AMOR E CARINHO
GLAUCO MATTOSO, UM POETA AMOROSO
Embora retrabalhe, na forma, o molde camoniano de soneto, GM não preserva sua essência temática, necessariamente lírica. Sucessor que é, no fundo, de Bocage, o "poeta da crueldade" subverte até mesmo os parâmetros pornográficos, promiscuindo-os entre temas psicológicos, ideológicos e escatológicos, tais como o sadomasoquismo, a violência e a anti-higiene. Para GM o sexo está associado à brutalidade e à imundície, enquanto o relacionamento humano se rege pela hipocrisia, pela ganância e pela vaidade. Restaria, portanto, pouco espaço às manifestações afetivas e sentimentais. Mesmo assim, o poeta se permite alguns momentos de ternura ou calor humano, comovendo-se diante da fragilidade de outros seres sofredores e esquecendo ocasionalmente a revolta pessoal para compartilhar algo de positivo na vida em sociedade. Abaixo vão alguns exemplos. [Pedro Ulysses Campos] SONETO 26 LÍRICO Dizem que o amor é cego e a carne é fraca, mas só amei alguém quando enxergava. Hoje a cegueira queima como lava e o coração resiste a qualquer faca. Ontem tesão, agora só ressaca. Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava. Se inda me queixo dessa zica brava, sou caçoado e passo por babaca. Nem tudo está perdido: resta o cheiro que invade-me as narinas quando passo na porta do vizinho sapateiro. Vá lá: o papel que faço é de palhaço. O olfato é meu recurso derradeiro e o cheiro do fetiche o único laço. SONETO 49 VERSÁTIL A crítica que tenho recebido é quanto ao tema, não quanto ao formato: "O Glauco trata só de pé e sapato, ainda que use o molde mais subido." Respondo antes de tudo por Cupido: comigo ele jamais teve contato. Além do mais, não vou deixar barato que assunto algum me seja proibido. Sou cego mas eclético, e versejo acerca de problemas tão diversos que nem forró, barroco e sertanejo. De grandes e pequenos universos é feito o Pé que cheiro, beijo e vejo: a Ele presto conta dos meus versos. SONETO 73 OBSESSIVO O gosto pelo pé ficou mais forte depois que as trevas foram preenchendo o fundo do meu olho, neste horrendo martírio, mais agônico que a morte. Agora nem desejo a mesma sorte que alguns outros mortais prosseguem tendo de conviver a dois, e só me entendo servindo a qualquer sola de suporte. Só penso nisso, em sonho ou acordado. Masturbo-me na tímida ilusão de amanhecer debaixo dum solado. Aquele que em meu rosto dá o pisão é sempre um tipo mal-acostumado, e nunca a projeção duma paixão. SONETO 185 POSTIÇO No tempo de Bilac ou de Camões ficava favorável ao poeta, por trás da amável ordem indireta, brilhar na confraria dos chorões. Jorrava inspiração aos borbotões, mas tudo convergia à mesma meta: fazer do seresteiro que soneta palhaço das perdidas ilusões. Poetas, seresteiros, namorados, posavam todos eles de infelizes. Quem lia, comovia-se: "Ai, coitados!" "Imploro-te, sorrindo, que me pises!", diria um pobre Glauco, em baixos brados, aos pés da menos linda das atrizes. SONETO 202 AO HIPPIE O flower power viu você crescer e seu cabelo, à mesma proporção. De São Francisco a Londres, a noção de paz e amor irá permanecer. Tune in, turn on, drop out tentou dizer: Viagem, sintonia, sacação. Na década da droga era o bordão, e o mundo viu o sonho acontecer. Mas, como todo sonho tem um fim, a roupa colorida desbotou, e agora você é pai dum outro teen: Careta, que nem curte rock'n'roll. Seu pé, porém, ainda tem pra mim um cheiro de amor livre under the toe... SONETO 234 CONFESSIONAL Amar, amei. Não sei se fui amado, pois declarei amor a quem odiara e a quem amei jamais mostrei a cara, de medo de me ver posto de lado. Ainda odeio quem me tem odiado: devolvo agora aquilo que declara. Mas quem amei não volta, e a dor não sara. Não sobra nem a crença no passado. Palavra voa, escrito permanece, garante o adágio vindo do latim. Escrito é que nem ódio, só envelhece. Se serve de consolo, seja assim: Amor nunca se esquece, é que nem prece. Tomara, pois, que alguém reze por mim... SONETO 325 MATERNAL Xodó como o de mãe não tem igual. Tem dó do filho mesmo se ele for um Chico Estrela ou Jack, o Estripador. Beijinhos dá no monstro mais brutal. Da mãe mama e desmama um animal. Um filho não quer só dever favor: quer vir a ser do amor merecedor, ainda que se incline para o mal. Algumas mães são casca de ferida, piores do que o filho que lhes puxa. Herdar pendor materno é lei da vida. O gordo é procedente da gorducha. Político é rebento da bandida. O mago é primogênito da bruxa. SONETO 326 PATERNAL Por que Deus nunca é mãe? Por ser severo? O homem necessita autoridade. Só ama a quem receia, essa é a verdade. Por isso amava um Pai, temia um clero. Não é o rigor paterno que venero, mas sim a sapiência duma idade que já conhece Cristo, Buda e Sade, Homero e Judas, Sócrates e Nero. Camões na poesia sirvo e amo, "mas não servia ao pai, servia a ela", pois sou filho bastardo desse ramo. Em meio a numerosa parentela, me sinto até caçula quando chamo Bocage de titio, mana a Florbela. SONETO 327 FRATERNAL Irmãos são nobre exemplo de união, pecado abominável sendo incesto, assunto sobre o qual me manifesto de modo favorável, de antemão. Caim matou Abel, mas vários são os casos do bem claro e carnal gesto de amor, mais aceitável que o funesto extremo do homicídio entre os de Adão. Os Corsos, os Metralha, os três do Groucho... Dependem uns dos outros na labuta, no crime, na aventura ou riso frouxo. É lógico que os filhos duma puta fornicam entre si, sem um muxoxo, sequer uma ressalva diminuta. SONETO 363 SOLITÁRIO As raras namoradas são, de fato, o caso em minha vida mais secreto. Fui algo parecido ao come-quieto, embora bem bissexto fosse o prato. Agora que pertenço ao sindicato dos cegos, excluídos e sem-teto, carência dum carinho, dum afeto, não é maior problema, é o que constato. Ter sido pouco amado acaba sendo vantagem, pois não fico acostumado ao beijo, e dos abraços não dependo. Na hora de dormir, porém, de lado me deito, e ao pesadelo mais horrendo me rendo, em almofadas agarrado. SONETO 376 SONORO As vozes das vizinhas são distintas, algumas estridentes, outra mansa. Adultas ou com timbre de criança, ninfetas, quarentonas, velhas, trintas. Talvez não imagines nem consintas, mas meu ouvido cego não descansa: rastreia, pelo prédio, a vizinhança; permeia portas, tetos, luzes, tintas. És tu, balzaquiana, que me passas total tranqüilidade no teu tom, poupando-me de dores e desgraças! Não sei se és linda, pálida, marrom. Não penso em estaturas, pesos, raças. Só penso em tua voz, calor tão bom! SONETO 418 SENSORIAL (*) Sensíveis todos somos, mais ou menos, mas seres sensitivos, só os pequenos. Sentir é propriedade material. A gente sente a forma, o peso, a cor, aromas e calores, doce ou sal. Filósofos entendem que a verdade não passa de ilusão. Pensamos nela apenas como quem aspira, anela: delírios dum recluso atrás de grade. Sentir é perceber o que é real, mas é também querer, seja o que for, alguém ou algo, intenso, especial. Se somos sensuais, quem sabe é Vênus. Serão sentimentais somente os plenos. SONETO 436 (CONTO DOMÉSTICO) Estava o cachorrão sozinho e triste, trancado na casinha, come-e-dorme. Seu único brinquedo, aquele enorme, surrado pé de tênis, que resiste. Já vítima das línguas e do chiste, a idade faz que quase se conforme. Seus donos usam botas e uniforme. Não há rota de fuga que os despiste. Até que um lindo e tímido gatinho, em busca de refúgio, lá se deita. Naquele aperto, pisa-lhe o focinho. O cão acorda, estranha, mas aceita. Em vez de defender, divide o ninho, e agora a dupla vive satisfeita... SONETO 449 (CONTO ENGRAVATADO) Durante a recessão, a professora namora mas não casa, porque mora com mãe viúva, e o noivo se demora em vir pedir a mão da sofredora. Não quer engravidar, como se fora qualquer uma, mas filho não tem hora. A mãe do noivo, vendo prenhe a nora, proíbe o casamento, castradora. A mãe da mãe solteira se divide, chorosa, entre vergonha e amor materno, enquanto o armário ganha mais cabide. Um dia, o neto compra o próprio terno, sustenta duas velhas e progride. Malandro, aquece a casa em pleno inverno. SONETO 454 (CONTO TERMINAL) [recriando Afonso Schmidt] Num quarto de hospital morriam três raquíticos, tossindo, em calafrio: um órfão, um sobrinho e o velho tio. De quem do fim vai ser mais cedo a vez? O tio conserva a verve e a lucidez, dizendo que estão todos por um fio: "De hoje tu não passa, viu, mo fio?" Porém suporta o órfão quase um mês. Um deles já delira, o tal sobrinho, que sonha estar curado, toma o trem, do sítio onde nasceu põe-se a caminho. Chegando, encontra os outros dois no Além. Festejam e se abraçam com carinho. No leito, os mortos rindo encontra alguém. SONETO 464 (CONTO PARTILHADO) [recriando Mário de Andrade] Criada mora em casa da patroa com quem desde pequena se criara. Herdeira solitária, a mulher clara solteira permanece, e o tempo voa. Não é seu patrimônio coisa à toa, porém não desencalha, e se compara à sorte da empregada, cuja cara tem cor da do café que às duas coa. Tiveram ambas sonho e desengano por conta de namoros abortados. Agora bebem juntas, ano a ano. Na noite de Natal, trincham assados e secam alguns litros de cinzano. Dois corpos nus acordam abraçados. SONETO 472 (CONTO PASSIONAL) "Te amo!", diz a amada a seu amante após ter dito o mesmo a seu marido. Um deles certo está de ser traído. Só tem certeza o outro dum instante. "Mentira!", ambos respondem ao desplante de tal declaração. "Ama? Duvido!" Aos dois o sentimento tem sentido somente se exclusivo, e quem garante? O amante mata a amada, que ameaça deixá-lo, enquanto a sombra da suspeita recai sobre o marido: mais desgraça! Dois anos passa o corno em cela estreita, até que o outro é preso noutra praça por ter matado a quarta que o rejeita... SONETO 485 (CONTO ABRAÇADO) [recriando Machado de Assis] Na casa duns parentes o mocinho trabalha para o chefe da família. Nada na capital lhe maravilha a vista mais que a esposa do padrinho. Não fosse este tão ríspido e mesquinho, discreta ela não fosse, que armadilha montada ao jovem, cujo olhinho brilha pensando na patroa em mau caminho! O braço é que fascina o adolescente, exposto onde o restante está escondido: em sonho aquele afago quente sente. Jamais tal fantasia cai no olvido. Mal sabe ele que o braço esteve rente a si, quase o tocando adormecido! SONETO 549 TEMATIZADO De duas coisas todo bom poeta dever tem de falar para ser posto no círculo dos grandes e no gosto do povo ser mais um que se projeta: de estrelas e de rosas. Nada veta que seja seu soneto só composto de pétalas que espelhem-lhe o desgosto do amor que feneceu e nos afeta. Também ninguém proíbe que as estrelas figurem esperanças ou paixões e todos os sonetos tentem lê-las. Não morre um de Bilac ou de Camões, mas falta o que um poeta mede pelas (dum cego) fantasias e visões... SONETO 574 IDEALIZADO Se amo não deito. Se deito não trepo. Se trepo me estrepo. Amor é conceito. Se faço no leito, Não caio no laço. Amor é cabaço. Amor é conceito. Amor é perfeito: Quem dorme não peca. Amor é soneca. Amor não tem jeito: Amor é distância. Amor é de infância. SONETO 575 REVISITADO Quem disse que o Natal é só mercado? Por trás do panetone ou da castanha está um publicitário, uma campanha, o lucro, as estatísticas, o Estado. É certo. Mas o espírito arraigado mais dura que o presente que se ganha, mais lembra que um peru, que uma champanha a alguém com mais futuro que passado. Pois ela, a criancinha, é quem segura o tempo, em seu efêmero momento, salvando algo de júbilo ou ternura. Esqueça-se o comércio! Ainda tento rever cada Natal, cada gravura em meio a tanto adulto rabugento... SONETO 591 DESANUVIADO Cansei de violências e torpezas! Agora quero olhar o lado ameno da vida em sociedade, e me alieno da treva ao ver que as luzes são acesas! Nos lares, há fartura sobre as mesas! Respira-se progresso! Está-se em pleno regime democrático, e um aceno de paz aparta afrontas e estranhezas! Casais enamorados pelas praças passeiam, mesmo à noite, sem receio! Estoura-se champanhe! Erguem-se taças! É tão propício o clima, que não creio nublarem o horizonte as ameaças e agouros dalgum vate cego ou feio! SONETO 628 ACOMPANHADO Bassês não são eternos, nem são nossa melhor ou mais completa companhia... mas unem gênio, graça e raça à esguia salsicha, à pata torta, curta e grossa. Do Chicho, meu bassê, não há quem possa dizer que outro mais fofo e vivo havia. Dá dó seu triste olhar, que o meu copia. Tem charme e classe até quando se coça. Depois dalgum convívio, conversamos na mesma língua, e a bom entendedor bastava um "au", sem teimas nem reclamos. Sabia estar nos olhos minha dor, e sei que os dois estávamos e estamos no mesmo barco, e irei pronde ele for. SONETO 632 APARENTADO Traduza-se "basset" como "baixote", "baixinho", pois rasteiro é seu aspecto. Também de "texugueiro" é bem correto chamá-lo, já que a caça tem por dote. Não há melhor amigo nem mascote, Nem quem mereça mais carinho e afeto. Dos bardos é o cachorro predileto, embora haja quem gato ou cobra adote. O meu se chama Chicho, e tão afeito aos hábitos domésticos se julga que segue-me à poltrona, à mesa, ao leito. Enquanto nova lei ninguém promulga que como "filho afim" o tenha aceito, com ele até partilho a mesma pulga! SONETO 650 COMEDICADO No leito do hospital, não convalesce tão rápido o sofrido paciente. Recusa-se a comer. Fraco se sente. Já o osso sob a pele lhe aparece. Escuta a porta, e até que se interesse em ver quem entra, há um gelo no ambiente. O rosto enfim se volta. De repente, é como se um milagre se fizesse. Primeiro, o espanto anima-lhe o semblante. Num átimo, escancara-se o sorriso que explode em gargalhada no outro instante. Foi circo, mas não mágica, o improviso. Ao ver que era um palhaço o visitante, curou-se! O padre não é mais preciso. SONETO 743 DO AMOR REVISTO "Que seja eterno enquanto dure", disse com tais ou quais palavras o poeta, falando-nos de amor, que o interpreta como algo que surgisse e então sumisse. Uns acham-no sublime; outros, pieguice. Quem anda apaixonado vê completa a vida só com ele; em nada afeta, porém, a quem se isola na velhice. A dois adolescentes, os deslumbra. Ao mísero casal segura o laço. Ao cego é luz; ao cético, penumbra. Ao órfão é o sorriso do palhaço. Na guerra é apelo à paz, que a bomba obumbra. No verso é de Vinícius seu espaço. SONETO 776 DOS ÓDIOS DISCRETOS Se odeio alguém do fundo do meu peito, disfarço e mostro apenas que não quero maior intimidade: sou sincero, porém seu mal não berro que é "Bem feito!"... Mas quem dum inimigo meu tem jeito e passa por sofrer meu mais severo ataque ou glosa, em prosa ou verso, é mero colega de batalha ou de defeito. Os ódios se cultivam como um prato servido amanhecido, vingativo, que acaba envenenando quem diz "Mato!"... Por isso ódios extremos não cultivo: apenas aos que odeio sou ingrato e finjo que de amar seus pés me privo. (*) Neste soneto a divisão estrófica difere da usual: ao invés de dois quartetos e dois tercetos, temos dois dísticos, dois tercetos e um quarteto.
