, Que a repetidos golpes de um chicote, Por toda a sala o faz correr de trote. Não tanto o Picador as manhas tira Por violencia do açoute, e mais da espora, Ao pôtro, que jamais a sella vira, E as leis do freio totalmente ignora: Como o Beirão o amúo despedira D'este infeliz, ao qual melhor lhe fôra Ser o pôtro mais vil da picaria Que Novato na nossa Academia. Um lhe chama asneirão à bôca cheia, E lhe inquire se acaso a sua terra Será alguma montanha, alguma aldeia, Ou seu Pae é pastor de alguma serra: Outro lhe imputa tudo o que na ideia De injurias atrocissimas encerra: Outro lhe faz a affronta mais amara, Pois lhe chega a escarrar na própria cara. Com taes exhibições solemnemente, E outras muitas tambem, que agora omitto Em cuja narração precisamente Havia de gastar tempo infinito; Se festeja um Novato, que innocente, Depois de soffrer quanto tenho escripto, Ainda paga o dôce, que não come, Porque a turba voraz tudo consome. Mais uma vez se nota o hábito de fazer do calouro montaria, para em seguida obrigá-lo a custear a gula dos veteranos. Particularmente curioso é o momento em que se emprega a palavra "trote" numa acepção quase que intermediária entre o sentido real português e o figurado usado no Brasil. [...]